
Profa. MSc. Thaise Leal (Docente do curso de Relações Internacionais da UNAMA.)
Em 1931 Max Horkheimer reuniu os filósofos Friedrich Pollock, Herbert Marcuse, e Theodor Adorno, fundando o Instituto para Pesquisa Social, e assim, iniciando um movimento crítico sobre o contexto histórico estabelecido com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a ascensão da direita e do nazismo na Alemanha, e pela economia política burguesa (Matos, 1993).
A segunda geração da Teoria Crítica foi liderada pelo assistente de Adorno, Jürgen Habermas, que muito influenciou o alargamento desta teoria para o âmbito global, sendo reconhecida como Teoria Crítica Internacional, tendo teóricos como Robert Cox e Andrew Linklater (Devetak, 1995).
Nascido na Alemanha, em 18 de junho de 1929, o filósofo e sociólogo, Jürgen Habermas foi uma ponte entre a Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica Internacional. Habermas (2002) faz análise genealógica do conteúdo cognitivo da moral, proposto por sua ética do discurso no que diz respeito a uma coordenação de ações aceitas dentro de uma comunidade moral.
Habermas lecionou nas Universidades de Heidelberg e Frankfurt, bem como na Universidade da Califórnia, Berkeley, e foi diretor do Instituto Max Planck para o Estudo das Condições de Vida no Mundo Científico-Técnico em Starnberg. Por seus trabalhos acadêmicos e ensaios, Habermas recebeu inúmeros prêmios e distinções, incluindo o Prêmio da Paz da Feira do Livro Alemã em 2001(Suhrkamp, 2026).
Para o filosofo, a formação de uma comunidade moral pressupõe a igualdade de tratamento, onde a prática moral de um indivíduo implica na mesma prática por outro indivíduo. Habermas (2002, p. 411), afirma “a justiça entendida universalisticamente exige que uma pessoa responda pela outra”, isto é, compreende que a justiça está estritamente relacionada à solidariedade.
Em seu livro “Consciência moral e agir comunicativo”, Habermas (1989) afirma que sua teoria discursiva da ética defende pressupostos universalistas. De fato, a ética do discurso não é em si mesmo o definidor de regras e princípios, antes é o processo pelo qual é possível verificar-se a validade das normas consideradas.
A ideia a partir da ética de Habermas (1989) sobre o agir coletivo exerce influência sobre as ideias de Andrew Linklater (1998) sob o viés cosmopolita. No sentido em que no âmbito internacional, a ética cosmopolita converge à ideia de respeitar e proteger o outro para além de um território nacional. O cosmopolitismo de Linklater (1998) ultrapassa fronteiras por entender a partir de Habermas, a importância do agir coletivo para o bem da coletividade.
A sociedade moderna possibilita uma conversa teórica entre Immanuel Kant e Jürgen Habermas, traçada através da visão de Andrew Linklater (1998). Assim como Kant(2006) afirmou em seus artigos que uma constituição justa, pautada na liberdade e igualdade contribuiria para que fosse possível alcançar a paz, Habermas (2002) acredita que o agir comunicativo pode ser visto em democracias liberais, isto é, as sociedades que têm espaço para o diálogo estão propensas a contribuírem cada vez menos com as práticas de exclusão.
Habermas (2018) manteve em sua análise recente as críticas às políticas de Donald Trump, Vladimir Putin e Recep Erdogan, bem como seu apoio ao aprofundamento político da União Europeia. Sobre as ondas de imigração, o filósofo pontuou que é necessário integrar as famílias de imigrantes, porém a forma correta de enfrentar tais problemáticas seria combater as causas econômicas nos países de origem (El País, 2018).
São inúmeras as contribuições de Habermas para análises sociológicas e internacionais. E, neste sábado, dia 14 de março de 2026, Jürgen Habermas faleceu aos 96 anos de idade, como um dos pensadores mais importantes da atualidade. Inclusive, com argumentos sobre o excesso de racionalidade técnica/econômica, que desumaniza e limita o debate sobre valores (El País, 2018).
Do ponto de vista Internacionalista, é necessário estabelecer que Habermas exerceu admirável influência sobre a política alemã e deixa como legado profundas contribuições sobre a filosofia social moderna, que possibilitam análises críticas sobre as relações internacionais do ponto de vista universalista.
Referências
DEVETAK, Richard. Critical Theory. in: S. Burchill e A. Linklater (orgs.). Theories of International Relations. New York: St. Martin’s Press, 1995.
HABERMAS Jürgen. A inclusão do outro. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
____. Consciência moral e agir comunicativo. Tradução de ALMEIDA, Guido. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
LINKLATER, Andrew. Men and Citizens in the Theory of International Relations. London: The Macmillan Press Ltd, 1982.
_____. The Transformation of Political Community Ethical: Foundations of the Post-Westphalian Era. Cambridge: Polity Press, 1998.
KANT, Immanuel. Para a paz perpétua. Rianxo: Instituto Galego de Estudos de Segurança Internacional e da Paz, 2006.
SUHRKAMP. Zum Tod Jürgen Habermas. Suhrkamp Verlag. Publicado em: março de 2026. Disponível em: https://www.suhrkamp.de/trauermeldung/zum-tod-von-juergen-habermas-b-5025. Acesso em: 14 mar. 2026.
EL PAÍS. Jürgen Habermas: “Não pode haver intelectuais se não há leitores”. Publicado em maio de 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/25/eps/1524679056_056165.html. Acesso em: 14 mar. 2026.
