
Julia Castro, Internacionalista
Layla Andrade, acadêmica do 5º Semestre de Relações Internacionais
Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 registraram feito histórico para o hóquei no gelo masculino dos Estados Unidos. Em 22 de fevereiro de 2026, a seleção americana derrotou o Canadá por 2 a 1 na prorrogação, com Jack Hughes marcando o gol de ouro aos 101 segundos do tempo extra, enquanto o goleiro Connor Hellebuyck teve atuação lendária com 41 defesas (BBC, 2026). A vitória quebrou jejum de 46 anos, sendo a primeira desde o “Milagre no Gelo” de 1980, e marcou a primeira vez que os EUA venceram o Canadá em finais olímpicas fora de seu território (BBC, 2026).
A conquista americana, porém, foi marcada por controvérsias envolvendo violação das regras olímpicas de neutralidade política. Durante as comemorações no vestiário da equipe masculina, o diretor do FBI, Kash Patel, esteve presente bebendo com os atletas enquanto o presidente Donald Trump conversava por telefone com os campeões (ge, 2026).
A presença de autoridade governamental em ambiente esportivo viola o princípio de independência política estabelecido na Carta Olímpica, que determina que membros do movimento olímpico devem atuar independentemente de interesses políticos (The New York Times, 2026).
Trump também fez comentários inapropriados sobre a seleção feminina. Ao convidar os atletas para a Casa Branca, declarou: “Tenho que dizer que precisaremos trazer a seleção feminina também. Elas provavelmente me destituíram, certo?” (ge, 2026). A declaração gerou críticas, e a equipe feminina recusou o convite, alegando “restrições de tempo e compromissos acadêmicos e profissionais” (Reuters, 2026).
Apesar das violações, o Comitê Olímpico Internacional não tomou qualquer medida contra os EUA ou Trump. O caso contrasta com a investigação aberta contra Gianni Infantino, presidente da FIFA e membro do COI, por sua participação em evento do governo Trump usando boné com símbolos políticos (The New York Times, 2026). Enquanto Infantino foi investigado por potencial violação da neutralidade, as ações envolvendo a equipe americana não geraram qualquer pronunciamento formal do COI, evidenciando tratamento seletivo das regras.
O contexto geopolítico tornou a derrota canadense ainda mais significativa. Desde seu retorno à Casa Branca em 2025, Trump intensificou a retórica agressiva contra o Canadá, referindo-se ao país vizinho como potencial “51º estado” (BBC, 2026).
Em suas redes sociais, Trump publicou imagem da águia-careca, símbolo nacional americano, atacando um ganso canadense no gelo, em clara referência à vitória esportiva (BBC, 2026). O presidente também ameaçou impedir a abertura da Ponte Internacional Gordie Howe, que liga Detroit a Windsor e homenageia lenda canadense do hóquei (G1, 2026).
Trump passou a tratar o primeiro-ministro Mark Carney como “Governador Carney”, numa tentativa de apagar a soberania canadense (CRI Online, 2026). Carney respondeu afirmando: “Não sobrevivemos porque somos Estados Unidos. O Canadá prospera porque somos canadenses” (CRI Online, 2026). Nesse ambiente de hostilidade, o hóquei, esporte inventado no Canadá e elevado à condição de símbolo nacional, tornou-se palco de disputa que transcende o aspecto esportivo.
Na ótica construtivista das Relações Internacionais, os símbolos culturais desempenham um papel fundamental na construção social de identidades e expectativas entre os Estados, funcionando como instrumentos de reconhecimento recíproco (Sarfati, 2005). De acordo com Alexander Wendt (1999), as estruturas das interações humanas são moldadas, principalmente, por ideias compartilhadas, em vez de fatores materiais.
As identidades e interesses dos agentes intencionais emergem dessas noções coletivas, ao invés de serem estabelecidos previamente pela natureza (Wendt, 1999, p. 1 apud ESRI, 2025). Essa identidade coletiva é fundamental nas relações entre os estados, pois promove a cooperação, garante a estabilidade e torna mais fácil a resolução pacífica de conflitos (Wendt apud ESRI, 2025). Neste cenário, conquistas em competições olímpicas de hóquei no gelo surgem como ferramentas de soft power, possibilitando que países fortaleçam suas narrativas de prestígio e liderança mundial.
O hóquei no gelo vai além de ser apenas um esporte, desempenhando um papel importante na formação dos valores e atitudes de diversos países. Sua origem remonta a 1855, quando estudantes britânicos em Montreal, no Canadá, formalizaram regras a partir de jogos indígenas como o lacrosse e o shinny, transformando-o em um símbolo nacional (Strauss, 2024).
Desde que se tornou uma modalidade olímpica em 1920, o hóquei consolidou-se como um meio pelo qual as identidades nacionais são apresentadas no cenário global (Saunders, 2014, p. 9). A rivalidade entre Canadá e Estados Unidos no hóquei é uma das mais antigas do esporte, carregando consigo muitos significados culturais e identitários no âmbito esportivo (Soares, 2011).
O desempenho das seleções no gelo é frequentemente utilizado como uma metáfora para as disputas políticas, culturais e ideológicas entre os países, possibilitando que as nações apresentem narrativas de coesão interna e superioridade externa por meio do esporte (Soares, 2011, p. 3).
A derrota canadense adquiriu contornos ainda mais amargos pelo contexto que a antecedeu. O capitão Sidney Crosby, maior artilheiro da história da seleção canadense, foi desfalque na final após sofrer uma lesão no quarto de final contra a República Tcheca (NBC NEWS, 2026). A ausência do principal símbolo do hóquei canadense privou o país de seu rosto mais reconhecível no momento decisivo.
Durante o terceiro período da final masculina, árbitros deixaram de apitar uma penalidade flagrante cometida pelos EUA, que chegaram a ter sete jogadores em campo, número que ultrapassa o limite máximo de cinco jogadores de linha permitido pelas regras da IIHF, sem que qualquer sanção fosse aplicada, gerando indignação entre torcedores e analistas canadenses que questionaram a lisura da arbitragem (THE MIRROR US, 2026).
A dimensão política do evento ganhou contornos incomuns com a presença do Diretor do FBI, Kash Patel, nas celebrações do vestiário norte-americano após a final masculina. Patel foi filmado bebendo cerveja e comemorando junto aos jogadores da seleção americana, em viagem custeada por jato governamental, enquanto o FBI lidava com múltiplas crises urgentes nos EUA (NBC NEWS, 2026b).
Durante as comemorações no vestiário, Patel facilitou uma ligação do presidente Donald Trump com a equipe, reforçando a associação entre a vitória esportiva e o governo americano (CNN, 2026). O episódio ganhou relevância diante do contexto geopolítico tenso: ao longo de 2025, Trump reiteradamente ameaçou incorporar o Canadá como o 51º estado dos EUA, utilizando tarifas punitivas como instrumento de pressão econômica.
A ex-ministra das Relações Exteriores do Canadá, Mélanie Joly, declarou que Trump desejava enfraquecer economicamente o país para facilitar sua eventual anexação (CNN, 2025). O contexto tornou a vitória olímpica americana muito mais do que um resultado esportivo, convertendo-a em um evento carregado de significado político.
A derrota canadense nas finais masculina e feminina de hóquei em Milano-Cortina 2026 não pode ser lida como um mero resultado esportivo; ela constitui, antes, uma ruptura simbólica de profundo impacto identitário. Para Peter Katzenstein (1996), a identidade nacional é construída a partir de normas culturais internalizadas que moldam tanto o comportamento dos Estados quanto a percepção que estes têm de si mesmos e dos outros.
O hóquei ocupa, no imaginário canadense, exatamente o papel que Katzenstein atribui às normas constitutivas: ele não apenas regula o comportamento, mas define quem o Canadá é. Ser derrotado nesse esporte, e pelo principal vizinho e rival histórico, implica, portanto, uma contestação da própria identidade nacional canadense.
Alexander Wendt (1999) argumenta que as identidades dos Estados são formadas por meio de interações sociais contínuas e que a posição de cada Estado no cenário internacional depende de como ele é reconhecido pelos demais atores. O Canadá construiu ao longo de mais de um século a identidade de guardião legítimo do hóquei: foi o país que inventou o esporte, que fundou a NHL em 1917 e que dominou as competições internacionais (NHL, 2026).
Esse acúmulo de reconhecimento histórico conferiu ao Canadá um status simbólico que transcende o resultado de qualquer partida isolada. A derrota em 2026, porém, não ocorreu em um vácuo social: ela se deu em um momento de severa pressão geopolítica exercida pelos EUA, o que amplifica o seu peso simbólico e transforma o placar em um instrumento de comunicação política entre os dois Estados.
A presença de Kash Patel no vestiário americano e a ligação de Trump com a equipe vencedora ilustram o mecanismo que Wendt (1999) denomina de construção de identidades por meio de interações estratégicas. Ao associar o aparelho de Estado à celebração esportiva, o governo Trump sinalizou para o mundo uma mensagem de poder e legitimidade: os EUA venceram não apenas no hóquei, mas na disputa por prestígio internacional.
Katzenstein (1996) sublinha que o soft power funciona por meio da atratividade cultural e do reconhecimento normativo, e a vitória olímpica, nesse sentido, serviu como veículo para que os EUA buscassem reconstruir sua imagem internacional em um momento em que a retórica agressiva de Trump havia deteriorado significativamente sua legitimidade perante aliados históricos como o Canadá.
A violação não punida das regras da IIHF, os sete jogadores americanos em campo durante o terceiro período da final masculina, acrescenta uma camada analítica relevante ao caso. Segundo Katzenstein (1996), normas internacionais derivam sua força da internalização coletiva e da expectativa de cumprimento universal.
Quando uma violação flagrante ocorre sem sanção, o efeito normativo é duplo: enfraquece a credibilidade da instituição reguladora e reforça a percepção de que as grandes potências operam com padrões diferenciados de responsabilização. Para o Canadá, já em posição de vulnerabilidade geopolítica diante das ameaças de anexação norte-americana, o episódio alimentou narrativas de assimetria e injustiça que ressoam muito além do contexto esportivo.
A dimensão de gênero das derrotas é igualmente relevante. O fato de o Canadá ter perdido ambas as finais, masculina e feminina, para os EUA por idêntico placar reforça a totalidade da ruptura simbólica. Wendt (1999) destaca que “a anarquia é o que os Estados fazem dela”: o significado das derrotas não é um dado objetivo, mas é socialmente construído a partir das interações e narrativas que as cercam.
Em um contexto no qual Trump chamava Trudeau de “governador” e propunha tornar o Canadá o “querido 51º estado”, as vitórias norte-americanas nas pistas de gelo não puderam ser dissociadas do projeto político de dominação simbólica em curso (ABC NEWS, 2025).
Milano-Cortina 2026 não será lembrada apenas como o ano em que os Estados Unidos venceram duas finais olímpicas de hóquei. Será lembrada como o momento em que o Canadá perdeu, em uma única semana, aquilo que levou mais de um século para construir: a soberania simbólica sobre o esporte que inventou.
A derrota não ocorreu somente nas pistas de gelo, ela ocorreu no plano das identidades, onde, segundo Wendt (1999), as guerras mais decisivas entre os Estados são travadas silenciosamente, por meio de narrativas, reconhecimentos e rupturas de expectativas historicamente sedimentadas.
O que torna o caso singular é precisamente a sobreposição de camadas: um país ameaçado de anexação por seu vizinho mais poderoso, privado de seu capitão mais emblemático, derrotado duas vezes pelo mesmo placar, em um jogo manchado por uma violação não punida.
Katzenstein (1996) argumenta que normas e identidades não são ornamentos da política internacional, são sua substância. Quando essas normas são violadas sem consequências e quando a identidade de uma nação é contestada simultaneamente no campo político e no esportivo, o impacto é visceral e duradouro. O Canadá saiu de Milão com duas medalhas de prata e com uma pergunta sem resposta fácil: se não somos os donos do hóquei, o que somos?
Para os Estados Unidos, a resposta foi dada com champanhe no vestiário e uma ligação presidencial ao vivo. A vitória olímpica foi absorvida pelo aparelho de poder trumpista como prova de superioridade, esportiva, política e simbólica. Mas o construtivismo alerta que identidades construídas sobre a humilhação do outro são frágeis e instáveis (WENDT, 1999).
O que Milano-Cortina 2026 revelou, em última instância, é que o hóquei no gelo nunca foi apenas um jogo: foi, e continua sendo, o terreno onde Canadá e Estados Unidos disputam algo muito maior do que uma medalha.
Referências:
ABC NEWS. Trump keeps talking about making Canada the 51st state. Is he serious? ABC News, 13 mar. 2025. Disponível em: https://abcnews.go.com/Politics/trump-talking-making-canada-51st-state/story?id=119767909. Acesso em: 6 mar. 2026.
CNN. Canadians are taking Trump’s annexation talk very seriously. CNN Politics, 11 mar. 2025. Disponível em: https://www.cnn.com/2025/03/11/politics/canada-trump-51st-state-rob-ford. Acesso em: 6 mar. 2026.
CNN. FBI Director Kash Patel celebrates with US men’s hockey team after Olympic win. CNN Politics, 22 fev. 2026. Disponível em: https://www.cnn.com/2026/02/22/politics/kash-patel-team-usa-hockey-locker-room. Acesso em: 6 mar. 2026.
ESCOLA SUPERIOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS. Construtivismo: a teoria construtivista e as identidades. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: <https://esri.net.br/construtivismo-teoria-construtivista-e-as-identidades/. Acesso em: 6 mar. 2026.
KATZENSTEIN, Peter J. (ed.). The Culture of National Security: Norms and Identity in World Politics. New York: Columbia University Press, 1996.
NBC NEWS. FBI head Kash Patel celebrates with men’s hockey team amid major probes in U.S. NBC News, 23 fev. 2026. Disponível em: https://www.nbcnews.com/news/us-news/kash-patel-fbi-celebrates-mens-hockey-team-winter-olympics-milan-video-rcna260215. Acesso em: 6 mar. 2026.
NHL. 2026 Milan-Cortina Olympic Winter Games: Men’s Tournament. USA Hockey, 2026. Disponível em: https://teamusa.usahockey.com/2026olympicmen. Acesso em: 6 mar. 2026.
NHL.COM. Jack Hughes scores in OT, Team USA wins Olympic gold medal game against Canada. NHL.com, 22 fev. 2026. Disponível em: https://www.nhl.com/news/united-states-canada-2026-olympics-gold-medal-game-recap-february-22-2026. Acesso em: 6 mar. 2026.
OLYMPICS.COM. Winter Olympics 2026: USA defeat Canada 2–1 in overtime to win women’s ice hockey gold. Olympics.com, 19 fev. 2026a. Disponível em: https://www.olympics.com/en/milano-cortina-2026/news/winter-olympics-2026-usa-defeat-canada-2-1-overtime-win-womens-ice-hockey-gold. Acesso em: 6 mar. 2026.
OLYMPICS.COM. Winter Olympics 2026: United States defeat Canada in overtime for first men’s ice hockey gold since 1980. Olympics.com, 22 fev. 2026b. Disponível em: https://www.olympics.com/en/milano-cortina-2026/news/winter-olympics-2026-united-states-defeat-canada-overtime. Acesso em: 6 mar. 2026.
SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
SARFATI, Gilberto Marcos Antonio. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
SAUNDERS, Brendan L. Hockey And National Identity In Canada. 2014. (Master of Arts – Integrated Studies) – Athabasca University, Athabasca, 2014.
Soares, J. Guerra Fria, gelo quente: hóquei no gelo internacional, 1947-1980. Recorde: Revista de História do Esporte, 4(1), 1-35, 2011. Tradução de artigo original em Journal of Sport History (2007).
STRAUSS, Travis. Uncovering the Power of Hockey: How it Reflects Canadian Identity. Ice Hockey Central. 2024. Disponível em: https://icehockeycentral.com/uncovering-the-power-of-hockey-how-it-reflects-canadian-identity/. Acesso em: 7 mar. 2026.
THE MIRROR US. Canada fans cry rigged as Winter Olympics officials miss clear USA penalty. The Mirror US, 22 fev. 2026. Disponível em: https://www.themirror.com/sport/ice-hockey/canada-team-usa-olympics-rigged-1698385. Acesso em: 6 mar. 2026.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge University Press, 1999.
