
Região: Europa
Lucas Ávila – acadêmico do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Em 3 de março de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proferiu uma declaração pública acerca do futuro das relações bilaterais entre Washington e Madri, afirmando que “a Espanha tem sido terrível” e anunciando a suspensão do comércio entre os dois países (BBC News, 2026).
A declaração ocorreu em resposta ao posicionamento oficial do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que havia negado ao governo norte-americano a autorização para o uso de bases militares estadunidenses em território espanhol. O episódio evidencia um ponto de inflexão nas relações transatlânticas, suscitando questionamentos sobre os impactos diplomáticos, econômicos e geopolíticos de uma eventual ruptura entre dois aliados históricos no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Embora se reconheça que a postura espanhola provoca tensões no interior da aliança atlântica, não se pode ignorar que o governo de Pedro Sánchez fundamenta sua recusa em princípios consolidados do direito internacional. Além de negar o uso das bases militares em seu território, Madri posicionou-se publicamente contra a intervenção militar no Irã conduzida pelos Estados Unidos e por Israel, sob o governo de Benjamin Netanyahu, classificando-a como injustificada, perigosa e contrária às normas do direito internacional.
A síntese do posicionamento espanhol foi expressa na declaração oficial de que a posição do governo pode ser resumida na frase “não à guerra”, enunciado que, longe de constituir mero recurso retórico, reflete uma tradição diplomática europeia orientada pelo multilateralismo e pela solução pacífica de controvérsias.
Para a análise dos fatos discorridos, recorre-se à perspectiva teórica do pensador pós-moderno das Relações Internacionais Michael Shapiro que, em sua obra Violent Cartographies: Mapping Cultures of War (1997), desenvolve o conceito de “cartografias violentas”, entendidas não como mapas geográficos em sentido estrito, mas como construções simbólicas que naturalizam o conflito, reificam a diferença entre povos e consagram a hegemonia de determinados atores sobre outros. Para Shapiro, tais cartografias operam como dispositivos discursivos que legitimam a violência ao inscrevêla na ordem do inevitável e do geograficamente dado, obscurecendo, assim, as relações de poder que as sustentam.
À luz dessa perspectiva, a declaração do presidente Trump, ao afirmar que “a Espanha tem sido terrível” e anunciar a suspensão do comércio bilateral, pode ser lida como a mobilização de uma cartografia violenta que reposiciona a Espanha na condição de alteridade hostil, justificando medidas punitivas por meio de uma retórica de ameaça e deslealdade. De modo análogo, a intervenção militar no Irã, contestada por Madri, expressa uma lógica cartográfica que delimita zonas de influência legítima e territórios passíveis de intervenção, naturalizando a assimetria de poder entre as potências ocidentais e o Sul Global.
Aplicando a teoria no contexto do conflito de ideias entre Estado Unidos e Espanha, observa-se a necessidade de Donald Trump de criar medidas punitivas ao Estado espanhol por negar a eles o uso de suas bases militares que, segundo Trump, são legítimas aos EUA e a negligência espanhola seria um atentado aos acordos feitos.
Este cenário reflete o uso das cartografias violentas de Shapiro (1997), visto que, o que Trump está fazendo é legitimar o uso estadunidense de bases em um território que não é seu mesmo que este uso seja negado, em outras palavras, atacando a soberania espanhola e criando um discurso no qual os Estados Unidos estão sendo injustiçados
por terem seus direitos acordados negados, portanto pouco importaria a posição do governo espanhol, seria seu dever permitir o uso das bases.
A partir de Shapiro (1997) é possível identificar na conduta do governo norte americano um uso paradigmático das cartografias violentas. Ao impor medidas punitivas à Espanha em resposta à negativa do uso de suas bases militares, pois Trump mobiliza um discurso que trata o acesso a território soberano estrangeiro como um direito adquirido e inquestionável dos Estados Unidos — naturalizando, assim, uma relação de poder profundamente assimétrica.
Nessa lógica cartográfica, a recusa espanhola não é interpretada como exercício legítimo de soberania, mas como descumprimento de obrigações e, em última instância, como um atentado aos interesses norte-americanos. O discurso presidencial constrói, dessa forma, uma narrativa na qual os Estados Unidos figuram como parte lesada, cuja posição de preponderância geopolítica é apresentada como fundamento suficiente para sobrepor-se à vontade do Estado espanhol. A soberania de Madri é, assim, esvaziada simbolicamente: pouco importaria a posição oficial do governo espanhol, pois caberia a ele, segundo essa cartografia, subordinar seu território às demandas do aliado hegemônico.
Trata-se, portanto, de um mecanismo discursivo que, ao revestir de legitimidade o uso de bases em território que não lhe pertence — e mesmo diante da expressa negativa do Estado soberano — opera precisamente como Shapiro (1997) descreve: naturalizando o conflito, consagrando hierarquias entre povos e invisibilizando a violência simbólica exercida sobre o outro.
À luz da análise empreendida, verifica-se que o referencial teórico de Shapiro (1997) oferece instrumental analítico robusto para a compreensão do episódio examinado. A narrativa territorial estadunidense, manifesta tanto na tentativa de legitimar o uso de bases militares em solo espanhol quanto nas medidas punitivas impostas diante da recusa de Madri, revelando-se como expressão contemporânea das cartografias violentas descritas pelo autor: um dispositivo discursivo que naturaliza a presença e a influência norte-americana em territórios estrangeiros, hierarquiza os atores internacionais e esvazia simbolicamente a soberania daqueles que ousam contestar a ordem hegemônica estabelecida.
O caso em questão, longe de constituir um episódio isolado da política externa trumpista, insere-se em uma tradição mais ampla de produção de legitimidade por meio da linguagem geopolítica, na qual o direito à intervenção militar ou econômica é apresentado como natural e previamente acordado, independentemente da vontade dos Estados envolvidos.
Nesse sentido, o conflito entre Washington e Madri configura um exemplo paradigmático da operação das cartografias violentas no cenário internacional contemporâneo, evidenciando a persistência de lógicas imperiais revestidas de vocabulário jurídico e diplomático.
REFERÊNCIAS:
BBC NEWS BRASIL. Trump diz que Espanha “tem sido terrível” e ameaça suspender comércio após país negar uso de bases militares. 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cp855q6d5geo. Acesso em: 7 mar. 2026.
SHAPIRO, Michael J. Violent Cartographies: Mapping Cultures of War. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1997.
