Lucas Cardoso – Acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Ali Hosseini Khamenei nasceu em 19 de abril de 1939 na cidade de Mashhad, no nordeste do Irã, em uma família religiosa de origem modesta. Filho de um clérigo xiita, cresceu em um ambiente profundamente ligado à tradição religiosa islâmica. Desde cedo foi incentivado a seguir estudos teológicos, ingressando em seminários religiosos onde estudou jurisprudência islâmica, filosofia e interpretação do Alcorão. Essa formação religiosa desempenhou um papel central na construção de sua visão política e intelectual. O contexto social e político do Irã durante sua juventude, marcado pela modernização autoritária do regime monárquico, também contribuiu para o desenvolvimento de seu pensamento crítico em relação ao governo do xá(Axworth,2013)

Durante seus anos de formação, Khamenei estudou em centros religiosos importantes como Mashhad e posteriormente Qom, cidade considerada um dos principais polos do pensamento xiita no mundo islâmico. Foi nesse ambiente que entrou em contato com ideias revolucionárias e com lideranças religiosas que se opunham à monarquia iraniana. Entre essas figuras estava o aiatolá Ruhollah Khomeini, que se tornaria o principal líder da oposição ao xá Mohammad Reza Pahlavi. A influência de Khomeini foi decisiva na formação política de Khamenei, especialmente no que diz respeito à relação entre religião, poder político e mobilização social (Khomeini,1970).

Nas décadas de 1960 e 1970, o Irã passou por intensos conflitos políticos e sociais. O governo do xá buscava promover um processo de modernização acelerada conhecido como Revolução Branca, que incluía reformas econômicas e sociais, mas também aumentava a repressão política. Nesse contexto, diversos setores da sociedade iraniana passaram a se mobilizar contra o regime. Khamenei participou ativamente dessas mobilizações, realizando discursos religiosos e políticos que criticavam a influência ocidental no país e defendia maior autonomia cultural e política para o Irã (Hobsbawm,1995).

Com o avanço das mobilizações populares, a oposição ao regime monárquico cresceu ao longo da década de 1970. Esse processo culminou na Revolução Iraniana, que levou à queda do xá em 1979 e à criação da República Islâmica do Irã. Após a revolução, Khamenei passou a ocupar posições importantes dentro da nova estrutura política do país. Ele atuou como membro do Conselho Revolucionário e posteriormente assumiu diferentes cargos institucionais, tornando-se uma figura relevante dentro do novo regime político que buscava combinar princípios religiosos com estruturas estatais modernas(Axworth,2013)

Entre 1981 e 1989, Khamenei ocupou o cargo de presidente da República Islâmica do Irã, período marcado por desafios internos e externos significativos. Um dos eventos mais importantes dessa fase foi a Guerra Irã‑Iraque, conflito que mobilizou grande parte da sociedade iraniana e consolidou discursos de resistência nacional. Durante esse período, a liderança política do país enfatizou valores de sacrifício, unidade e defesa da soberania nacional, elementos que passaram a compor a narrativa política da República Islâmica(Hobsbawm,1995).

Após a morte de Khomeini em 1989, a Assembleia dos Especialistas escolheu Khamenei para assumir a posição de Líder Supremo do Irã, o cargo mais alto dentro do sistema político do país. Como Líder Supremo, ele passou a exercer autoridade sobre instituições fundamentais do Estado, incluindo as forças armadas, o sistema judicial e diversos órgãos estratégicos. Sua liderança teve papel importante na continuidade das diretrizes políticas estabelecidas durante a revolução e na manutenção da estrutura ideológica da República Islâmica.

No campo da política externa, o Irã sob a liderança de Khamenei adotou uma postura frequentemente caracterizada pela defesa da soberania nacional e pela crítica à influência de potências ocidentais no Oriente Médio. Essa orientação política está ligada à narrativa construída após a Revolução Iraniana, que enfatiza a independência política e a resistência ao imperialismo. Ao mesmo tempo, o país buscou ampliar suas relações com diferentes atores regionais e globais, consolidando uma política externa baseada na afirmação de sua identidade política e religiosa(Khomeini,1970).

A trajetória política de Ali Khamenei pode ser analisada a partir da teoria construtivista das Relações Internacionais, especialmente nas contribuições de Nicholas Onuf. O construtivismo argumenta que o sistema internacional não é formado apenas por estruturas materiais, como poder militar ou econômico, mas também por ideias, normas e identidades compartilhadas entre os atores políticos. Dessa forma, os interesses dos Estados são moldados por processos sociais e históricos que influenciam a forma como esses atores compreendem o mundo (Wendt,1999).

Onuf destaca que as regras e discursos políticos desempenham papel fundamental na construção da realidade internacional. Para o autor, as interações entre atores políticos produzem estruturas normativas que orientam comportamentos e expectativas no sistema internacional. Nesse sentido, a identidade política construída pela Revolução Iraniana  baseada em valores religiosos, soberania nacional e resistência política pode ser compreendida como resultado de processos sociais e discursivos que moldam a atuação do Estado iraniano no cenário global.

Assim, a liderança de Ali Khamenei pode ser interpretada como parte de um processo de reprodução e consolidação dessa identidade política dentro da República Islâmica. Por meio de discursos políticos, instituições religiosas e políticas públicas, o governo iraniano reforça narrativas que definem a posição do país no sistema internacional. Sob a perspectiva construtivista, essas narrativas ajudam a explicar como ideias, valores e representações políticas influenciam tanto a política doméstica quanto a atuação internacional do Irã.

Referências:

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

ONUF, Nicholas. World of Our Making: Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Columbia: University of South Carolina Press, 1989.

AXWORTHY, Michael. Revolutionary Iran: A History of the Islamic Republic. Oxford: Oxford University Press, 2013.

KHOMEINI, Ruhollah. Islamic Government: Governance of the Jurist. Tehran: Institute for Compilation and Publication of Imam Khomeini Works, 1970. WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 199