Thaís Carvalho, internacionalista formada na Unama

Ficha Técnica:

Ano: 2025

Gênero: Ação, Drama Policial

Diretor: Paul Thomas Anderson

Distribuição: Warner Bros

País de Origem: Estados Unidos da América

O longa-metragem One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra, em português), dirigido por Paul Thomas Anderson e vencedor de seis estatuetas no Oscar 2026, incluindo a de Melhor Filme, acompanha Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), um ex-revolucionário que, após dezesseis anos afastado da militância, é compelido a retomar a luta armada. Essa decisão ocorre quando sua filha passa a ser perseguida pelo Coronel Steven Lockjaw, vivido por Sean Penn, determinado a eliminar os remanescentes do grupo revolucionário French 75 (Soto, 2026).

Ambientada em um Estados Unidos de caráter pseudo-distópico, marcado pelo avanço de práticas autoritárias, a narrativa apresenta inicialmente a figura de Perfídia, interpretada por Teyana Taylor, uma mulher negra profundamente engajada na luta armada e comprometida com seus ideais revolucionários. À frente do grupo French 75, a personagem lidera ações de sabotagem contra o governo, direcionadas a políticas opressivas, como a deportação de imigrantes e a criminalização do aborto. Nesse contexto, os militantes recorrem à ação armada como estratégia para contestar e tentar reverter decisões estatais (Revista Raça, 2025).

Confira o trailer de ‘Uma Batalha Após a Outra’ (2025)

Nesse contexto, a situação se intensifica após a invasão de um centro de detenção de imigrantes e a consequente libertação dos detidos, episódio que projeta o grupo como alvo prioritário das forças militares. A partir desse episódio, o Coronel Lockjaw passa a perseguir sistematicamente os integrantes do movimento, assumindo como missão pessoal eliminá-los, sob a justificativa de “purificar” a nação. Dessa forma, o filme explicita o aprofundamento do conflito entre resistência política e repressão estatal, evidenciando a radicalização de ambos os lados.

Durante sua atuação no movimento, Bob e Perfídia desenvolvem um relacionamento afetivo do qual nasce sua filha, Willa. No entanto, em meio à intensificação dos conflitos e à crescente repressão contra o French 75, o casal acaba se separando e se vê obrigado a fugir para garantir a própria sobrevivência. Nesse contexto, cabe a Bob assumir a criação da filha, mantendo-a afastada das perseguições direcionadas aos antigos integrantes do movimento (Revista Raça, 2025).

A partir desse ponto, a narrativa de One Battle After Another aprofunda-se não apenas como um relato de perseguição política, mas como uma reflexão sobre as estruturas que sustentam tais conflitos. No campo das Relações Internacionais, a obra pode ser analisada sob a perspectiva da Teoria Crítica, abordagem que busca compreender a ordem mundial para além da simples descrição de seus mecanismos, revelando as estruturas de poder e os interesses que a sustentam (Silva, 2005). 

De acordo com o teórico crítico Robert Cox, em sua obra Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory (1981), a ordem internacional é resultado de processos históricos e relações de poder, não sendo neutra nem imutável. Para o autor, “uma teoria é sempre para alguém e para algum propósito” (Cox, 1981, p. 128), o que implica que instituições, ideias e estruturas políticas atuam na manutenção de determinadas formas de dominação, mas também podem ser contestadas e transformadas.

À luz dessa perspectiva, a obra evidencia como o conflito entre o grupo French 75 e o aparato estatal vai além de uma simples disputa narrativa, refletindo uma estrutura mais ampla de poder. Assim, a perseguição conduzida pelo coronel Lockjaw demonstra como o Estado mobiliza discursos de segurança para legitimar práticas repressivas, enquanto o grupo revolucionário atua como força contra-hegemônica ao desafiar essa ordem. No entanto, o longa também revela as contradições dessa resistência, ao mostrar que a violência não é monopólio estatal, evidenciando a complexidade das disputas políticas e a constante tensão entre manutenção e transformação da ordem vigente.

Por fim,  a obra constrói uma crítica contundente à naturalização da violência como instrumento político. Ao expor tanto a repressão estatal quanto a radicalização dos grupos rebeldes, One Battle After Another evidencia como diferentes atores, ao reivindicarem legitimidade, acabam contribuindo para a perpetuação de um ciclo de violências. Assim, mais do que uma narrativa de ação e drama policial, o filme se apresenta como uma reflexão sobre os limites da ordem política contemporânea e sobre as possibilidades e contradições da resistência em contextos marcados pelo autoritarismo.

REFERÊNCIAS

COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.

REVISTA RAÇA. Resenha do filme “Uma Batalha Após a Outra”: a fetichização das relações de poder. 2025. Disponível em: https://revistaraca.com.br/resenha-do-filme-uma-batalha-apos-a-outra/. Acesso em: 16 mar. 2026.

SILVA, Marco Antonio de Meneses. Teoria crítica em relações internacionais. Contexto Internacional, v. 27, n. 2, p. 249-282, 2005.


SOTO, Cesar. Oscar 2026: ‘Uma batalha após a outra’ é grande vencedor em noite sem prêmios para o Brasil. g1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2026/03/15/oscar-2026-uma-batalha-apos-a-outra-e-grande-vencedor-em-noite-sem-premios-para-o-brasil.ghtml. Acesso em: 16 mar. 2026.