
Região: América do Norte e América Central
Maria Luiza Garcia, Rita Polaro e Sathya Lobato – Acadêmicas do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Historicamente, observa-se que o Haiti ocupa uma posição marcada por fragilidade institucional e recorrentes crises políticas no sistema internacional. Desde sua independência em 1804, o país enfrenta instabilidade política, sucessivos golpes de Estado e intervenções externas que dificultaram a consolidação de instituições estatais capazes de exercer plenamente o monopólio legítimo da força (Fatton Jr., 2002).
Nas últimas décadas, essa fragilidade tem se manifestado de forma particularmente intensa no campo da segurança pública, com a expansão de gangues armadas que passaram a controlar territórios estratégicos da capital, Port-au Prince, e de outras regiões do país. O Estado haitiano tem recorrido a estratégias cada vez mais militarizadas para enfrentar esses grupos (United Nations, 2023). Neste contexto, o presente artigo busca analisar a crise de segurança haitiana e o uso de drones explosivos no combate às gangues, relacionando esse fenômeno ao processo de securitização na política internacional contemporânea.
De acordo com Barry Buzan e Ole Wæver (1998), a segurança deve ser compreendida não apenas como uma condição objetiva de ameaça, mas como um processo político e discursivo no qual determinados temas são apresentados como ameaças existenciais que exigem medidas extraordinárias. Nesta perspectiva, a chamada Teoria da Securitização argumenta que atores políticos podem transformar determinados problemas em questões de segurança ao enquadrá-los como riscos à sobrevivência do Estado ou da sociedade, legitimando, assim, a adoção de instrumentos excepcionais de ação política e militar.
No caso haitiano, a expansão das gangues armadas passou a ser apresentada pelas autoridades como uma ameaça direta à estabilidade nacional e à ordem pública. A partir dessa construção discursiva, o problema da criminalidade organizada passa a ser tratado como uma ameaça existencial ao Estado, legitimando a adoção de estratégias cada vez mais militarizadas para combatê-la. Entre estas medidas está o uso de drones explosivos em operações conduzidas pelas forças de segurança do país, evidenciando uma transformação significativa nas estratégias de enfrentamento da violência (United Nations, 2023).
Segundo relatório divulgado pela Human Rights Watch em março de 2026, ataques realizados com drones pelas forças de segurança haitianas contra gangues armadas resultaram na morte de mais de 1.200 pessoas, incluindo ao menos 60 civis, entre adultos e crianças. As operações teriam se intensificado nos meses mais recentes, sobretudo em áreas urbanas densamente povoadas, ampliando preocupações internacionais quanto à proporcionalidade e à legalidade dessas ações (Reuters, 2026). Este cenário evidencia os desafios enfrentados pelo Estado haitiano ao tentar recuperar o controle territorial em um contexto de profunda fragilidade institucional.
Entretanto, a adoção destas estratégias também revela as limitações estruturais do Estado haitiano. Em contextos de instituições fragilizadas e baixa capacidade estatal, governos frequentemente recorrem a soluções militarizadas ou a tecnologias de uso intensivo da força como forma de compensar déficits institucionais. Embora o discurso de segurança busque justificar tais práticas como necessárias para restaurar a ordem pública, seus efeitos podem ampliar a vulnerabilidade da população civil, especialmente em áreas urbanas densamente habitadas onde operações militares apresentam alto risco de danos colaterais (Muggah; Carvalho, 2020).
Ademais, o uso de drones armados em operações internas evidencia uma tendência mais ampla da segurança internacional contemporânea: a crescente difusão de tecnologias militares avançadas para conflitos assimétricos e para o enfrentamento de atores não estatais (Boyle, 2015). Esta dinâmica reflete transformações significativas na forma como os Estados lidam com ameaças internas e externas, ao mesmo tempo em que levanta debates importantes sobre os limites éticos e jurídicos do uso da força, sobretudo quando civis são diretamente afetados por essas operações.
O caso do Haiti evidencia como os processos de securitização influenciam diretamente as estratégias adotadas pelos Estados no campo da segurança. Ao transformar a violência das gangues em uma ameaça existencial, o governo haitiano legitima o uso ampliado da força e a adoção de tecnologias militares em operações internas. Contudo, a experiência do país demonstra que, sem instituições estatais sólidas e mecanismos eficazes de proteção da população civil, tais estratégias podem gerar novos ciclos de violência e insegurança, revelando os dilemas centrais enfrentados pelos Estados em contextos de fragilidade institucional no sistema internacional contemporâneo.
REFERÊNCIAS:
BOYLE, Michael J. The legal and ethical implications of drone warfare. The International Journal of Human Rights, v. 19, n. 2, p. 105–126, 2015.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
FATTON JR., Robert. Haiti’s predatory republic: the unending transition to democracy. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 2002.
MUGGAH, Robert; CARVALHO, Ilona Szabó de. Violência urbana e governança na América Latina. Journal of Illicit Economies and Development, v. 2, n. 1, p. 44–56, 2020.
REUTERS. Centenas morreram em ataques de drones no Haiti, incluindo 60 civis, diz Human Rights Watch. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/hundreds-killed-haitidrone-strikes-including-60-civilians human-rights-watch-2026-03-10. Acesso em: 13 mar. 2026.
UNITED NATIONS. Report of the Secretary-General on Haiti. New York: United Nations, 2023.
