Cainã Alves do Amaral – acadêmico do 5º semestre de Relações Internacionais (UNAMA)

Denominada comumente como “santuário natural”, a Amazônia sempre teve de enfrentar entraves no que concerne a resistência contra estereótipos seculares ligados a carência de produção de saberes na região. Tratada por muito tempo como uma colônia dentro do próprio Brasil (LOUREIRO, 2022) e estigmatizada como um espaço de “vazio demográfico”, o palco da maior bacia hidrográfica do mundo transcende a esfera do tangível e passa a abranger a esfera intelectual. 

Tal panorama pode ser melhor entendido através das concepções de Michel Foucault – renomado sociólogo francês e teórico pós-moderno – o qual aborda sobre o conceito de “práticas discursivas”, sendo este ligado a uma criação de narrativas para justificar uma ação e/ou o exercício de poder, isto é, a partir de uma instrumentalização de abordagens visando favorecer uma espécie de subjetivação. Nessa perspectiva, abordar sobre o desenvolvimento da pesquisa científica na Amazônia requer uma análise substancial dos desafios estruturais que a moldam, uma vez que esta região teve um desenvolvimento tardio se comparado com outras porções territoriais do país.       

À luz das concepções de Quijano (2014) – renomado sociólogo peruano – compreende-se que os saberes ancestrais de populações tradicionais da Amazônia – como ribeirinhos e quilombolas, por exemplo – tiveram suas imagens majoritariamente construídas como símbolos de “inferioridade” e não-modernidade, portanto, justificava-se que deveria haver uma elevada exploração e habitação na região, necessitando, assim, de interferências externas – ocorridas através de políticas da Sudam em consonância com o governo durante o regime ditatorial.   

Este cenário remete ao conceito de colonialidade do poder abordado por Quijano (2014), o qual diz que a colonização transcende a esfera processual em si, ou seja, desmaterializa-se do processo histórico de exploração como unidade e compreende discursos duradouros que subjetivam indivíduos, perpetuando as amarras e nuances eclodidas pela colonização e alcançando a esfera intelectual como um todo.

Paralelamente a isso, retomando as discussões à atualidade, percebemos que a base das problemáticas envolvendo o fomento da pesquisa científica na Amazônia também está atrelada a uma visão de estigmatização para com os profissionais e/ou acadêmicos amazônicos sob processo de formação, isto é, marginalizando-os e centralizando, no âmbito doméstico, o enfoque das discussões científicas para uma perspectiva majoritariamente advinda do eixo Sul-Sudeste. Este panorama, somado a questão de que o território amazônico possui, com grande discrepância dos demais, os munícipios com os menores índices de progresso social (IPS) do Brasil (METROPÓLES, 2025), é marcado por seguintes questões: “como desenvolver a pesquisa científica com carência de recursos para a educação?”; “por que profissionais amazônicos são desvalorizados no mercado de trabalho?”; “no retrospecto histórico, pesquisas amazônicas não recebem o seu devido valor”.

 Nessa perspectiva, o processo de fuga de cérebros tende a ser eclodido por toda a Amazônia, principalmente no que diz respeito a docentes-pesquisadores que desenvolvem pesquisas de alta profundidade científica no âmbito acadêmico, mas que não são valorizados por suas reais capacidades técnicas de articularem análises a partir de múltiplas perspectivas, isto é, ricas em saberes ancestrais e tradições únicas da região amazônica como um todo. No âmbito universitário, principalmente no que tange à malha das Ciências Humanas e Sociais, é perceptível em demasia a ascensão de projetos de extensão amazônidas, os quais podem servir como alternativa de fomento da disseminação científica na região, transcendendo a sala de aula e abrangendo múltiplos espaços externos.

Para além disso, projetos de extensão universitários configuram-se como cada vez mais cruciais para a perpetuação de saberes interdisciplinares, uma vez que conectam academia e sociedade civil, gerando impacto social e agindo nas entrelinhas enquanto as políticas públicas de cunho educacional se demonstram escassas. Consonante a isso, dentre outras excelências intrínsecas da pesquisa científica na Amazônia, há o papel essencial dos patrimônios ambientais, os quais configuram-se como fator-chave para a preservação de estudos seculares sobre a biodiversidade da região amazônica, por exemplo. 

Este é o caso do Museu Emílio Goeldi, um dos mais antigos e relevantes patrimônios ambientais da Amazônia, com mais de 160 anos de existência, possuindo um instituto de pesquisa ligados à preservação de centenas de espécies e ao fomento de produção científica sobre a floresta (SUMAÚMA, 2025). Além disso, o Goeldi vem prezando cada vez mais por uma presença feminina em sua estrutura interna, configurando-se, dessa forma, como um espaço de inclusão e produção de saberes científicos, agindo como um agente catalisador da representatividade no âmbito da pesquisa, trazendo à tona o que a Amazônia tem de melhor: diversidade, cultura e, tão importante quanto estes, a ciência (BRASIL, 2025).

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Ministério da Educação. “Ciência, substantivo feminino”: seminário no Campus do Museu Goeldi apresenta contribuições de mulheres cientistas na Amazônia. [Pará]: Ministério da Educação, 10 mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/museugoeldi/pt-br/arquivos/noticias/201cciencia-substantivo-feminino201d-seminario-no-campus-do-museu-goeldi-apresenta-contribuicoes-de-mulheres-cientistas-na-amazonia. Acesso em: 14 mar. 2026.

BRASIL. Ministério da Ciência. Das pioneiras às contemporâneas: Museu Goeldi celebra mulheres que mantêm a ciência viva. [Pará]: Ministério da Ciência, 9 mar. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/museugoeldi/pt-br/arquivos/noticias/8-de-marco-1. Acesso em: 14 mar. 2026.  

LOUREIRO, Violeta. Amazônia Colônia do Brasil. VALER, 2022.

NETO, Guilherme. Das pioneiras às contemporâneas: Museu Goeldi celebra mulheres que mantêm a ciência viva. SUMAÚMA, 2025. Disponível em: https://sumauma.com/museu-goeldi-guardiao-do-maior-acervo-sobre-a-amazonia-corre-o-risco-de-fechar-na-cop/. Acesso em: 14 mar. 2026.

QUIJANO, Aníbal. Cuestiones y horizontes: de la dependencia histórico-estructural a la colonialidad/descolonialidad del poder. CLASCO, 2020.

TOLEDO, Madu. Confira lista de cidades com melhor e pior qualidade de vida do Brasil. METRÓPOLES, 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/confira-lista-de-cidades-com-melhor-e-pior-qualidade-de-vida-do-brasil. Acesso em: 14 mar. 2026.