Região: África

Isabella Soares e Laura de Paulo Coelho – acadêmicas do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)

A recente escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos em 2026 constitui um dos episódios mais relevantes de instabilidade geopolítica no Sistema Internacional contemporâneo. Desde o início dos ataques e das retaliações militares, instalações energéticas e rotas de importância estratégica no Golfo Pérsico passaram a sofrer interrupções e ameaças diretas, elevando, dessa forma, o risco de uma crise energética em escala global (REUTERS, 2026).

Esse cenário evidencia como conflitos localizados em regiões estratégicas podem gerar repercussões amplas tanto na economia quanto na política internacional, afetando inclusive regiões geograficamente distantes, como o continente africano.

No âmbito das Relações Internacionais, a Economia Política Internacional oferece ferramentas analíticas fundamentais para a compreensão desse fenômeno. Conforme argumenta Keohane (1984), o Sistema Internacional contemporâneo é caracterizado por elevados níveis de interdependência econômica, nos quais eventos políticos e militares produzem efeitos indiretos em diferentes regiões do mundo.

Crises geopolíticas em áreas de grande importância estratégica, como o Oriente Médio, tendem a influenciar os mercados globais, as cadeias de comércio e as dinâmicas de poder no sistema internacional. Um dos impactos mais imediatos da guerra envolvendo o Irã ocorre no mercado global de energia.

A região do Golfo Pérsico concentra parcela significativa da produção mundial de petróleo e gás natural. Nesse contexto, o aumento das tensões militares tem provocado interrupções na produção energética e na navegação marítima. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a escalada do conflito está afetando o fluxo de petróleo e gás, podendo pressionar a inflação e desacelerar o crescimento econômico global caso a guerra se prolongue (INTERNATIONAL MONETARY FUND, 2026).

Outro elemento central nesse contexto é o Estreito de Ormuz, considerado uma das rotas marítimas mais relevantes do ponto de vista geopolítico para o transporte global de petróleo. Aproximadamente um quinto do petróleo comercializado mundialmente passa por essa rota estratégica (U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION, 2024).

A redução do tráfego marítimo e os ataques a embarcações na região aumentaram os riscos ao comércio internacional e elevaram a volatilidade dos preços da energia. Analistas apontam que a interrupção prolongada dessa rota pode provocar aumentos significativos nos preços do petróleo, gerando impactos econômicos em escala global (ACLED, 2026).

No continente africano, os impactos dessa instabilidade são particularmente expressivos. Diversos países dependem significativamente da importação de combustíveis para a obtenção de energia, o que os torna altamente

O aumento dos preços do petróleo contribui diretamente para a elevação dos custos em setores como transporte, produção industrial e distribuição de alimentos, intensificando pressões inflacionárias e dificultando o crescimento econômico em várias economias africanas (BANCO MUNDIAL, 2023).

Além disso, países africanos cuja economia depende do comércio internacional podem sofrer consequências indiretas decorrentes da desorganização das cadeias globais de suprimentos. Interrupções em rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, e o aumento dos custos de transporte marítimo tendem a impactar negativamente as exportações de commodities, comprometendo o equilíbrio das balanças comerciais (CAPITAL ECONOMICS, 2026).

Estudos indicam que economias emergentes dependentes da importação de energia tendem a apresentar deterioração em suas contas externas diante de choques prolongados nos preços do petróleo (INTERNATIONAL MONETARY FUND, 2023).

Contudo, os efeitos da guerra não são homogêneos no continente africano. Países exportadores de petróleo, como a Nigéria e Angola, podem obter ganhos fiscais temporários em decorrência da elevação dos preços internacionais. Entretanto, esses benefícios podem ser limitados por fatores como instabilidade interna, fragilidade fiscal e volatilidade dos mercados globais (BANCO MUNDIAL, 2023).

O alcance geopolítico do conflito também é significativo. Assim como em crises anteriores no Oriente Médio, há uma tendência de concentração de recursos diplomáticos e militares das grandes potências nessa região, reduzindo a disponibilidade de recursos para o enfrentamento de crises humanitárias e conflitos no continente africano.

Dessa forma, a guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos demonstra como a interdependência do Sistema Internacional faz com que conflitos regionais produzam repercussões globais. A partir da perspectiva da Economia Política Internacional, compreende-se que a estabilidade econômica e política de diversas regiões está diretamente conectada a eventos geopolíticos ocorridos em áreas estratégicas (KEOHANE, 1984).

Conclui-se que o atual conflito no Oriente Médio possui elevado potencial de gerar impactos significativos no continente africano, tanto no âmbito econômico quanto político. A instabilidade nos mercados energéticos, os riscos ao comércio internacional e as transformações na dinâmica geopolítica global reforçam a necessidade de análise dessas crises sob uma perspectiva sistêmica e interdependente das Relações Internacionais.

REFERÊNCIAS:

ACLED. Iran targets the global oil market: Gulf energy and the Strait of Hormuz are under fire. 2026. Disponível em: https://acleddata.com/report/iran-targets-global-oil-market-gulf-energy-and-strait-hormuz-are-under-fire. Acesso em: 10 mar. 2026.

BANCO MUNDIAL. Global Economic Prospects. 2023. Disponível em: https://www.capitaleconomics.com/publications/africa-economics-weekly/how-will-middle-east-conflict-affect-africa. Acesso em: 8 mar. 2026.

DEVDISCOURSE. Middle East conflict strains Africa’s energy supply chain. 2026. Disponível em: https://www.devdiscourse.com/article/headlines/3825666-middle-east-conflict-strains-africas-energy-supply-chain. Acesso em: 11 mar. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). Coping and Thriving in a Fluid World. 2026. Disponível em: https://www.imf.org/en/news/articles/2026/03/09/sp030926-coping-and-thriving-in-a-fluid-world. Acesso em: 12 mar. 2026.

INTERNATIONAL MONETARY FUND (IMF). World Economic Outlook. 2023.

KEOHANE, Robert. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.

REUTERS. IMF warns Middle East conflict could disrupt trade and raise energy prices2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/middle-east-war-economic-impact-depend-duration-damage-energy-costs-imf-official-2026-03-03/. Acesso em: 9 mar. 2026.