
Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 5º Semestre de Relações Internacionais da UNAMA
O Sistema internacional contemporâneo tem testemunhado uma agudização das tensões na Ásia Ocidental, com a República Islâmica do Irã no centro de disputas envolvendo seu papel de resistência ao Estado de Israel, seus programas balístico e nuclear e seu alinhamento na disputa hegemônica entre os Estados Unidos e a China. Neste cenário, a postura de atores geograficamente distantes, como os Estados da Oceania, revela dinâmicas importantes da formação de alianças e do alinhamento estratégico.
Austrália e Nova Zelândia, as duas maiores potências da região, têm demonstrado um posicionamento consistente de apoio às narrativas ocidentais, particularmente as de Washington e Israel, no que tange ao Irã. Tais posicionamentos representam uma estratégia de longo prazo de e suas ações quanto aos eventos que marcaram o escalonamento das tensões entre 2024 e 2026 e as vulnerabilidades estruturais que tornam a Oceania particularmente sensível às crises no Oriente Médio.
O posicionamento de Austrália e Nova Zelândia em relação à crise com o Irã deve ser compreendido dentro de um alinhamento ocidental pré-existente. Desde antes das tensões mais recentes, esses países já demonstravam uma clara “concórdia” com as alianças ocidentais e com os Estados Unidos em particular, reafirmando uma parceria estratégica consolidada.
A partir de 2024, este alinhamento tornou-se mais pronunciado diante de disputas escalonadas com a República Islâmica do Irã, percebida por Camberra como “uma força desestabilizadora da ordem internacional”. A Austrália adotou medidas diplomáticas suspendendo sua embaixada em Teerã e expulsando o embaixador iraniano de seu território. A justificativa foi a acusação de envolvimento iraniano em ataques contra a comunidade judaica local, uma situação que se agravou após um massacre com mais de 15 vítimas no final de 2025 (BBC, 2025).
A conjuntura de 2025 e 2026 acirrou ainda mais as posições. Os protestos no Irã e, em fevereiro de 2026, um grande movimento de repúdio à visita do presidente de Israel, Isaac Herzog na Austrália, solidificaram a disputa de narrativas entre os atores. Um episódio simbólico envolvendo jogadoras da seleção feminina de futebol do Irã em solo australiano que deixaram de cantar o hino de seu país, num gesto interpretado como protesto contra a República Islâmica gerou um movimento local pedindo asilo humanitário para as atletas. Embora as jogadoras tenham optado por retornar ao Irã, o episódio ilustra o ambiente de tensão e a disposição australiana em se posicionar ao lado de gestos de oposição ao governo iraniano (Reuters, 2026).
Nesse contexto, os governos australiano e neozelandês manifestaram publicamente sua preocupação com o programa nuclear e de mísseis iraniano, alinhando-se à narrativa de Washington e Israel. A Nova Zelândia, inclusive, reforçou no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 2025, as sanções contra o Irã (Beehive, 2025). É importante notar que ambos os países deixaram claro que sua posição é unicamente defensiva e que não participariam de uma eventual ação militar em terra, o que denota uma cautela estratégica (The Jerusalem Post, 2026).
Segundo o Pensamento de Kenneth Waltz (Waltz, 1979) e seu chamado Realismo Defensivo a política de alinhamento dos principais Estados da Oceania se explica pela teoria de bandwagon visto que a aliança histórica destes estados com os Estados Unidos e o Ocidente em geral garantem historicamente estabilidade desses Estados contra potências como anteriormente o Japão e atualmente a China.
Ao mesmo tempo os Estados Unidos mantêm apoio diplomático e muitas vezes bélico em suas ações dentro do Sistema internacional como no caso do Iraque em 2003, por fim mesmo que atualmente Austrália e Nova Zelândia não se disponham a colocar “Botas em Terra” no irã nem participar de missões navais no Estreito de Ormuz é claro para todos os atores que tanto Austrália e Nova Zelândia quantos os EUA estão em sintonia de seus objetivos políticos.
Além disso, a vulnerabilidade econômica do continente oceânico é um fator preponderante. A Austrália e a Nova Zelândia não são as principais compradoras do petróleo que transita pelo Estreito de Ormuz. Contudo, o continente como um todo, e especialmente os pequenos Estados-ilhas, é extremamente sensível a crises econômicas globais e à elevação dos custos de frete. Sua posição geográfica os isola dos grandes centros de consumo, tornando-os dependentes do transporte marítimo e aéreo.
O fechamento do Estreito de Ormuz, mesmo que não afete diretamente seu suprimento, desencadearia um mal-estar econômico com impacto direto no custo de vida e na importação de bens essenciais para essas nações insulares. Portanto, o alinhamento com a potência (EUA) que garante a segurança das rotas marítimas globais é também uma estratégia de sobrevivência econômica, subordinando-se à liderança ocidental para assegurar a estabilidade do sistema do qual dependem.
REFERÊNCIAS
BBC. Bondi shooting: Australian Jews react to attack with grief and anger. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c20gl66r0wno. Acesso em: 19 mar. 2026.
BEEHIVE. NZ reimposes UN sanctions on Iran. Disponível em: https://www.beehive.govt.nz/release/nz-reimposes-un-sanctions-iran. Acesso em: 19 mar. 2026.
FOREIGN MINISTER. Fechamento da embaixada australiana no Irã. Disponível em: https://www.foreignminister.gov.au/minister/penny-wong/media-release/australian-embassytehran. Acesso em: 19 mar. 2026.
REUTERS. Iranian women’s soccer team begin journey home after players decline asylum. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/fifth-member-iranian-womenssoccer-team-withdraws-australia-asylum offer-2026-03-15/. Acesso em: 19 mar. 2026.
THE JERUSALEM POST. Japan, Australia reject Donald Trump Hormuz escort request. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&opi=89978449&url=https://www.jpo st.com/middle east/article890072&ved=2ahUKEwjSxOT0wKqTAxX6r5UCHY_QM6YQFnoECEAQAQ&usg=AOv Vaw37aTwefRXYxU8eBSb6Qt5e. Acesso em: 19 mar. 2026.
WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.
