
Gabriela Vaz,
acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais
O passaporte musical desta semana é sobre o cantor e compositor, Belchior. Seu estilo musical é marcado pelo MPB e pelo folk rock, com suas canções abordando sumariamente temáticas como amores, críticas sociais, reflexões, resiliência, entre outros temas.
Com o nome de nascimento de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ele nasceu em 20 de outubro de 1946, na cidade de Sobral, no Ceará. O jovem nasceu em uma família artística, onde sua mãe cantava e desempenhava coros na igreja local e seu pai tocava flauta e saxofone (Dicionário MPB, 2021).
Desde criança, tocava piano e estudava música de coral. Quando jovem, mudouse para Fortaleza onde cursou alguns semestres de medicina, mas desistiu em 1971 e decidiu dedicar-se totalmente ao mundo musical (Ebiografia, 2024).
Diante disso, após se unir a um grupo chamado “Pessoal do Ceará”, Belchior começou a se apresentar em festivais. Em 1971, ganhou um festival universitário e foi a partir daquele momento que sua carreira musical deslanchou. No ano seguinte, fez curtas-metragens, shows públicos e teve “Mucuripe” – composição de Fagner com Belchior – gravado por Elis Regina (Dicionário MPB, 2021).
No ano de 1974, a música “A pelo Seco” teve grande reconhecimento nacional. Suas canções foram regravadas por inúmeros artistas, o que contribuiu para sua fama. Em 1975, vendeu bastante com o álbum “Alucinação”, no qual as músicas apresentam críticas, sentimentos, entre outros.
Suas canções mais conhecidas são: “Na hora do Almoço” (1974); “Apenas um Rapaz Latino Americano” (1976); “Como Nossos Pais” (1976); “Sujeito de Sorte” (1976); “Caso Comum de Trânsito” (1977) e “Coração Selvagem” (1977); “Paralelas” (1977).
Belchior gravou o CD “Pessoal do Ceará” em 2002, mas ficou fora dos holofotes desde 2007. Nesse período, decidiu se afastar da vida pública e passou a viver de forma mais reservada, morando em cidades do interior do Rio Grande do Sul. Seu falecimento ocorreu no dia 30 de abril de 2017, o que gerou grande repercussão entre artistas e admiradores de sua obra (Rolling Stone, 2017).
Atualmente, suas músicas ganharam visibilidade em TikTok e outros vídeos. Além disso, foi lançado o documentário “Apenas um Coração Selvagem” (2022), contando toda a trajetória do artista (Dicionário MPB, 2021). Dessa forma, suas canções permanecem atuais, pois dialogam com questões sociais e identitárias que ainda fazem parte da realidade latino-americana.
Diante disso, a trajetória musical de Belchior pode ser analisada através da teoria pós-colonial das Relações Internacionais que evidencia como heranças de dominação colonial ainda influenciam quem tem voz e legitimidade no cenário global. Nesse sentido, Aníbal Quijano, um dos teóricos expoentes das teorias pós-coloniais, expõe através da chamada “Colonialidade do Poder” em como as desigualdades e hierarquias sociais criadas no período colonial continuam presentes nas sociedades latino-americanas, influenciando até hoje as relações de poder, identidade e reconhecimento.
Assim, no trecho “eu sou apenas um rapaz latino-americano/ sem dinheiro no banco/ sem parentes importantes e vindo do interior”, da música “Eu sou Apenas um Rapaz Latino Americano“, percebe-se uma identidade marcada por desigualdades sociais e por uma consciência de resistência no período da ditadura militar. Enquanto isso, na canção “Sujeito de Sorte”, de Belchior, a letra apresenta os sofrimentos e a repressão vividos nesse período, ainda que de forma sutil, e transmite a ideia de que, apesar das dificuldades, é necessário manter a esperança por tempos melhores para o povo brasileiro.
Portanto, Belchior pode ser compreendido como um artista que expressa, por meio de suas canções, experiências e sentimentos ligados à realidade social latino-americana advindos de contextos históricos, sociais e regimes políticos.
REFERÊNCIAS:
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Belchior. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/artista/belchior/. Acesso em: 7 mar. 2026.
E-BIOGRAFIA. Belchior. Disponível em: https://www.ebiografia.com/belchior/. Acesso em: 7 mar. 2026.
ROLLING STONE BRASIL. Belchior: sob o peso do mundo. Rolling Stone Brasil, 2017. Disponível em: https://rollingstone.com.br/artigo/sob-o-peso-do-mundo/. Acesso em: 7 mar. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.
