
Isabelly Gouvêa Barros
A ilha de Cuba, localizada estrategicamente no Caribe e historicamente chamada de “Chave do Novo Mundo”, passou de uma economia colonial baseada no açúcar para um modelo político singular nas Américas após a Revolução de 1959 (USP, 2026). Com a instauração de um Estado socialista, o país transformou a sua influência neocolonial e redefiniu as relações de poder. Além disso, por seis décadas o regime buscou se sustentar por meio de reformas sociais importantes, como a universalização da educação e da saúde, dentro de um sistema de partido único e economia centralizada (USP, 2026).
Atualmente, Cuba enfrenta uma grave crise estrutural, agravada por problemas internos de gestão e pelo embargo econômico externo. O país vive dificuldades como apagões que afetam a produção nacional, escassez de alimentos que ameaça a segurança alimentar e falta de medicamentos básicos, enfraquecendo um dos pilares do sistema cubano. Essa situação mantém Cuba no centro do debate internacional, especialmente devido ao impasse histórico com os Estados Unidos e às discussões em organismos multilaterais sobre o impacto das sanções e a viabilidade do modelo socialista no contexto global.
A crise em Cuba resulta de fatores externos e internos que geram vulnerabilidade social. O principal componente externo é o bloqueio econômico dos EUA desde 1960, que impõe restrições comerciais e financeiras rigorosas. Essa barreira dificulta o acesso ao sistema bancário internacional e encarece a importação de insumos, funcionando como um mecanismo de asfixia que compromete a soberania econômica (CIA, 2025). Somando isso, o modelo de planejamento centralizado enfrenta desafios estruturais, como a rigidez na gestão e a baixa produtividade (CEPAL, 2025). Embora existam aberturas ao setor privado, a burocracia e a falta de investimentos impedem a autossuficiência, mantendo uma dependência crônica de importações para o consumo básico (ONU, 2024). Essa fragilidade econômica reflete-se no colapso da infraestrutura e na crise energética crítica.
A dependência de combustíveis e a obsolescência das usinas provocam apagões que paralisam a indústria (CIA, 2025). O desabastecimento atinge alimentação e saúde, com gôndolas vazias e falta de medicamentos, fragilizando os pilares do regime (ONU; PNUD, 2025). Esse cenário de privação transformou a carência em instabilidade política, evidenciando o desgaste social e a urgência de reformas estruturais diante do impasse na subsistência da população. Nesse contexto, a postura de resistência de Cuba diante das pressões externas pode ser interpretada à luz do realismo clássico das Relações Internacionais.
Hans Morgenthau (1948), teórico e expoente das teorias do realismo clássico das Relações Internacionais, afirma que a política internacional é marcada pela busca incessante de poder e pela defesa do interesse nacional, o que ajuda a compreender a insistência do país em preservar sua soberania mesmo diante de severas dificuldades. Para o autor, a sobrevivência dos Estados depende de sua capacidade de enfrentar ameaças externas e manter autonomia, ainda que isso implique custos sociais e econômicos elevados, como se observa no caso cubano.
A superação da crise exige, principalmente, uma reestruturação do ambiente externo que permita a reintegração de Cuba às cadeias globais de valor. A flexibilização ou o fim do bloqueio econômico é apontado como medida vital para restaurar o fluxo de divisas e o acesso a créditos internacionais (CIA, 2025). Sem essas restrições, o país poderia modernizar seu sistema bancário e reduzir os custos de importação de insumos produtivos, criando uma base financeira mais resiliente para sustentar a soberania nacional frente às pressões externas.
No plano interno, a solução passa pela transição de um modelo de planejamento rígido para um sistema que incentive a produtividade e a descentralização econômica. De acordo com análises da Cepal (2025), a desburocratização e o fortalecimento real do setor privado são fundamentais para reduzir a dependência crônica de importações (ONU, 2025). O incentivo ao investimento estrangeiro direto e à autonomia das empresas estatais permitiria que a economia se adaptasse às demandas do mercado, estimulando a produção nacional e a autossuficiência alimentar.
Por fim, a estabilidade social depende da modernização urgente da infraestrutura energética e do restabelecimento dos serviços básicos. Além disso, o investimento em matrizes renováveis e a renovação das usinas termelétricas são essenciais para encerrar os apagões que paralisam a indústria (CIA, 2025).
Portanto, garantir o abastecimento regular de alimentos e medicamentos é o caminho para reconstruir o tecido social e mitigar as tensões políticas (ONU; PNUD, 2026). Somente através de reformas estruturais profundas será possível garantir a subsistência da população e a legitimidade das instituições a longo prazo.
Referências Bibliográficas:
CEPAL. Anuário Estatístico da América Latina e Caribe 2025. Santiago: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, 2025. Disponível em: <https://cepalstat-prod.cepal.org/>. Acesso em: 12 mar. 2026.
CIA. The World Factbook – Cuba. Washington, D.C.: Central Intelligence Agency, 2025. Disponível em: <https://www.cia.gov/the-world-factbook/>. Acesso em: 12 mar. 2026.
MORGENTHAU, Hans J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace. New York: Alfred A. Knopf, 1948.
ONU. World Population Prospects: The 2024 Revision. New York: United Nations, 2024. Disponível em: <https://population.un.org/wpp/>. Acesso em: 12 mar. 2026.
ONU. World Urbanization Prospects: The 2025 Revision. New York: United Nations, 2025. Disponível em: <https://population.un.org/wup/>. Acesso em: 12 mar. 2026.
ONU; PNUD. Human Development Report 2025: A matter of choice – People and possibilities in the age of AI. New York: United Nations Development Programme, 2025. Disponível em: <https://hdr.undp.org/>. Acesso em: 12 mar. 2026.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Portal Contemporâneo da América Latina e Caribe – Cuba. São Paulo: USP, [s.d.]. Disponível em: <https://sites.usp.br/portalatinoamericano/cuba>. Acesso em: 12 mar. 2026.
