
Região: Ásia
Cainã Alves e Antônio Vieira – acadêmicos do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
Após o final da Guerra Fria, a ordem mundial aos poucos foi ganhando uma nova perspectiva: a ascensão da China como uma nova hegemonia no sistema internacional. Contudo, diferentemente do uso de meios bélicos como dissuasão por potências como EUA e URSS, a protagonista em ascensão visou disseminar majoritariamente a sua influência global por intermédio da diplomacia materializada no seu poder econômico (CNN Brasil, 2023).
Tal panorama remete às concepções de Joseph Nye (2009) – renomado teórico neoliberal das Relações Internacionais – o qual aborda sobre a economia como meio de cooperação internacional entre os Estados, através do conceito de interdependência econômica, pressupondo um contexto global de multilateralismo e resoluções conjuntas de questões transnacionais. Este cenário econômico se materializa por parte da política externa chinesa, uma vez que o país adota, desde meados da década de 70, estratégias de abertura e flexibilização do capital financeiro, indo de contramão às políticas isolacionistas do passado, isto é, na primeira metade do século XX.
Consonante a isso, sob o Governo de Xi Jinping, foi criada a iniciativa do Cinturão e Rota, mais conhecida como “a nova rota da seda” (BBC, 2023). Para além de uma ferramenta econômica, o projeto foi motivo da mediação sino para com diversos conflitos na região asiática, a fim de manter a sua estabilidade. Um dos casos recentes, por exemplo, foi a tentativa de cessar-fogo no conflito entre Tailândia e Camboja (Falci, 2025).
No que tange ao conflito, os países disputam as fronteiras demarcadas pelos colonos franceses no início do século XX, que um dia pertenceram ao império Khmer, uma civilização hindu-budista que estava presente no atual território do Camboja e da Tailândia. Apesar das nações terem assinado um cessar-fogo intermediado pelos EUA, em 26 de outubro de 2025, Bangkok rompeu o tratado após vários soldados serem feridos pela explosão de uma mina terrestre, atribuída a Camboja (G1, 2025).
O governo chinês adotou medidas diplomáticas através da atuação direta e de apoio a mecanismos regionais. Entre o período de 18 a 23 de dezembro de 2025, Pequim enviou Deng Xijun, especialista em assuntos asiáticos, para presidir uma rodada de negociações em cada capital dos respectivos países: Phnom Penh e Bangkok (Falci, 2025).
Ao estimular ações de cessar-fogo na região do Sudeste Asiático (CNN Brasil, 2025), da qual os conflitos não ficam restritos apenas à fronteira entre Tailândia e Camboja, a China perpetua as suas estratégias econômicas ligadas ao modal ferroviário e à Rota da Seda, além de manter as suas zonas de influência sob estabilidade, tornando-as dependentes do regime sino. Paralelamente a isso, a Nova Rota da Seda investiu na ferrovia de alta velocidade que irá ligar, até 2030, a Tailândia à Laos e à China (Reuters, 2025).
À luz dos pensamentos de Kenneth Waltz (2001) – teórico neorrealista estadunidense – a partir do conceito de bandwagon, entende-se que os países subdesenvolvidos do Sudeste Asiático se encontram praticamente “submissos” no que diz respeito às relações duradouras de dependência econômica para com a China, uma vez que, caso estes optarem por irem de desencontro com as políticas chinesas, poderão estar suscetíveis à inúmeros problemas como pressões externas advindas do país.
Em um sistema que se configura como anárquico, ou seja, isento de um Estado único que controle, em sua totalidade, as rédeas do sistema internacional, percebe-se uma busca incessante da China pela hegemonia regional no continente asiático, a qual se materializa através de múltiplas formas, dentre elas: a intermediação de diversos conflitos, como é o caso tailândes-cambojano.
Denota-se que há, portanto, a materialização de uma dualidade contrastante nas políticas adotadas pelo país na região do Sudeste Asiático, uma vez que, enquanto este desenvolve uma política centrada na estabilidade da fronteira entre Tailândia e Camboja, motivada pela intermediação de conflitos e desenvolvimento de zonas econômicas especiais, também há, por outro lado, a imposição de políticas de dependência moldadas em estratégias de coerção e ingerência externa em Mianmar.
No que tange especificamente ao caso mianmarense, entende-se que a China não prioriza primordialmente pela diplomacia e mediação dos conflitos entre a junta militar do Tatmadaw e a sociedade civil, mas sim apoia única e financeiramente o regime militar vigente (DW, 2024), garantindo o controle e exploração de terras raras na região, através do apoio de uma milícia mianmarense (Gazeta do Povo, 2025).
Tal cenário configura-se como uma guerra híbrida no que tange à perspectiva estatal chinesa em si, uma vez que o Estado financia grupos internos para mudanças em regimes internos e/ou políticas domésticas, não atuando de forma direta no conflito, porém corroborando para múltiplas instabilidades nas fronteiras. Vale ressaltar que, assim como nos respectivos casos de Tailândia e Camboja, tal política também exalta a supracitada perspectiva econômica, visto que a China investiu milhões de dólares em um corredor comercial estratégico na região (BBC, 2024).
Portanto, compreende-se que, o papel diplomático exercido pela China configura-se como de caráter fundamental no que concerne aos conflitos duradouros envolvendo Tailândia e Camboja, entretanto, esta diplomacia para além de promover a estabilidade na fronteira também pensa o desenvolvimento econômico da antiga Dinastia Qing.
Ao impor um processo efetivo de dependência econômica para com os Estados do Sudeste Asiático, a China toma o controle e as rédeas de suas zonas de influência próximas ao Oceano Índico, garantindo a sua sobrevivência em um sistema internacional cada vez mais anárquico. Por outro lado, o caso de Mianmar evidencia que o direito internacional se encontra cada vez mais à deriva, fragilizado e carente de mecanismos coercitivos.
REFERÊNCIAS:
BICKER, Laura. O ambicioso plano de comércio da China travado pela guerra. BBC, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c8xe88j01pyo. Acesso em: 21 mar. 2026.
DIPLOMACIA BUSINESS. Iniciativa do Cinturão e Rota da China promove desenvolvimento de infraestrutura e conectividade entre os continentes, diz estudioso cambojano. Diplomacia Business, [s.d.]. Disponível em: https://www.diplomaciabusiness.com/iniciativa-do-cinturao-e-rota-da-china-promove-desenvolvimento-de-infraestrutura-e-conectividade-entre-os-continentes-diz-estudioso-cambojano/. Acesso em: 21 mar. 2026.
FALCI, Bruno. CHINA intensifica esforços diplomáticos em conflito na fronteira entre Camboja e Tailândia. Brasil de Fato, 26 dez. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/12/26/china-intensifica-esforcos-diplomaticos-em-conflito-na-fronteira-entre-camboja-e-tailandia/. Acesso em: 21 mar. 2026.
G1, 2025. HORAS após Trump anunciar cessar-fogo, confrontos continuam entre Tailândia e Camboja. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/12/13/horas-apos-trump-anunciar-cessar-fogo-confrontos-continuam-entre-tailandia-e-camboja.ghtml. Acesso em: 21 mar. 2026.
HUTT, David. Qual é a resposta do Ocidente ao papel da China na guerra de Mianmar?. DW, 2024. Disponível em: https://www.dw.com/en/what-is-the-wests-response-to-chinas-role-in-myanmar-war/a-70922423. Acesso em: 21 mar. 2026.
LUCAS, John. China usa milícia para controlar terras raras em Mianmar. GAZETA DO POVO, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/china-garante-controle-e-exploracao-de-terras-raras-em-mianmar-com-apoio-de-milicia-local/. Acesso em: 21 mar. 2026.
MCCARTHY, Simone. China tem uma visão abrangente para remodelar o mundo e os países estão ouvindo. CNN Brasil, 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/china-tem-uma-visao-abrangente-para-remodelar-o-mundo-e-os-paises-estao-ouvindo/. Acesso em: 21 mar. 2026.
NYE, Joseph. Cooperação e conflito nas relações internacionais: Uma leitura essencial para entender as principais questões da política mundial. Editora Gente, 2009.
OLARN, Kocha; REGAN, Helen. Entenda o que causou os novos confrontos entre Tailândia e Camboja. CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-causou-os-novos-confrontos-entre-tailandia-e-camboja/. Acesso em: 21 mar. 2026.
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