Julia Castro, Internacionalista formada pela UNAMA. 

Ficha Técnica:

Ano: 1968

Direção: Stanley Kubrick

Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer

Gênero: Ficção Científica

Países de Origem: Estados Unidos, Reino Unido

Baseado no conto “The Sentinel”, de Arthur C. Clark, o longa-metragem 2001: A Space Odyssey retrata o avanço tecnológico da humanidade, desde o surgimento das primeiras ferramentas até uma missão espacial a Júpiter (AdoroCinema, 2026). De modo minimalista, a trama dá ênfase ao silêncio e ao simbolismo, para abordar temas como inteligência artificial e o futuro da civilização.

O longa é dividido em vários segmentos. Na primeira parte, intitulada “The Dawn of Man“, um grupo de primatas começam a usar ferramentas após o aparecimento de um monólito, uma estrutura formada por um bloco de pedra. Esse instante simboliza o avanço evolutivo que permite aos seres humanos dominar a natureza, porém também inaugura a violência organizada. Em seguida, a história avança para um futuro em que a humanidade já possui domínio sobre a tecnologia espacial (Britannica, 2026). 

Neste cenário, cientistas encontram um monólito enterrado na Lua, que emite um sinal direcionado a Júpiter. A partir disto, a nave Discovery One é enviada para investigar a fonte desse sinal, sob a supervisão do supercomputador HAL 9000, que exibe características de consciência e independência. Contudo, quando HAL começa a se comportar de maneira imprevisível, surge um conflito entre humanos e máquinas (Britannica, 2026). 

A leitura da obra cinematográfica através da Teoria Crítica das Relações Internacionais (RI), com base nos estudos de Herbert Marcuse, possibilita interpretá-la como uma crítica à predominante racionalidade tecnológica da sociedade contemporânea. Em sua obra “A Ideologia Da Sociedade Industrial” (2015), o autor afirma que o avanço tecnológico pode ser utilizado como mecanismo para perpetuar sistemas de controle e dominação, em uma sociedade altamente industrializada. 

Marcuse defende que as sociedades industriais desenvolvidas geram uma racionalidade instrumental, em que a tecnologia não é somente uma ferramenta, mas também passa a moldar as relações de poder e controle social. Embora possibilite uma melhoria nas condições de vida, a tecnologia estrutura a sociedade de modo a barrar essa emancipação. Dessa forma, a sociedade industrial acaba sendo organizada para a dominação do homem e da natureza, tornando-se irracional (Gabriel, 2004).

Neste contexto, HAL pode ser visto como uma metáfora da dominação tecnológica mencionada por Marcuse. A máquina representa os riscos de um sistema em que a tecnologia se torna autônoma e começa a controlar seus criadores. Quando incorporada a estruturas de poder, a tecnologia deixa de promover a emancipação humana e começa a replicar sistemas de controle (BBC, 2024). O próprio avanço tecnológico, conforme demonstrado no filme, não é acompanhado por evolução moral ou política. 

A corrida espacial retratada na trama pode ser vista como uma continuação da disputa geopolítica entre as principais potências.  O espaço passa a ser mais um campo de disputa estratégica, demonstrando que o avanço tecnológico está intimamente ligado às dinâmicas de poder do sistema internacional. Embora tenham a habilidade de viajar pelo espaço, os humanos continuam atados a sistemas burocráticos e militares, espelhando a lógica da Guerra Fria que caracterizava o período histórico em que o filme foi produzido (Castilho, 2019).

Em síntese, a obra de Kubrick não só prevê o futuro da humanidade no espaço, como também propor uma reflexão crítica acerca dos caminhos da civilização tecnológica. Em uma época caracterizada pelo avanço da inteligência artificial, a obra continua relevante ao instigar debates sobre o papel da tecnologia na configuração das relações de poder no sistema internacional.

REFERÊNCIAS: 

ADOROCINEMA. 2001 – Uma Odisseia No Espaço. 2026. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-27442/. Acesso em: 20 mar 2026 

BRITANNICA. 2001: A Space Odyssey. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/2001-A-Space-Odyssey-film-by-Kubrick. Acesso em: 22 mar. 2026.

CASTILHO, Paloma Marcela Carvalho de. De macaco selvagem a anjo espacial: a visão de Stanley Kubrick sobre a Guerra Fria e a manifestação do sublime no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço. 2019. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual Paulista (UNESP), Bauru, 2019. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/entities/publication/cd3ff16b-d0f3-4fc4-af25-f7f9845aa372. Acesso em: 22 mar. 2026.

COMO HAL 9000, o computador de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, previu preocupações atuais sobre IA. BBC Brasil, São Paulo, 4 ago. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crgkyj1dpmlo. Acesso em: 22 mar. 2026.

GABRIEL, Ivana Mussi. Herbert Marcuse:: reflexões sobre a sociedade tecnológica. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 9, n. 383, 25 jul. 2004.

MARCUSE, Herbert. O Homem Unidimensional: A Ideologia Da Sociedade Industrial. Editora Edipro, 2015.