Região: África

Eduardo Umbelino e Danilo Pina – acadêmicos do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A análise da geopolítica africana dentro da chamada nova reorganização do sistema internacional exige, antes de tudo, uma desconstrução crítica e rigorosa do que se entende por essa transição de poder no século XXI. O que os manuais tradicionais e a grande mídia tentam vender como uma multipolaridade equilibrada e benéfica é, na verdade, uma reconfiguração sofisticada das formas de exploração do Sul Global (Amin, 1970).

O declínio relativo da hegemonia unipolar dos Estados Unidos, somado ao esgotamento do projeto neoliberal ocidental, não significa uma emancipação imediata para as nações africanas. Pelo contrário, o continente continua sendo o principal laboratório de uma disputa predatória entre o velho imperialismo euro-americano e as novas ambições de potências como a China e a Rússia (Wallerstein, 1974). Esta nova ordem não representa um horizonte de liberdade, mas um rearranjo de forças onde a África é forçada a negociar sua soberania em meio a um sistema internacional inerentemente desigual, violento e excludente.

Historicamente, a inserção da África no sistema-mundo foi pautada pelo que Amin (1970) define como o desenvolvimento do subdesenvolvimento, um processo no qual a periferia é moldada para servir exclusivamente às necessidades do centro. Mesmo com a queda do Muro de Berlim e a promessa de uma era baseada em direitos humanos, o que se viu na prática foi a manutenção de estruturas coloniais sob uma nova roupagem diplomática.

O fracasso das intervenções militares ocidentais, como a Operação Barkhane liderada pela França, expôs as vísceras da geopolítica europeia. O interesse nunca foi a segurança dos povos africanos ou a estabilidade democrática, mas sim o controle rígido de rotas migratórias e o acesso privilegiado a recursos minerais e energéticos. O vácuo deixado por essas potências decadentes está sendo preenchido por uma lógica de segurança terceirizada e amoral (Mbembe, 2018).

A entrada do antigo Grupo Wagner, agora articulado como Africa Corps pela Rússia, em países como Mali e Burkina Faso após a expulsão das tropas francesas (Reuters, 2024), evidencia que a soberania africana está sendo rifada em troca de uma estabilidade precária que serve apenas para manter elites militares no poder e garantir o fluxo de commodities para Moscou.

No âmbito da segurança regional, a proliferação de grupos insurgentes revela a incapacidade profunda dos Estados pós-coloniais de exercerem o monopólio da violência legítima dentro de suas fronteiras. Grupos como o Boko Haram na bacia do Lago Chade e o Al-Shabaab no Chifre da África não são fenômenos isolados, mas sintomas de Estados que foram desenhados para falhar (Cierco; Belo, 2016).

De acordo com a teoria do sistema-mundo de Wallerstein (1974), as regiões periféricas tendem a ser palcos de instabilidade crônica justamente porque sua função econômica global é a de fornecedora de matéria-prima barata, o que não exige instituições fortes, mas apenas territórios minimamente controláveis. Esta fragmentação da segurança é alimentada por uma economia de guerra transnacional, onde armas pesadas circulam livremente para garantir que zonas mineradoras permaneçam em disputa permanente.

Relatórios recentes apontam que a violência insurgente no Sahel atingiu níveis recordes, resultando em milhares de mortes e milhões de deslocamentos em massa (Al Jazeera, 2024), o que confirma de forma trágica a falência das soluções de segurança importadas do Norte Global.

Em suma, a geopolítica da África na nova ordem mundial emergente não pode ser lida através de simplificações binárias. Ela exige um olhar acadêmico e militante que conecte as insurgências locais, a pilhagem mineral desenfreada e as manipulações ideológicas das elites governantes.

A verdadeira segurança não virá de Washington, Pequim, Paris ou Moscou, mas da superação radical de um sistema capitalista que trata o continente africano apenas como um almoxarifado de recursos naturais e um depósito de descartáveis. Enquanto a estabilidade regional for pensada apenas para garantir o fluxo ininterrupto de commodities para o mercado global, e não para proteger a vida humana e a dignidade em toda a sua diversidade, a África continuará sendo o termômetro das injustiças e contradições do sistema internacional.

A emancipação real e definitiva exige o fim das amarras coloniais externas e, simultaneamente, o fim da cumplicidade criminosa das elites locais que odeiam seu próprio povo e preferem a política da morte ao desenvolvimento humano soberano.

REFERÊNCIAS:

AL JAZEERA. Sahel violence: tracking the rising toll of conflict in 2024. Doha, 15 fev. 2024. Disponível em: https://www.aljazeera.com. Acesso em: 22 mar. 2026.

AMIN, Samir. A acumulação em escala mundial: crítica da teoria do subdesenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 1970.

CIERCO, Teresa; BELO, António. Será a Nigéria um Estado falhado? O grupo Boko Haram. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 21, p. 111-140, dez. 2016.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.

REUTERS. Russia’s Africa Corps: the new face of Wagner on the continent. Moscou/Bamako, 22 jan. 2024. Disponível em: https://www.reuters.com. Acesso em: 22 mar. 2026.

WALLERSTEIN, Immanuel. O Sistema Mundial Moderno: a agricultura capitalista e as origens da economia-mundo europeia no século XVI. Porto: Afrontamento, 1974.