
Alciane Carvalho Dias
Internacionalista formada pela UNAMA
Nascida em Teerã e forjada na diáspora holandesa, Sevdaliza não é apenas uma artista; ela é uma disruptora de metanarrativas. Refugiada aos cinco anos, sua trajetória é o ponto de partida para uma obra que funde o trip-hop sombrio, melismas persas e uma experimentação eletrônica de vanguarda. Em álbuns como ISON (2017) e o aclamado Shabrang (2020), a artista utiliza a tecnologia e a estética cibernética para realizar uma autópsia na identidade contemporânea. Para as Relações Internacionais, ela personifica a virada pós-moderna, desafiando as noções de soberania, Estado-nação e a própria fixidez do “Eu” (DER DERIAN, 1992).
O Pós-Modernismo nas RI surge como uma contestação radical às “verdades” do Realismo e do Liberalismo, que tentam enquadrar o mundo em sistemas racionais e centros de poder definidos. Teóricos como Richard Ashley e James Der Derian argumentam que a política global é, em essência, uma construção de linguagem, imagem e representação.
Sevdaliza habita precisamente essa zona de fratura. Ao utilizar Inteligência Artificial e próteses hiper-realistas para criar simulacros de si mesma em seus vídeos, ela materializa o conceito de Jean Baudrillard (1991): a imagem que não possui mais um referente no mundo real, tornando-se “mais real que o real”. No tabuleiro geopolítico, Sevdaliza nos lembra que as percepções sobre o “migrante” ou o “estrangeiro” são muitas vezes simulacros construídos pelo poder para justificar o controle e a exclusão (BAUDRILLARD, 1991; DER DERIAN, 1992).
A experiência de Sevdaliza como uma mulher iraniana na Europa adiciona uma camada de alteridade que implode o binarismo “Oriente versus Ocidente”. No pensamento pós-moderno, a identidade não é uma essência imutável, mas uma performance fluida e fragmentada. Como aponta R. B. J. Walker (1993), a distinção entre “dentro” (o Estado seguro) e “fora” (o perigo externo) é a base da política moderna.
Sevdaliza recusa-se a ser domesticada por esses rótulos; ela transita entre o persa e o inglês, entre o humano e o autômato, rompendo a lógica de exclusão que sustenta as fronteiras estatais. Para o pós-modernismo, essa recusa em ser categorizada é o ato máximo de resistência contra as estruturas de poder que buscam “territorializar” o indivíduo (WALKER, 1993; ASHLEY, 1988).
Ademais, sua obra dialoga diretamente com a Biopolítica foucaultiana. Sevdaliza utiliza seu próprio corpo como um laboratório político para expor como o poder transnacional atua sobre a vida biológica e a subjetividade. Suas metamorfoses visuais sugerem que o corpo feminino — e, especificamente, o corpo racializado e migrante — é o terreno onde se travam as batalhas mais silenciosas da vigilância e do biopoder global.
Segundo Michel Foucault (1999), o poder moderno não apenas pune, mas produz corpos “úteis” ou “marginais”. Ao assumir o controle total de sua imagem digital e hiper-humana, Sevdaliza subverte o olhar do Estado, transformando a vulnerabilidade histórica do refugiado em uma soberania artística inabalável (FOUCAULT, 1999; WALKER, 1993).
Em última análise, Sevdaliza é a voz de um sistema internacional em crise de identidade. Ela prova que a agência no século XXI não se resume ao voto ou ao passaporte, mas à capacidade de desconstruir os discursos e imagens que nos definem. Sevdaliza nos ensina que o “Outro” não é uma ameaça à ordem, mas a evidência de que a ordem é uma ficção linguística. Em um mundo de simulacros, a verdadeira soberania reside na coragem de ser inclassificável (DER DERIAN, 1992; ASHLEY, 1988; FOUCAULT, 1999).
Referências
ASHLEY, Richard K. Untying the Sovereign State: A Double Reading of the Anarchy Problematique. Millennium: Journal of International Studies, v. 17, n. 2, p. 227-262, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.
DER DERIAN, James. Antidiplomacy: Spies, Terror, Speed, and War. Oxford: Blackwell, 1992.
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
WALKER, R. B. J. Inside/Outside: International Relations as Political Theory. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
