Região: Oceania

Krigor Lüthemeier, acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A história da relação entre Austrália, Estados Unidos e OTAN revela uma transição de uma dependência colonial britânica para uma aliança estratégica consolidada com Washington após a Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, esta dinâmica passou a incluir uma aproximação institucional com a OTAN, refletindo a interconexão crescente entre a segurança do espaço euro-atlântico e do Indo-Pacífico (NATO, 2025). Neste cenário, a política externa australiana estrutura-se em múltiplos eixos de cooperação, combinando alianças tradicionais, parcerias estratégicas e mecanismos avançados de inteligência (Parliament of Australia, 2022).

A relação bilateral com os Estados Unidos constitui a pedra angular da política estratégica australiana. Embora os laços diplomáticos tenham sido estabelecidos em 1940, a formalização da aliança militar ocorreu com o Tratado ANZUS, em 1951, envolvendo Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos (Parliament of Australia, 2022). Este foi o primeiro acordo de defesa australiano sem participação britânica. Apesar de sua relevância, o tratado foi invocado apenas uma vez, após os atentados de 11 de setembro de 2001. A participação australiana em conflitos como Coreia e Vietnã ocorreu fora do escopo formal do ANZUS, demonstrando flexibilidade interpretativa (Australian Government, 2024).

Essa parceria evoluiu até a criação do AUKUS, em 2021, voltado ao desenvolvimento de tecnologias avançadas e submarinos nucleares, com o objetivo de conter a ascensão chinesa no IndoPacífico (Parliament of Australia, 2022). Paralelamente, a Austrália desenvolveu uma relação crescente com a OTAN, ainda que não seja membro formal da aliança. Classificada como parceira global, especialmente no contexto do Indo-Pacífico, iniciou cooperação institucional em 2005, aprofundada por meio de programas individualizados e culminando no Programa de Parceria Adaptado de 2023 (NATO, 2025).

A Austrália integra também o grupo de Parceiros de Oportunidades Aumentadas, reconhecimento concedido a países que contribuem significativamente para operações da OTAN. Destacou-se como um dos principais contribuintes não membros na missão no Afeganistão entre 2003 e 2014, além de participar de operações contra a pirataria na Somália e apoiar iniciativas recentes, como fundos destinados à Ucrânia (NATO, 2025).

Além das estruturas formais de defesa, a cooperação entre Austrália e Estados Unidos se estende ao campo da inteligência com ambos fazendo parte da aliança Five Eyes, baseada no acordo UKUSA de 1946, que estabelece um sistema avançado de compartilhamento de informações com Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia. Também participam do Diálogo de Segurança Quadrilateral (Quad), ao lado de Japão e Índia, com o objetivo de sustentar uma ordem internacional baseada em regras no Indo-Pacífico (Australian Government, 2024).

Esses arranjos reforçam a inserção australiana em redes multilaterais de segurança, ampliando sua capacidade de atuação global. Apesar da profundidade dessas relações, tensões recentes evidenciam limites na convergência estratégica entre Canberra e Washington. Políticas associadas ao lema “America First” suscitaram dúvidas quanto à confiabilidade dos Estados Unidos como parceiro de longo prazo. Este cenário tornou-se evidente em março de 2026, quando a Austrália recusou um pedido do governo de Donald Trump para enviar navios de guerra ao Estreito de Ormuz (Observador, 2026), sinalizando a priorização de seu entorno estratégico imediato em detrimento de envolvimentos no Oriente Médio.

Essa decisão pode ser interpretada à luz do realismo ofensivo de John Mearsheimer, que concebe os Estados como atores racionais em um sistema internacional anárquico, orientados pela maximização da sobrevivência (Mearsheimer, 2001). Sob essa perspectiva, a recusa australiana reflete um cálculo de custobenefício no qual os riscos de envolvimento em um conflito no Oriente Médio — agravados pela falta de consulta prévia pelos EUA e pelos impactos econômicos da guerra (Reuters, 2026) — superam os ganhos diretos para sua segurança nacional e, ao mesmo tempo, evidencia a centralidade do Indo-Pacífico como espaço prioritário de competição estratégica.

A decisão australiana também pode ser compreendida pela estratégia de “buck-passing”, na qual um Estado busca evitar os custos de conter uma ameaça, transferindo essa responsabilidade a outros atores (Mearsheimer, 2001). Ao não participar da missão no Estreito de Ormuz, a Austrália reconhece a importância da rota, mas delega sua proteção a potências diretamente interessadas, como os Estados Unidos ou países dependentes do fluxo energético da região — caso da China, que obtém 90% de seu petróleo via estreito (Reuters, 2026). Tal comportamento visa evitar desgaste estratégico e preservar recursos para cenários considerados mais relevantes.

Outro elemento central refere-se à natureza das alianças internacionais. Para Mearsheimer (2001), elas configuram arranjos temporários baseados em conveniência, e não garantias permanentes de segurança. A percepção de imprevisibilidade nas ações estadunidenses — exemplificada por políticas unilaterais e a imposição de tarifas sob o lema “America First” — contribui para uma crise de confiança que incentiva a Austrália a diversificar suas parcerias e reforçar sua autonomia estratégica, seja por meio do AUKUS, do Quad ou de outras iniciativas regionais.

A própria estrutura do Tratado ANZUS reforça essa margem de autonomia. Diferentemente de mecanismos mais rígidos de defesa coletiva, o acordo prevê apenas a obrigação de consulta em caso de ameaça (Australian Government, 2024), permitindo interpretações flexíveis sobre o grau de engajamento necessário. Assim, ao recusar o envio de navios, a Austrália reafirma sua soberania decisória e evita comprometer suas capacidades militares em um teatro secundário (Mearsheimer, 2001), preservando-as para desafios mais imediatos em sua região.

Em síntese, a trajetória das relações entre Austrália, Estados Unidos e OTAN evidencia uma transformação qualitativa, migrando de um modelo de cooperação essencialmente militar para uma arquitetura de integração estratégica multifacetada (NATO, 2025; Australian Government, 2024). Paralelamente, eventos recentes sugerem que, ainda que profundamente inserida em alianças consolidadas, a Austrália busca conciliar sua dependência histórica com o imperativo de uma autonomia estratégica crescente. Tal dinâmica reflete uma postura essencialmente pragmática, orientada pela lógica da autoajuda (Mearsheimer, 2001) e pela priorização inflexível de seus interesses nacionais no cenário geopolítico do Indo-Pacífico.

REFERÊNCIAS

Australian Government. United States of America country brief. Canberra: Department of Foreign Affairs and Trade, 2024. Disponível em: https://www.dfat.gov.au/geo/united-states-of-america/united-states-ofamerica-country-brief. Acesso em: 22 mar. 2026.

John J. Mearsheimer. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.

North Atlantic Treaty Organization. Relations with Australia. Bruxelas: NATO, 2025. Disponível em:https://www.nato.int/en/what-we-do/partnerships-and-cooperation/relations-with-australia. Acesso em: 22 mar. 2026.

Observador. Austrália e Japão não enviarão navios de guerra para o Estreito de Ormuz. Observador, 16 mar. 2026. Disponível em: https://observador.pt/2026/03/16/australia-e-japao-nao-enviarao-navios-deguerra-para-o estreito-de-ormuz/. Acesso em: 22 mar. 2026.

Parliament of Australia. Australia’s security relationships. Canberra: Parliamentary Library, 2022. Disponível em: https://www.aph.gov.au/About_Parliament/Parliamentary_departments/Parliamentary_Library/Research/ Briefing_Book/47th_Parliament/AustraliaSecurityRelationships. Acesso em: 22 mar. 2026.

Reuters. Trump upset as US partners reject call for Hormuz warship escorts. Reuters, 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/trump-demands-others-help-secure-straithormuz-japan-australia-sayno-plans-send-2026-03-16/. Acesso em: 22 mar. 2026.