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Ana Clara Falcão Batista Santana – 3° Semestre

É notável a presença central dos Estados Unidos da América (EUA) como potência no sistema internacional, e essa centralidade está diretamente ligada à sua capacidade militar, que contribui para a manutenção de sua posição de poder. De acordo com dados do Stockholm International Peace Research Institute (2025) — SIPRI —, os Estados Unidos continuam sendo o país com maior gasto militar do mundo, tendo atingido cerca de U$ 997 bilhões no ano de 2024.

Esse cenário de gastos em tecnologia militar pode ser interpretado a partir do conceito de distribuição de capacidades pensado pelo teórico neorrealista Kenneth Waltz, que explica como o poder se organiza e se distribui no sistema internacional (Theory of International Politics). Para Waltz, apesar de as unidades no sistema internacional desempenharem a mesma função – busca por mecanismos para sobreviver – a distribuição de capacidades é o que torna um país mais distinto.

Em primeiro plano, é importante revisitar a dinâmica do sistema internacional (S.I.), temática previamente explorada em “Theory of International Politics” (1979), que é analisada a partir da perspectiva neorrealista do intelectual Kenneth Waltz. O sistema internacional tem como característica principal a ausência de um agente regulador central, o que o faz ser anárquico.

A partir dessa afirmação, é possível destacar que o fato de o sistema internacional não configurar estrutura hierárquica faz com que cada Estado, em favor de sua soberania, aja sempre de modo preventivo, pois essa estruturação os obriga a priorizarem a própria sobrevivência e segurança.

Diante da estrutura do sistema internacional, o meio de sobrevivência encontrado por potências, nesse caso os EUA, foi investir uma parte significativa de sua receita em gastos militares: tanto em desenvolvimento bélico quanto em construção e manutenção de bases militares em outros territórios. Contudo, é evidente que para além do senso de autopreservação do Estado, os EUA como unidade deve manter sua força e até mesmo ampliá-la para garantir a manutenção do poder. Conforme essa ideia, e o conceito de Selfhelp (Theory of International politics), faz-se necessária a busca por destacar-se no cenário internacional.

Com base na perspectiva neorrealista defensiva acompanhada dos dados fornecidos pelo SIPRI (2025), é possível apontar o conceito de poder-força materializado, visto que, como proposto pelo teórico (Waltz), quanto maiores as capacidades, maior o poder — nesse caso, a capacidade militar.

Desse modo, os EUA possuem alta capacidade militar, tanto investida nos gastos de desenvolvimento bélico quanto na manutenção de suas bases militares, especialmente as Overseas. Entre os principais campos militares norte-americanos, há de se destacar a Al Udeid (Catar), formalizada como a maior base americana, devido a extensão de suas operações, partindo do Egito findando no Cazaquistão. Portanto, está em uma posição geoestratégica privilegiada no quesito de ações de combate.

As instalações de defesa, especialmente as que se encontram na região do Oriente Médio, confirmam o pensamento do autor quando o próprio declara que os Estados com maior capacidade detêm maior autoridade em sua política externa. Enquanto, apesar de soberanos, os países com menor capacidade, sejam elas militares ou territoriais, precisam se submeter aos interesses dos Estados que possuem maior capacidade.

Objetivando a autopreservação, países de menor capacidade aliam-se aos de capacidade superior. Como exemplo, o Catar estabelece parcerias com o Estado norte-americano e abriga postos militares em seu território, ato que garante a sua proteção e ao mesmo tempo favorece os interesses dos EUA.

[…]Historicamente, os países anfitriões têm financiado mais de 50% desse tipo de projeto. Investimento do Governo do Catar — US$ 145 milhões: desenvolvimento de Al Udeid — instalações de apoio operacional da base. (ESTADOS UNIDOS. SENADO FEDERAL. COMMITTEE ON ARMED SERVICES, 2003, p. 89)

Ao assumir uma parcela significativa dos custos de uma base militar dos EUA, o Catar, em troca da garantia de maior proteção, exemplifica o conceito de alianças como um dos fortes pilares da balança de poder, conforme defendido pela corrente defensiva do neorrealismo. Os pactos firmados entre os dois países visam deter agressões e manter o status quo.

Diante do exposto, é possível afirmar que alianças como a do Catar com Estados Unidos, são fortes instrumentos de sobrevivência no sistema internacional anárquico, mas não devem ser a única estratégia adotada, e nem mesmo gerar dependência excessiva entre os parceiros envolvidos, principalmente porque alianças só são mantidas enquanto servem aos interesses dos Estados. Portanto as parcerias são passíveis de mudança em diferentes contextos, principalmente quando há uma alteração na distribuição de capacidades no sistema internacional.

REFERÊNCIAS:

LIANG, Xiao et al. Trends in world military expenditure, 2024. Stockholm: SIPRI, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.55163/CQGC9685⁠.> Acesso em: 21 mar. 2026.

UNITED STATES. Congress. Senate. Committee on Armed Services. Ongoing military operations and reconstruction efforts in Iraq: hearing before the Committee on Armed Services, United States Senate, One Hundred Eighth Congress. Washington, DC: U.S. Government Printing Office, 2004.  Disponível em:https://www.govinfo.gov/content/pkg/CHRG-108shrg93766/pdf/CHRG-108shrg93766.pdf⁠>. Acesso em: 21 mar. 2026.

WALTZ, Kenneth N. Theory of international politics. Reading, MA: Addison-Wesley, 1979.

WHAT are the main US military bases in the Middle East? Reuters, 28 fev. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/us-military-facilities-middle-east-2026-02-28/⁠>. Acesso em: 21 mar. 2026.