
Railson Silva (acadêmico do 8° semestre de RI da UNAMA)
No vasto campo das Relações Internacionais os Estudos de Segurança Internacional (ESI) passaram por profundas transformações durante o século XX, especialmente após o final da Guerra Fria. Tradicionalmente dominada por abordagens realistas e neorrealistas, a área priorizava o Estado e a dimensão militar como eixos centrais nas análises sobre a segurança. No entanto, a crescente complexidade das ameaças contemporâneas fomentou o desenvolvimento de abordagens teóricas voltadas à ampliação desse escopo analítico (Thudium et al., 2020).
Nesse contexto, destaca-se a contribuição de Barry Buzan e da chamada Escola de Copenhague, que promoveu uma nova visão conceitual sobre a segurança internacional. Ao lado de autores como Ole Waever e Jaap de Wilde, Buzan desenvolveu uma perspectiva inovadora que buscou mudar o foco da segurança estritamente militar para uma abordagem mais multidimensional e socialmente construída.
A Escola de Copenhague surge na década de 1980, associada ao Copenhagen Peace Research Institute (COPRI), com o propósito de repensar os fundamentos da segurança internacional para além da lógica militar tradicional. Seu principal objetivo foi ampliar o conceito de segurança, incorporando novas dimensões e reconhecendo o papel das construções sociais na definição das ameaças (Thudium et al., 2020)
O teórico Buzan desempenhou um papel fundamental nesse processo ao propor uma reformulação do conceito de segurança em sua obra “People, States and Fear” (1983). Nesse sentido, a segurança busca superar a abordagem tradicional centrada na proteção do Estado contra ameaças militares e incorpora dimensões adicionais — política, econômica, social e ambiental (Thudium et al., 2020). Essa ampliação rompe com o reducionismo estadocêntrico e militarista, permitindo uma análise mais abrangente das dinâmicas internacionais.
Um dos conceitos fundamentais introduzido pela Escola de Copenhague é a securitização. Para essa abordagem, a segurança não é um dado objetivo, mas o resultado de um processo discursivo: um tema torna-se questão de segurança quando é apresentado como ameaça existencial por um ator relevante e aceito como tal por uma audiência (Buzan; Waever; e Wilde, 1998). Esse processo legitima a adoção de medidas extraordinárias para enfrentar a ameaça percebida.
A teoria da securitização destaca, portanto, o papel da linguagem e dos discursos na construção da realidade internacional. Nesse sentido, os chamados “atos de fala” são centrais, pois não apenas descrevem uma ameaça, mas também contribuem para produzi-la enquanto realidade política. Assim, a segurança passa a ser compreendida como um fenômeno intersubjetivo, dependente da interação entre atores e da aceitação social das narrativas construídas.
Em suma, a contribuição de Barry Buzan e da Escola de Copenhague representa um marco na evolução dos Estudos de Segurança Internacional. Ao romper com a visão tradicional centrada no Estado e na dimensão militar, essa nova abordagem introduziu uma compreensão mais ampla, multidimensional e socialmente construída da segurança.
Referências:
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
THUDIUM, Guilherme Paiva Stamm et al. Os Estudos de Segurança Internacional em Perspectiva Histórica: evolução teórica, regionalismo e a expansão da agenda securitária. In: XIV CADERNOS DE DEFESA NACIONAL. Brasília: Ministério da Defesa, 2020. Disponível em: <https://www.gov.br/defesa/pt-br/arquivos/ajuste-01/ensino_e_pesquisa/defesa_academia/cadn/artigos/xiv_cadn/osa_estudosa_dea_segurancaa_internacional.pdf.>
