Foto: Mario Renzi - Formula 1/Formula 1 via Getty Images

Maria Eduarda Feitosa e Maria Luiza Garacia, respectivamente alunas do 1° e 5° semestre de Relações Internacionais da Unama.

O Campeonato Mundial de Fórmula 1 iniciou oficialmente em 1950, sob um cenário pós Segunda Guerra Mundial, com sua criação objetivando impulsionar à indústria automobilística e incentivar avanços tecnológicos em uma Europa fragilizada internacionalmente. A primeira corrida oficial ocorreu em Silverstone, no Reino Unido, reunindo mais de 100 mil espectadores (Hamilton, 2024). Atualmente, o fenômeno desse esporte cresceu expressivamente em diversas regiões além do continente Europeu, e mais recentemente, para o Oriente Médio, atraindo aproximadamente 1,9 bilhões de consumidores (FORMÚLA 1, 2020).

Assim, para que tais avanços se consolidassem, foram feitas escolhas estratégicas que transformaram a Fórmula 1 em um produto que ultrapassou seu aspecto cultural. No momento hodierno, a Formula 1 também atua como mediadora de negociações milionárias entre empresas privadas e como instrumento de relações diplomáticas entre Estados. Nesse contexto, governos passaram a utilizar esse grande evento esportivo como mecanismo de projeção internacional e de melhoria de sua imagem externa, fenômeno amplamente conhecido como sportwashing (Grix et al., 2022).

Tal estratégia tornou-se evidente com a inclusão de países como Bahrein, Azerbaijão e Arábia Saudita no calendário da categoria. Esses Estados, cujas imagens no Ocidente estiveram frequentemente associadas a violações de direitos humanos e a regimes autoritários, passaram a utilizar as corridas e investimentos indiretos nas equipes para serem associados, no cenário internacional, como polos de infraestrutura e tecnologia, modernidade e marketing esportivo, contribuindo para a construção de uma narrativa pública positiva sobre a região (Irving, 2022).

Entretanto, diante dos atuais cenários de instabilidade ocasionados pelo conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, constataram-se mudanças significativas no calendário das corridas de Fórmula 1, o qual sofreu alterações diretas em sua programação. As corridas previstas para ocorrer no Bahrein e na Arábia Saudita, por exemplo, foram oficialmente canceladas devido à escalada das tensões militares na região e aos riscos de segurança envolvendo o público e os organizadores do evento (AP News, 2026). Segundo relatos locais, ataques com mísseis iranianos atingiram infraestruturas civis, energéticas e também instalações militares americanas na região, o que contribuiu para a decisão de cancelamento das provas previstas para o mês de abril (Gasiorowska, 2026).

Com o cancelamento dos eventos, estima-se um impacto financeiro relevante. Observa-se que investidores como o fundo soberano do Bahrein, proprietário da equipe McLaren Racing, o Catar, que possui participações na equipe Audi F1 Team, estreante na Fórmula 1, e a gigante energética Saudi Aramco, patrocinadora da equipe Aston Martin F1 Team, podem ser afetados com a renegociação de contratos comerciais a longo prazo (O Globo, 2026).  Além disso, o fechamento do Estreito de Ormuz, responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo e do gás natural da região para o restante do mundo, também impacta diretamente esses investidores. Juntamente a eles, a Mubadala Investment Company, fundo de Abu Dhabi, sofre prejuízos indiretos, sobretudo no setor de turismo regional, uma vez que eventos esportivos internacionais são importantes instrumentos de atração econômica para a região (Kantchev, 2026).

Nesse sentido, a dinâmica pode ser analisada à luz da Teoria Crítica das Relações Internacionais. Para Robert Cox (1981), as estruturas da ordem internacional são moldadas pela interação entre ideias, instituições e capacidades materiais, que condicionam as formas de poder e hegemonia no sistema internacional. A Fórmula 1, enquanto instituição esportiva global, articula essas três dimensões: mobiliza grandes fluxos de capital e investimentos estatais e privados (capacidades materiais), promove narrativas associadas à modernização, tecnologia e desenvolvimento (ideias) e funciona como um espaço institucional de cooperação entre governos, empresas e organismos esportivos internacionais.

Assim, os investimentos realizados por países do Golfo na Fórmula 1 podem ser compreendidos como parte de uma estratégia mais ampla de inserção internacional e de construção de legitimidade política. Entretanto, crises geopolíticas como o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã evidenciam os limites dessas estratégias, demonstrando que a estabilidade política e a segurança regional continuam sendo fatores estruturais que condicionam a capacidade desses Estados de utilizar o esporte como instrumento de projeção internacional.

Em suma, as consequências políticas resultantes do conflito consolidam uma crise estratégica que decorre da prática de sportwashing realizada por esses Estados. Isso porque, a insegurança gerada para turistas e realizadores dos eventos esportivos coloca em risco os projetos de investimentos bilionários dos países do Golfo. Essa perspectiva revela, na verdade, que desde a sua criação existem objetivos políticos e financeiros por meio desses agentes, que buscam aproximar o público de forma indireta a produtos comerciais e questões políticas globalmente planejadas.

REFERÊNCIAS

COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126–155, 1981.

GASIOROWSKA, Jordana. Middle East conflict disrupts global sports events and Formula 1 races. Al Jazeera, Catar, 5 mar. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/sports/2026/3/5/finalissima-f1-races-middle-east-conflict-disrupts-global-sports-events. Acesso em: 15 mar. 2026.

F1 broadcast to 1.9 billion total audience in 2019. Disponível em: https://www.formula1.com/en/latest/article/f1-broadcast-to-1-9-billion-fans-in-2019.4IeYkWSoexxSIeJyuTrk22. Acesso em: 27 mar. 2026.

F1 Middle East races canceled amid rising regional tensions. AP NEWS, Xangai, 14 mar. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/f1-mideast-races-canceled-4c110a35b3548020124106b9c21368c5. Acesso em: 15 mar. 2026.

GRIX, J. Et al. International Journal of Sport Policy and Politics. P. Editorial, v. 14, n. 4, p. 585–588, 2022.

Guerra no Oriente Médio ameaça GPs do Bahrein e da Arábia Saudita na Fórmula 1. O Globo, Londres, 5 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/formula-1/noticia/2026/03/05/guerra-no-oriente-medio-ameaca-gps-do-bahrein-e-da-arabia-saudita-na-formula-1.ghtml. Acesso em: 15 mar. 2026.

HAMILTON, Maurice. Formula 1: The Official History. London: Welbeck Publishing Group Limited, 2024. ISBN 978-1-80279-778-7.

IRVING, Jack. What is sportswashing? Sydney: Australian Human Rights Institute, University of New South Wales, 2022. Disponível em: https://www.humanrights.unsw.edu.au/students/blogs/what-is-sportswashing. Acesso em: 15 mar. 2026.

KANTCHEV, Georgi. Iran strikes shatter the Gulf”s post-oil pivot. Wall Street Journal. Nova Iorque, 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.wsj.com/world/middle-east/iran-strikes-shatter-the-gulfs-post-oil-pivot-c54f153a. Acesso em: 15 mar 2026.