
Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais
Intitulada como mãe que embalou o Brasil e o reconectou ao berço africano, Clementina de Jesus é uma das figuras mais emblemáticas como artista popular brasileira, reconhecida por preservar e projetar as tradições afro-brasileiras no cenário nacional. Sua trajetória rompeu padrões sociais e culturais ao transformar uma vivência marginalizada em patrimônio simbólico da identidade brasileira, especialmente por meio do samba de raiz e dos cantos ancestrais herdados da diáspora africana.
Quelé, como era chamada por amigos e familiares, nasceu em 1901, na comunidade de Carambita, em Valença (RJ), região cafeeira do Rio de Janeiro. Neta de escravizados, ainda criança, teve contato com jongos, corimás e cantos de origem africana aprendidos com a família, especialmente com a mãe (Vicentini, 2017). Mudou-se jovem para o Rio de Janeiro, onde cresceu em ambientes ligados ao samba e às manifestações populares, mas vivendo em condições de vulnerabilidade social, passando a trabalhar como empregada doméstica, o que lhe sustentou por décadas (UOL, 2005).
Tardiamente aos 63 anos, a carreira artística de Clementina foi revelada aos palcos brasileiros, quando Hermínio Bello de Carvalho se fascinou ao vê-la se apresentar em bares do Rio de Janeiro. Logo a convidou para fazer alguns shows, lhe preparando para o espetáculo Rosa de Ouro, oportunidade que abriu espaço para sua inserção definitiva no cenário musical brasileiro, onde foi consagrada encantando o público com sua voz singular e repertório ancestral (Farias, 2023).
Em um período da ditadura militar e tempos de bossa nova, sua chegada na época marcou terreno cultural e fortaleceu diálogos de reaproximação com as origens do samba, trazendo para o palco os cantos de trabalho, os jongos, os vissungos, as ladainhas e os batuques preservados oralmente em comunidades negras (Farias, 2023), tendo como destaques álbuns marcantes como Gente da Antiga, ao lado de Pixinguinha e João da Baiana. Em pouco tempo, também conquistou o público estrangeiro com a participação em festivais internacionais, como o Festival de Cannes e o Festival de Arte Negra no Senegal (Revista Raiz, 2017).
A trajetória de Clementina de Jesus pode ser analisada à luz da obra “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina” (2005), de Aníbal Quijano, que evidencia como hierarquias raciais e culturais herdadas do colonialismo continuam estruturando a sociedade contemporânea. Sua história evidencia como saberes afro-brasileiros foram historicamente marginalizados, ao mesmo tempo em que demonstra a capacidade de resistência e reexistência desses conhecimentos quando inseridos em novos espaços de reconhecimento.
As influências de Clementina na atualidade estão diretamente relacionadas à resistência e propagação da herança africana transmitida por meio da oralidade familiar e das práticas culturais comunitárias. Cantos de escravizados, jongos e tradições religiosas afro-brasileiras moldaram sua musicalidade, fazendo de sua obra um elo entre passado e presente através de suas canções, que carregam marcas da diáspora e da resistência cultural negra no Brasil (Ferreira, 2024).
A artista rompe com a lógica colonial ao deslocar para o centro da cultura nacional práticas tradicionalmente invisibilizadas. Sua voz, marcada pela ancestralidade e sua revelação tardia, vindo do subúrbio, não apenas desafiam padrões estéticos e sociais, mas também questionam a hierarquia entre saberes populares. Sua presença nos palcos carregou séculos de memória que sobreviveram à escravização, à repressão das culturas de matriz africana e ao silêncio imposto à população negra, representando mais que uma apresentação, mas uma afirmação política identitária.
Portanto, Clementina de Jesus não foi apenas uma cantora, ela é a mãe da música negra brasileira e sua presença continua guiando o país como guardiã da memória coletiva afro-brasileira. Sua trajetória revela a potência da cultura como forma de resistência e reafirma que a identidade brasileira é inseparável de suas raízes. Seu legado vive em cada batuque, em cada roda de samba, em cada artista que se conecta à ancestralidade.
REFERÊNCIAS
FARIAS, Amilton. Biografia – Clementina de Jesus: a voz que revolucionou o samba e a música brasileira. Fronteira Livre, 2023. Disponível em https://fronteiralivre.com.br/geral/biografia-clementina-de-jesus-a-voz-que-revolucionou-o-samba-e-a-musica-brasileira. Acesso em: 25 mar. 2026.
FERREIRA, Mauro. Cantora Clementina de Jesus, voz da ancestralidade, foi a mãe que embalou o Brasil e o religou ao berço africano. G1, 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2024/05/12/cantora-clementina-de-jesus-voz-da-ancestralidade-foi-a-mae-que-embalou-o-brasil-e-o-religou-ao-berco-africano.ghtml. Acesso em: 25 mar. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. Disponível em: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/62075/36367. Acesso em: 30 mar. 2026.
NOVA BRASIL. Clementina de Jesus: o legado imortal da voz que levantou a ancestralidade brasileira. Nova Brasil, 2025. Disponível em: https://novabrasilfm.com.br/notas-musicais/clementina-de-jesus-o-legado-imortal-da-voz-que-levantou-a-ancestralidade-brasileira. Acesso em: 29 mar. 2026.
REDAÇÃO UOL. Clementina de Jesus. UOL, 2025 Disponível em https://educacao.uol.com.br/biografias/clementina-de-jesus.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 29 mar. 2026.
REVISTA RAIZ. Biografia de Clementina de Jesus da potência ao afeto. Revista Raiz, 2017. Disponível em: https://raiz.art.br/2017/04/biografia-de-clementina-de-jesus-da-potencia-ao-afeto/. Acesso em: 26 mar. 2026.
VICENTINI, Rodolfo. Biografia de Clementina de Jesus resgata a cultura dos escravos no samba. UOL, 2017. Disponível em https://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2017/02/14/biografia-de-clementina-de-jesus-resgata-a-cultura-africana-no-samba. Acesso em: 26 mar. 2026.
YOUTUBE. Pixinguinha, Clementina de Jesus, João da Baiana – Gente Da Antiga (1968). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NFNhLlkhs7M&list=PLSRZ-n6cfuXJk5jyImpE8mJct-zZnfgEE. Acesso em: 06 mar. 2026.
