
Keity Oliveira, Pedro Henrique de Aviz e Stefany Campolungo, internacionalistas formados pela UNAMA
Ficha Técnica:
Ano: 2022
Direção: Ryan J. Condal e George R. R. Martin
Gênero: Ação, Aventura, Drama e Fantasia
Distribuição: HBO
País de Origem: Estados Unidos
Baseado no livro “Fogo & Sangue” de George R. R. Martin, House of the Dragon (2022) é um spin-off de Game of Thrones que busca expandir o universo da obra, contando histórias ocorridas 200 anos antes da série original. House of the Dragon aborda a disputa pelo poder entre os meio-irmãos Aegon II e Rhaenyra, que buscam o controle do trono após a morte do pai (AdoroCinema, 2022).
Durante a trama, é mostrado o sistema de dominação de gênero na série. Rhaenyra, apesar de ser a irmã mais velha, luta para conseguir a liderança no trono contra seu irmão, que apesar de ser mais novo e de outro casamento, possui o apoio popular e do sistema para se manter na corrida pelo poder. A série foca na tensão entre os dois irmãos e sobre quem é o mais digno de ser considerado o sucessor (AdoroCinema, 2022).
A investigação do estudo de gênero no âmbito das Relações Internacionais teve destaque no final da década de 1980, no contexto do chamado “terceiro debate” das Relações Internacionais, entre os positivistas e os pós-positivistas (Monte, 2013), que foram os responsáveis pela ruptura com as formas de construção de conhecimento anteriores da área, que não possuíam interesse em incluir em suas análises, as variáveis relacionadas com os novos atores que impactam nos fenômenos internacionais.
Nesse sentido, a lente de gênero nas Relações Internacionais busca entender como estruturas de poder são moldadas por desigualdades entre homens e mulheres e como normas sociais influenciam decisões políticas. Em House of the Dragon, essas dinâmicas aparecem de forma central na disputa pelo Trono de Ferro.
Desde o início, a questão da sucessão revela um sistema profundamente patriarcal. Mesmo sendo nomeada herdeira legítima, Rhaenyra Targaryen enfrenta resistência constante não por falta de capacidade, mas por ser mulher. Sua reivindicação ao trono desafia normas históricas que associam liderança à figura masculina. Assim, o conflito político não é apenas uma disputa dinástica, mas também uma disputa simbólica sobre o lugar da mulher no poder.
Além disso, a série evidencia como as mulheres são frequentemente utilizadas como instrumentos políticos. Casamentos arranjados, como o de Alicent Hightower com o rei Viserys, demonstram que o corpo feminino é tratado como meio de consolidar alianças e garantir estabilidade política. Nesse sentido, mulheres ocupam uma posição ambígua: são centrais para a política, mas raramente têm controle pleno sobre suas próprias decisões.
Nesse viés, com base nas contribuições das autoras feministas J. Ann Tickner e Cynthia Enloe, que ajudam a compreender como o poder é atravessado por desigualdades estruturais entre homens e mulheres, observa-se que a trajetória de Rhaenyra Targaryen revela as barreiras enfrentadas por mulheres que buscam ocupar espaços de poder: mesmo sendo nomeada herdeira legítima, sua autoridade é constantemente questionada, não por incapacidade, mas por desafiar normas de gênero profundamente enraizadas. Para ser reconhecida, ela precisa, em diversos momentos, adotar práticas e posturas associadas ao modelo masculino de poder, o que reforça a ideia de Tickner (1992) de que mulheres, ao ingressarem nesses espaços, muitas vezes acabam reproduzindo a lógica dominante em vez de transformá-la.
Ao mesmo tempo, a perspectiva de Cynthia Enloe (2005) permite ampliar a análise ao evidenciar que o político não se limita ao campo formal das decisões e guerras, mas também se constrói a partir de relações cotidianas e aparentemente privadas. Em House of the Dragon, isso se manifesta de forma clara nos casamentos arranjados, na importância da geração de herdeiros e no controle sobre o corpo e a sexualidade das mulheres.
Outro ponto importante é a forma como o comportamento feminino é julgado de maneira desigual. Rhaenyra, por exemplo, tem sua legitimidade questionada por sua vida pessoal e por rumores sobre seus filhos, algo que dificilmente seria usado contra um homem na mesma posição. O debate sobre a legitimidade dos herdeiros de Rhaenyra mostra como a vida íntima das mulheres é politizada e usada como instrumento de deslegitimação. A partir de Enloe (2005), torna-se evidente que essas dimensões não são periféricas, mas estruturais para o funcionamento do poder, pois sustentam as dinâmicas políticas mais amplas.
Em síntese, a série House of the Dragon não se limita a retratar somente uma disputa do Trono de Ferro; a série evidencia, de forma contundente, como estruturas de poder patriarcais moldam as relações sociais e políticas, refletindo desigualdades de gênero que transcendem o mundo fictício e dialogam com debates contemporâneos das Relações Internacionais.
A trajetória da Rainha Rhaenyra Targaryen ilustra como mulheres, mesmo detendo legitimidade formal, enfrentam obstáculos simbólicos e institucionais para ocupar posições de autoridade, sendo constantemente pressionadas a se adequar a padrões masculinos de liderança. Ao mesmo tempo, a série mostra como o poder é exercido não apenas em arenas formais, mas também através de relações íntimas, familiares e sociais, nas quais o corpo e a sexualidade das mulheres se tornam instrumentos de política e controle, conforme apontam Tickner (1992) e Enloe (2005).
Dessa forma, House of the Dragon oferece um campo amplo para compreender como a dimensão de gênero é constitutiva das relações de poder, reforçando que disputas políticas estão profundamente atravessadas por normas sociais e desigualdades estruturais. A série, portanto, funciona como um espelho narrativo das dinâmicas de exclusão e legitimação que persistem na política real, abrindo espaço para reflexões críticas sobre os desafios enfrentados por mulheres em posições de liderança.
REFERÊNCIAS
ADOROCINEMA, House of The Dragon. AdoroCinema. 2022. Disponível em: <https://www.adorocinema.com/series/serie-25633/> Acesso em: 31 de março de 2026.
Enloe, Cynthia. What if patriarchy is “the big picture”?: An afterwood. Gender, conflict, and peacekeeping. Oxford: Rowman & Littlefield, 2005.
MONTE, Isadora Xavier do. O debate e os debates: abordagens feministas para as relações internacionais. IN. Estudos Feministas, Florianópolis, 21, 2013. Disponível em: < https://www.jstor.org/stable/24328035?read-now=1&seq=1#metadata_info_tab_contents > Acesso em: 31 de março de 2026.
TICKNER, J. Ann. Gender in international relations: feminist perspectives on achieving global security. New York: Columbia University Press, 1992.
