
Yasmin da Silva Cavalcante – acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
As religiões pelo mundo são diversas e são responsáveis por moldar culturas, valores, visões distintas e delinear a identidade de bilhões de pessoas. A diversidade da fé é vasta, existem milhares de religiões, que variam desde as religiões com maior número de adeptos – como o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo – até crenças tradicionais e indígenas. De acordo com o Pew Research Center (2012), mais de oito em cada dez pessoas se identificam com um grupo religioso, o que representa cerca de 85% da população mundial.
A religião é um elemento que possui a essência de promover a paz, no entanto, tem sido utilizado como um fator motivador e justificativo para conflitos ao longo da história, muitas vezes cruzando fronteiras com disputas territoriais e políticas. Desde eventos como as Cruzadas e as guerras santas (sécs. XI-XIII), inúmeros embates foram travados em nome da fé, mas ainda assim com a presença de interesses econômicos e poder político.
E isso não é algo “invisível”, os representantes das religiões percebem e lamentam a forma como a crença de indivíduos é manipulada e utilizada como um instrumento para incitar a violência. O Papa Francisco declarou, segundo o ANSA Brasil (2024), que “existem muitos casos (no mundo) onde a fé em Deus é sempre colocada em primeiro lugar, mas, muitas vezes, ela é, infelizmente, manipulada e utilizada não para construir a paz, a comunhão, o diálogo, o respeito, a colaboração e a fraternidade, mas para fomentar divisões e estimular o ódio”. Mesmo sendo uma declaração cristã, muitas religiões possuem o princípio comum da busca por justiça, solidariedade e o respeito à dignidade comum.
Tal cenário pode ser melhor entendido pelo pensamento de Hans Morgenthau – influente jurista, cientista político germano-americano e teórico realista – em sua obra A Política Entre as Nações: A luta pelo poder e pela paz (1948). Nessa publicação, a ideia central é de que a política internacional é uma luta incessante e inevitável pelo poder e pela segurança entre os Estados, sendo um reflexo da natureza humana conflitiva.
Nesse sentido, os confrontos tidos como “religiosos” são, na realidade, disputas por poder, em que os líderes ou atores conflitantes utilizam esse elemento cultural como uma maneira de justificar suas ações e convencer atores a apoiar a guerra.
Segundo a perspectiva de Kenneth Waltz (1979) – cientista político norte-americano e teórico fundador do neorrealismo – o sistema internacional é anárquico, não existindo nenhuma autoridade acima dos Estados, o que ocasiona que cada país busque garantir a sua própria sobrevivência, não focando em ter o poder máximo, mas evitando que sejam dominados por outras nações. Sob esse olhar, a crença torna-se um fator secundário, o qual aparece no discurso, mas ao aprofundar os estudos e buscar examinar todas as variáveis percebe-se que a “raiz” do conflito não é religiosa.
Analogamente às interpretações teóricas, e continuando no cenário atual, tensões geopolíticas como Israel-Palestina são vistos à priori como religiosos ao envolver três grandes religiões – judaísmo, islamismo e cristianismo – pela disputa de territórios sagrados, como a cidade de Jerusálem. Contudo, mesmo possuindo uma imagem religiosa, o conflito também envolve questões políticas, controle de recursos, disputa por território e identidade nacional.
O elemento teológico pode ser a motivação direta como defesa da fé; contudo, dificilmente é a única causa, sendo frequentemente utilizada como justificativa política, como uma maneira de “acobertar” os verdadeiros interesses, sejam eles econômicos, territoriais estratégicos, e pode fortalecer a identidade cultural de grupos, o que ocasiona divisões.
“Atualmente, grupos terroristas derivados da Irmandade, como o Hamas, incitam o uso da violência contra Israel em nome do Islã, sem distinção entre alvos civis e militares. Eles continuam a usar a religião para angariar apoiadores em Gaza e em outros lugares, propagando essa narrativa apocalíptica.” (THE WASHINGTON INSTITUTE, 2018).
Com isso, guerras nesse sentido passam a ser classificadas como um conflito geopolítico com dimensão religiosa, de modo mais brando e simples, nem toda guerra entre crenças é de fato unicamente sobre sistema de valores, os líderes manipulam esse elemento para mobilizar a massa social.
A fé em si não é um fator decisório, ou seja, ela não causa hostilidades e nem garante a paz absoluta, os responsáveis por tais medidas são os próprios líderes, são as pessoas. Esse uso político pode dividir ou unir a sociedade.
Mas assim como o seu princípio, as crenças não estão ligadas somente aos conflitos, mas desempenham um forte papel na promoção da paz mundial, enfatizando valores como amor, compaixão, solidariedade e reconciliação. Encontros como Religions for peace são essenciais para a discussão e resolução de embates, além de reafirmar a importância das religiões no cenário internacional (VATICAN NEWS, 2025). Na última edição do evento em 2025, no Japão, o evento reuniu representantes de diversas religiões – cerca de 90 Estados fazem parte do organismo internacional – que reiteraram seu compromisso com a construção de uma sociedade em plena harmonia, o que comprovou que a construção de diálogos entre distintas comunidades é possível (VATICAN NEWS, 2025).
Logo, a religião estar entre a guerra e a paz ocorre porque é um elemento da sociedade humana, que reflete tanto nas disputas e interesses individuais, quanto nos ideais de harmonia e convivência. Dessa forma, as ações humanas, o humano é quem decide o que irá acontecer, não o elemento teológico.
Referências:
ANSA. Papa denuncia manipulação da fé para fomentar ódio. ANSA Brasil, Jacarta, 4 set. 2024. Disponível em: https://ansabrasil.com.br/brasil/flash/internacional/2024/09/04/papa-denuncia-manipulacao-da-fe-para-fomentar-odio_e0245616-2359-4467-8ac8-0ae03caf4f68.html#:~:text=%22Existem%20muitos%20casos%20%5Bno%20mundo,igrejas%20mais%20jovens%20e%20minorit%C3%A1rias. Acesso em: 27 mar, 2026.
MORGENTHAU, Hans J. A Política Entre as Nações: A luta pelo poder e pela paz. Brasília: Editora Universidade de Brasília. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, 2003.
MOSTAFA, Mohamed Galal. Religion and the Israel-Palestinian Conflict: Cause, Consequence, and Cure. The Washington Institute, 2018. Disponível em: https://www.washingtoninstitute.org/policy-analysis/religion-and-israel-palestinian-conflict-cause-consequence-and-cure. Acesso em: 27 mar, 2026.
PEW RESEARCH CENTER. The Global Religious Landscape. Pew Research Center, 2012. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2012/12/18/global-religious-landscape-exec/. Acesso em: 27 mar, 2026.
VATICAN NEWS. Das religiões o “não” à guerra: o diálogo, único caminho para superar os conflitos. Vatican News. 4 jul. 2025. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2025-07/religioes-guerra-paz-harmonia-solidariedade.html. Acesso em 27 mar, 2026.
WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Reading, Massachusetts: Addison-Wesley Publishing Company, Inc. 1979.
