Tiago Callejon Santos – Internacionalista formado pela Unama

Hoje, 5 de abril de 2026, celebra-se a Páscoa, a principal data da fé cristã. Ela recorda a crucificação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, fundamento da crença na redenção dos pecados e na salvação eterna. Cristo este que, para a fé cristã, veio à Terra para redimir a humanidade, tomando as suas  dores e morrendo por elas, as redimindo de seus pecados e prometendo-lhes a salvação eterna das suas almas. Logo, se entende rapidamente o porquê de ser um festejo tão importante para a constituição da mentalidade cristã em todo o mundo e, claro, no Brasil.

No entanto, antes de  aprofundar sobre o tema pascal, é importante compreender o seu significado em si e o que ela representa ao mundo, sobretudo ao meio cristão, além de contextualizar melhor a comemoração da data em si, explicando de maneira didática sobre as suas origens, suas etimologias, suas finalidades e suas significações.

Nesse contexto, é importante explicar a convenção do calendário pascal e dos eventos que antecedem a Páscoa em virtude do calendário litúrgico cristão. Para isso, deve-se introduzir o período litúrgico chamado de “Quaresma” e defini-la devidamente para um entendimento mais pleno das fenomenologias pascais que vão se seguir após a instituição da quaresma.

A Quaresma refere-se a um período de preparação e de penitência que perdura durante 40 dias, os quais são observados durante a quarta-feira de cinzas até a quinta-feira da Semana Santa, antecedendo a Páscoa e o tríduo pascal (Nascimento, 2025). A Quaresma possui origens desde os primeiros séculos da era cristã, por volta do século IV do calendário gregoriano, próximo do ano de 350 d.C. (Portal Canção Nova, s.d.). 

A convenção da Quaresma no calendário foi instituída à época porque os cristãos consideraram que o formato anterior de preparação para a Páscoa era insuficiente em  em apenas três dias – os três dias do chamado tríduo pascal – portanto, era necessário aumentar o período de preparação para a Páscoa, que antes eram apenas 3 dias – Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa ou Sexta-feira da Paixão, e o Sábado Santo – para 40 dias, instituindo a Quaresma e a preparação para a Páscoa ao longo de 40 dias, algo que fora visto como muito benéfico aos cristão e à cristandade em si, pois agora se tinha tempo hábil suficiente para se preparar devidamente para a celebração central do cristianismo (Portal Canção Nova, s.d.).

Próximo do fim dos quarenta dias de quaresma, o calendário litúrgico inicia o período da Semana Santa, o qual se cessará com o Domingo Santo, o Domingo de Páscoa ou o Domingo da Ressurreição. A Semana Santa é o período mais importante e fulcral dentro do calendário litúrgico cristão, pois é o período do calendário gregoriano em que se estabelece o cumprimento e a celebração do festejo da Páscoa, a celebração mais solene da fé cristã, onde se celebra a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, isto é, onde se celebra os principais aspectos das bases fundamentais de toda a fé cristã, ou seja, é quando se contempla todos os mistérios da redenção humana  (Redação MBC, 2025).

A Semana Santa se inicia no chamado Domingo de Ramos e dura até o próximo domingo, conhecido como o Domingo Santo, o Domingo de Páscoa ou o Domingo da Ressurreição. 

O Domingo de Ramos marca o início da jornada da Semana Santa, pois se celebra a entrada triunfal de Jesus Cristo na cidade de Jerusalém, quando Jesus entra na cidade montado em um jumento, cumprindo a profecia de humildade e paz, em contraste aos líderes da época, sobretudo os reis provinciais, que costumavam montar em cavalos heroicos de guerra, enquanto que o Filho do Homem entra na cidade com um jumento, conforme demonstrado no Evangelho de Mateus, no capítulo 21, durante os versículos de número 1 a 11.

Interessante notar que, segundo a teologia, aqui se apresenta um contraste marcante a ser analisado, pois ao entrar em Jerusalém, Jesus é recebido pela multidão aos gritos de “Hosana ao Filho de Davi”, mas no final da semana santa, essa mesma multidão irá clamar por sua execução pública (Redação Lumine, 2026).

Em sequência, a Segunda-Feira Santa recorda a unção em Betânia, conforme demonstrado no Evangelho de João, dos capítulos 1 a 12, em que Maria unge os pés de Jesus com um perfume caro, deixando a casa com uma fragrância suave e doce.

A Terça-Feira Santa é o dia que marca o anúncio da traição. Jesus anuncia que um de seus 12 apóstolos irá traí-lo e que o apóstolo Pedro irá negá-lo 3 vezes no futuro.

Na Quarta-Feira Santa, ocorre o mistério da traição e do encontro das dores. Conforme demonstrado no capítulo 26 do Evangelho de Mateus, nos versículos de números 14 a 25, um dos 12 apóstolos, Judas Iscariotes, negocia a entrega de Jesus Cristo às autoridades romanas pelo valor de 30 moedas de prata. 

A Quinta-Feira da Semana Santa possui grande importância simbólica. Além de ser o dia que demarca o fim da Quaresma e a transição para o tríduo pascal. Neste dia, mais especificamente pela noite, Jesus está realizando a Última Ceia com os seus 12 apóstolos. Ele institui um dos 7 Sacramentos da Igreja Católica, a Eucaristia, e, posteriormente, também institui o sacramento do Sacerdócio. Além disso, Jesus, sendo o Mestre e Senhor dos apóstolos, realiza um gesto de humildade e amor: ele realiza o rito de lava-pés, que consiste lavar os pés dos 12 apóstolos como se fosse um mero servo, rito esse descrito no Evangelho de João, no capítulo 13, versículos de 1 a 15.

Na Sexta-Feira Santa, ocorre o sacrifício do Cordeiro na Cruz do Calvário. É o dia em que Jesus está sob custódia das autoridades romanas e é executado, e sua execução se dá por meio da crucificação na Cruz do Calvário. Jesus, então, percorre o que é chamado de “Via Dolorosa”, isto é, a jornada percorrida por Cristo carregando a Cruz nas costas desde Jerusalém até o Monte Calvário, no lugar específico conhecido como a Igreja do Santo Sepulcro, que se diz ser, conforme convencionado pela tradição, o lugar onde Cristo foi crucificado e teve seu corpo sepultado posteriormente.

O Evangelho segundo João, nos capítulos de números 18 e 19, detalha bem toda a realidade da condenação de Cristo, da jornada de Cristo pela Via Dolorosa, da sua crucificação e da sua morte. Este dia representa um simbolismo extremamente singular e grandioso para os cristãos e é comum que os cristãos tirem o dia de hoje, em forma de memoração, para realizar atos de jejum, orações, penitências e adoração (Redação Lumine, 2026).

Com efeito, o Sábado Santo é o dia do “Grande Silêncio”, pois é um dia voltado para o silêncio, onde a Igreja não realiza celebrações visíveis e permanece junto ao sepulcro (Redação Lumine, 2026). Apesar disso, de noite ocorre a chamada “Vigília Pascal”, a vigília mãe de todas as vigílias que se inicia na noite do Sábado Santo e vai até o Domingo da Ressurreição, após o anúncio oficial da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo (Bonets, 2026).

Por fim, chega-se ao Domingo de Páscoa ou Domingo da Ressurreição. Neste dia, se celebra a Ressurreição de Jesus Cristo mediante à sua morte na Cruz do Calvário. É uma verdadeira e definitiva vitória, pois Cristo, ao renascer, demonstra a sua vitória mediante à Morte e ao Pecado, afirmando, sobretudo à Maria e aos seus apóstolos, que ele é o Verdadeiro Verbo Encarnado de Deus, e que ele renasceu para livrar as suas criaturas do pecado para poder redimi-las, concedendo-lhes a oportunidade de salvá-las eternamente da condenação eterna do Inferno.

Com isso, portanto, os homens podem se salvar se seguirem os mandamentos de Cristo e assim os proferirem, tendo a oportunidade de se juntar ao Pai na salvação eterna nos céus. Logo, não há momento mais importante e fulcral para se celebrar um festejo, para a mentalidade dos cristão, do que a Ressurreição do seu Salvador, por isso é uma data tão singular.

Trazendo um pouco esses contextos da Páscoa para a hodiernidade, é notório destacar algumas coisas que são fulcrais aos homens dos tempos atuais que estão em consonância com os eventos pascais mais recentes. Afinal, esse artigo de natureza especial também possui caráter político e histórico, e não apenas religioso, portanto, é necessário falar dessas outras valências.

Com efeito, de maneira controversa, o cardeal Pierbattista Pizzabala, cardeal italiano da Igreja Católica e Patriarca Latino de Jerusalém, responsável por administrar e organizar as atividades litúrgicas dentro da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, fora impedido de realizar a missa de celebração no último Domingo de Ramos (29/03), no próprio Santo Sepulcro, pelas autoridades policiais israelenses que estavam presentes no local, pois, segundo os mesmos, naquele momento, estavam ocorrendo instabilidades na região, o que gerou preocupações com a segurança do local devido aos desdobramentos na guerra contra o Irã (Reuters, 2026).

O episódio chama a atenção porque pela primeira vez em séculos na história da cristandade, a celebração do Domingo de Ramos fora impedida de ser executada (LAMB, Christopher et al, 2026), algo que fora visto como ultrajante para o Patriarcado de Jerusalém e para a Igreja como um todo, pois os olhos dos fiéis em todo o mundo se voltam para Jerusalém no período de Semana Santa (LAMB, Christopher et al, 2026). 

Aliás, conforme proferido pelos portais oficiais do Vaticano, o Vatican News (2026), essas medidas de impedimento da celebração da missa do Domingo de Ramos fora vista como “ claramente irracional e gravemente desproporcional” o qual foi baseada por considerações impróprias e que representam ‘um grave afastamento dos princípios fundamentais de razoabilidade, liberdade de culto e respeito pelo Status Quo” (Vatican News, 2026).

Com efeito, Israel voltou atrás com a sua decisão e permitiu com que Pizzabala retornasse ao Santo Sepulcro para celebrar as demais missas durante a Semana Santa, conforme notificado por Iacopo Scaramuzzi (2026), no portal ‘La Repubblica”, demonstrado uma boa notícia em prol do contexto da Semana Santa.

Outrossim, para além disso, outra notícia atual que merece destaque se refere à celebração da “Via Crucis” protagonizada pelo Papa Leão XIV, na última sexta-feira santa, dia 03/04. 

Na ocasião, de forma solene e histórica, o Papa Leão XIV presidiu o momento da oração da Via Sacra, carregando a cruz ao longo de 14 estações do Coliseu de Roma, diante de uma plateia de 30 mil fiéis em Roma, os quais acompanharam a oração do pontífice com velas nas mãos (Fonseca, 2026).

Tais questões atuais mostram como, mesmo após 2 mil anos de existência da cristandade e da Igreja, esses ritos e celebrações se mantém se suma importância aos fiéis. Não obstante, o fundamento da fé cristã se baseia na Crucificação, Morte e Ressurreição de Cristo, então é obrigação de todos que comungam o Corpo da Igreja em celebrar e comemorar a festividade santa e solene da Páscoa.

Sob a perspectiva das Relações Internacionais, a fim de colocar um teor um pouco mais crítico sobre tudo isso, é possível compreender esses fenômenos descritos ao longo do texto, sobretudo nas partes políticas, sob o viés das teorias construtivistas, com foco nas análises de Alexander Wendt, um dos maiores expoentes do Construtivismo.

Na cosmovisão da ótica construtivista, conforme proposto por Alexander Wendt, percebe-se que valores, crenças e identidades — como a fé cristã — possuem papel fundamental na organização das dinâmicas internacionais, influenciando inclusive decisões políticas e eventos concretos, como os ocorridos recentemente em Jerusalém.

Assim, conclui-se que o trabalho proposto serviu para demonstrar, de uma maneira mais religiosa, o que é a Páscoa e o seu significado, mas, no final do corpo textual, também se demonstrou necessário falar em como questões políticas, internacionalistas e geopolíticas interferem em um grau influente nas celebrações desta Festa Santa. 

O papel de um internacionalista é mostrar aos demais como o mundo ou o Sistema Internacional se apresentam, não em como o internacionalista acha que os mesmos funcionam, portanto, analisar a Páscoa por diferentes perspectivas para além dos religiosos, é justamente por isso que uma análise internacionalista mais fundamentada se fez presente por aqui. Uma ótima Páscoa a todos e Viva Cristo Rei!.

Referências:

BONETS, Vitor; SOUZA, Beto. Sábado de Aleluia: entenda significado que precede a ressurreição de Cristo. CNN Brasil, 3 abr. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/sabado-de-aleluia-entenda-significado-que-precede-a-ressurreicao-de-cristo/. Acesso em: 4 abr. 2026.

CANÇÃO NOVA. Por que esta semana é santa? Disponível em: https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/semana-santa/por-que-esta-semana-e-santa/. Acesso em: 4 abr. 2026.

CANÇÃO NOVA. Qual é a origem da Quaresma? Disponível em: https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/quaresma/qual-e-a-origem-da-quaresma/. Acesso em: 4 abr. 2026.

CNN BRASIL. Polícia impede acesso à Igreja do Santo Sepulcro no Domingo de Ramos. CNN Brasil, 31 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/policia-impede-acesso-a-igreja-do-santo-sepulcro-no-domingo-de-ramos/. Acesso em: 4 abr. 2026.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS – IHU. Israel recua: Pizzaballa pode retornar ao Santo Sepulcro. 1 abr. 2026. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/664246-israel-recua-pizzaballa-pode-retornar-ao-santo-sepulcro. Acesso em: 4 abr. 2026.

LUMINE. O que acontece em cada um dos dias da Semana Santa? Disponível em: https://blog.lumine.tv/o-que-acontece-em-cada-um-dos-dias-da-semana-santa/. Acesso em: 4 abr. 2026.

MINHA BIBLIOTECA CATÓLICA. Páscoa: guia completo para católicos. Disponível em: https://bibliotecacatolica.com.br/blog/formacao/pascoa/. Acesso em: 4 abr. 2026.

NASCIMENTO, Luciano. Saiba o que significa o período da Quaresma para os cristãos. Agência Brasil, 25 mar. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-03/saiba-o-que-significa-o-periodo-da-quaresma-para-os-cristaos#:~:text=Mas%2C%20voc%C3%AA%20sabe%20o%20que,%C3%A9poca%20sagrada%20para%20os%20crist%C3%A3os. Acesso em: 4 abr. 2026.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Os 5 fatos sobre a Igreja do Santo Sepulcro, local onde estão algumas estações da Via Crucis. 11 abr. 2025. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2025/04/os-5-fatos-sobre-a-igreja-do-santo-sepulcro-local-onde-estao-algumas-estacoes-da-via-crucis. Acesso em: 4 abr. 2026.

REUTERS. Police block cardinal from Jerusalem’s Holy Sepulchre on Palm Sunday. 31 mar. 2026. Vídeo. Disponível em: https://www.reuters.com/video/watch/idRW844929032026RP1/. Acesso em: 4 abr. 2026.

VATICAN NEWS. Cardeal Pizzaballa e padre Ielpo impedidos de entrar no Santo Sepulcro. Vatican News, 29 mar. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2026-03/cardeal-pizzaballa-padre-ielpo-impedidos-de-entrar-santo-sepulcr.html. Acesso em: 4 abr. 2026.VATICAN NEWS.

Papa reza a Via Sacra no Coliseu (3 abril 2026). Vatican News, 3 abr. 2026. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-04/papa-reza-a-via-sacra-no-coliseu-3-abril-2026.html. Acesso em: 4 abr. 2026.