
Soraia Rodrigues – 3° Semestre
A conduta de Donald Trump frequentemente é vista como exemplo de insensatez ou desatino político: retórica inflamada, contestação de instituições e decisões que geram custos visíveis no plano doméstico. No entanto, quando analisada pela teoria do realismo ofensivo de John Mearsheimer, essa conduta revela uma racionalidade estatal coerente. Mearsheimer argumenta que os Estados são atores racionais que buscam maximizar seu poder relativo em um sistema internacional anárquico.
Sob essa perspectiva, as políticas “America First” de Trump não constituem anomalia irracional, mas uma resposta estratégica à competição entre grandes potências, especialmente a ascensão da China.
John Mearsheimer constrói o realismo ofensivo sobre cinco pressupostos fundamentais. O sistema internacional é anárquico, sem autoridade superior que proteja os Estados. As grandes potências possuem capacidade militar ofensiva, podem ter certeza das intenções alheias, o que gera desconfiança permanente.
A sobrevivência — preservação da soberania territorial e independência política — constitui o objetivo principal dos Estados. Por fim, e mais relevante para esta análise, os Estados são atores racionais: pensam estrategicamente, avaliam custos e benefícios de longo prazo e atuam com base em teorias críveis sobre o funcionamento do mundo.
Em The Tragedy of Great Power Politics, Mearsheimer reforça que a racionalidade estatal não significa infalibilidade, mas a capacidade de formular políticas que maximizem o poder relativo para garantir a sobrevivência em um ambiente inseguro. Dessa combinação de pressupostos derivam comportamentos previsíveis: medo, interdependência e busca constante por maior poder.
Diferentemente do realismo defensivo, que propõe apenas “poder suficiente”, o realismo ofensivo sustenta que as grandes potências devem maximizar seu poder para impedir que rivais alcancem hegemonia regional. Aplicando esses pressupostos, as ações de Trump ganham coerência racional.
No plano internacional, suas críticas à OTAN a um “parasitismo” dos aliados, a guerra comercial com a China, a redução de compromissos multilaterais liberais e o foco estratégico no Indo-Pacífico representam uma tentativa racional de maximizar o poder relativo americano. Trump reconhece a anarquia do sistema, a incerteza sobre as intenções chinesas e a necessidade de priorizar a sobrevivência e o poder dos EUA, rejeitando o que Mearsheimer chama de elasticidade da estratégia liberal hegemônica. Assim, o que parece ilusório ou incoerente internamente transforma-se em resposta à anarquia global, na qual os Estados Unidos buscam impedir que rivais consolidem supremacia regional.
Economicamente, tarifas sobre produtos chineses e o protecionismo protegeram indústrias tradicionais em estados decisivos, mas elevaram custos para consumidores e empresas dependentes de cadeias globais, gerando inflação e rearranjos nas rotas de suprimento.
Social e culturalmente, as restrições migratórias rigorosas — inclusive propostas polêmicas sobre cidadania por nascimento — reduziram a imigração irregular, provocaram escassez de mão de obra em agricultura e serviços, e intensificaram divisões raciais, de gênero e geracionais.
Esses efeitos internos parecem caóticos ou contraproducentes para observadores liberais, mas, segundo a lógica de Mearsheimer, são subprodutos secundários de uma estratégia racional focada na competição de grandes potências. A aparente irracionalidade de Trump não é absoluta, mas depende do ângulo adotado: desatino doméstico ou racionalidade estatal internacional.
Essa leitura ganha profundidade quando associada à teoria do “desafio e resposta” de Arnold J. Toynbee. A própria irracionalidade aparente de Trump constitui o grande desafio civilizacional que os Estados Unidos precisam enfrentar. Internamente, suas medidas produzem benefícios concentrados e custos difusos, submetendo o tecido nacional a pressões simultâneas.
Se a sociedade americana responder a esse desafio de forma criativa — absorvendo a energia disruptiva para recuperar o poder relativo sem destruir a coesão interna —, o fenômeno poderá ser lembrado como visão estratégica. Caso contrário, será registrado como episódio de declínio por resposta inadequada.
Em síntese, ao assumir que os Estados são atores racionais, Mearsheimer nos convida a reinterpretar Trump não como anomalia irracional, mas como expressão previsível da lógica implacável da política de grandes potências. As contradições entre caos doméstico e assertividade internacional deixam de ser paradoxo e passam a ser consequências naturais de um Estado que busca maximizar seu poder em um sistema anárquico.
O veredito final dependerá de quão eficazmente a racionalidade estatal conseguirá responder ao desafio atual sem comprometer a unidade interna da nação. O tempo e os rumos políticos definirão se essa resposta será criativa ou insuficiente.
Referencias:
MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. Atualizado ed. New York: W.W. Norton & Company, 2014.
TOYNBEE, Arnold J. A study of history: abridgement of volumes I-VI by D. C. Somervell. Oxford: Oxford University Press, 1987
COULTER, S. Offensively realist? Evaluating Trump’s economic policy towards China. E-International Relations, 9 dez. 2020. Disponível em: https://www.e-ir.info/pdf/88865. Acesso em: 2 abr. 2026.
BOWN, Chad P. The Trump-China trade wars: five takeaways from US imports in 2025. PIIE Realtime Economics, 16 mar. 2026. Disponível em: https://www.piie.com/blogs/realtime-economics/2026/trump-china-trade-wars-five-takeaways-us-imports-2025. Acesso em: 1 abr. 2026.
GÜZELİPEK, Yiğit Anıl. The roots of Trump’s foreign policy: offensive realism or eye washing twilight? Ante Portas – Studia nad Bezpieczeństwem, Disponível em: https://anteportas.pl/wp-content/uploads/2019/03/AP.X_Guzelipek.pdf. Acesso em: 30 mar. 2026.
BROOKINGS INSTITUTION. Assessing US immigration policy in the second Trump administration. Washington, DC: Brookings Institution, 15 jan. 2026. Disponível em: https://www.brookings.edu/articles/assessing-us-immigration-policy-in-the-second-trump-administration/. Acesso em: 30 mar. 2026.
