Jacob Saragá, acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama 

Ficha Técnica: 

Ano: 1995 

Direção: Mamoru Oshii 

Gênero: Ficção Científica / Cyberpunk (Animação) 

Distribuição: Shochiku / Production I.G 

País de Origem: Japão 

Sob a direção de Mamoru Oshii, o longa-metragem Ghost in the Shell estabelece-se como uma peça fundamental para a análise das Relações Internacionais (RI) contemporâneas, transcendendo o rótulo de mera animação de ficção científica. Embora a obra se situe em um futuro distópico, ela oferece um terreno fértil para discutir a ontologia do Estado e do ator político num sistema globalizado, onde as barreiras físicas se tornam porosas diante da imaterialidade dos dados. O propósito central desta resenha é examinar como a trajetória da Major Motoko Kusanagi dialoga com os preceitos do Construtivismo de Alexander Wendt, sugerindo que a identidade, seja ela individual ou estatal, não é uma característica biológica ou material imutável, mas sim o fruto de uma construção social e intersubjetiva constante que molda os interesses e as ações dos atores no palco global. 

No que diz respeito à narrativa, a obra descreve uma sociedade hiperconectada onde a integração entre o biológico e o digital foi praticamente superada pela evolução da cibernética. Acompanha-se a rotina da Seção 9, uma unidade de inteligência e segurança pública que lida com crimes cibernéticos e terrorismo tecnológico em um Japão futurista. A protagonista, Kusanagi, possui um corpo inteiramente robótico, uma “concha” (shell) de alta tecnologia, preservando apenas seu “ghost“, a consciência ou alma que restou de sua origem humana (SAAIDA, 2023). 

 O conflito central emerge quando a equipe passa a perseguir o “Mestre das Marionetes”, um hacker enigmático e invisível capaz de manipular memórias e identidades alheias. Sem recorrer a revelações que prejudiquem a experiência do espectador, nota-se que a busca por este antagonista força a Major a confrontar a incerteza sobre sua própria essência: se suas memórias podem ser hackeadas e seu corpo é propriedade do Estado, o que garante sua autonomia enquanto indivíduo (SAAIDA, 2023). 

Ao transpor essa trama para o campo teórico das Relações Internacionais, o filme serve como uma ilustração prática e profunda das teses de Alexander Wendt (1999). Para o autor, a estrutura internacional é, acima de tudo, um conjunto de relações sociais, e não apenas uma distribuição de capacidades materiais. De acordo com Wendt (1992, p.391), “a anarquia é o que os Estados fazem dela”, argumentando que o sistema internacional só é hostil ou cooperativo porque os agentes, através de suas práticas, o construíram dessa forma.  

Analogamente, a identidade da Major Kusanagi não é determinada exclusivamente por seu chassi cibernético ou pelo seu poder de fogo. Pelo contrário, sua existência enquanto “sujeito” é moldada pelas normas, pelos significados e pelas percepções que surgem de suas interações diárias. Essa perspectiva fundamenta a ideia de que o poder, no cenário político atual, reside cada vez mais no controle de narrativas e na legitimidade das identidades, em vez de repousar apenas na posse de recursos físicos. 

Ademais, ao detalhar o desenvolvimento da crítica, observa-se que a conduta das instituições estatais no filme reflete o choque entre a soberania tradicional e a nova fluidez do ciberespaço. Enquanto o Ministério das Relações Exteriores e a Seção 6 tentam conter o Mestre das Marionetes através de métodos realistas, focados em contenção, espionagem e eliminação física, a Major percebe que a natureza do conflito mudou. A revelação de que o “vilão” é, na verdade, um programa de computador que adquiriu consciência desafia a lógica westfaliana de que apenas humanos ou Estados personificados possuem agência política. No prisma de Wendt (1992), a interação entre a Major e a inteligência cibernética demonstra que as identidades podem evoluir e até se fundir através do contato intersubjetivo. Este processo evidencia que a política internacional não precisa ser um jogo estático de forças, mas pode ser um “mundo de nossa construção”, onde novas formas de organização social emergem da superação de preconceitos ontológicos sobre quem é, ou não, um ator legítimo. 

Considerando o cenário político contemporâneo, a obra antecipa dilemas sobre a cibersegurança e a erosão do poder estatal perante fluxos de informação transnacionais. Assim como o Mestre das Marionetes opera em um vácuo geográfico, afetando governos sem possuir território, os atores modernos de grandes corporações de tecnologia a grupos de hackativismo, exercem influência baseada na construção de significados e na manipulação de percepções. A teoria de Wendt auxilia na compreensão de que as ameaças cibernéticas não são perigosas apenas pelo dano técnico que causam, mas pela forma como elas desestabilizam as identidades nacionais e a confiança entre as nações. O longa, portanto, convida o estudante de RI a refletir sobre como a segurança nacional está se tornando menos uma questão de fronteiras de concreto e mais uma questão de integridade de dados e solidez de identidades sociais. 

Em última análise, Ghost in the Shell funciona como uma síntese da leitura crítica que prioriza o papel das ideias, da cultura e das percepções na ordem mundial. A obra conclui que a essência de um ator, seja ele um ciborgue em crise ou um Estado em um sistema anárquico, não está em sua casca material ou no seu poder bruto, mas na complexa rede de significados que o sustenta e o define perante os outros. Portanto, a animação é recomendada como uma ferramenta indispensável para quem busca entender a transição paradigmática das Relações Internacionais no século XXI. Ela sugere que as transformações tecnológicas não estão apenas mudando as ferramentas da guerra ou da economia, mas estão, primordialmente, reescrevendo os pilares da soberania e da convivência social, exigindo uma nova sensibilidade teórica para interpretar um futuro em que o “ghost” da informação é quem realmente comanda a “shell” do poder estatal. 

Referências  

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.  

WENDT, Alexander. Anarchy is what States Make of it: The Social Construction of Power Politics. International Organization, v. 46, n. 2, 1992. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/3791430. Acesso em: 03 Mar. 2026. 

SAAIDA, Mohammed. The Role of Culture and Identity in International Relations. East African Journal of Education and Social Sciences, 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/369373497_The_Role_of_Culture_and_Identity_in_International_Relations. Acesso em: 03 Mar. 2026.