
(Luccas Diaz/Guia do Estudante)
Maria Clara Palheta Barata – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
A inserção da América Latina no sistema internacional contemporâneo permanece marcada por uma herança estrutural que transcende o fim formal dos impérios coloniais. Observa-se que a neocolonização na América Latina constitui um dos conceitos fundamentais para entender as assimetrias no sistema internacional contemporâneo. Diferentemente do colonialismo clássico, baseado na dominação territorial direta, a neocolonização opera por meio de mecanismos econômicos, tecnológicos, políticos e financeiros. De acordo com a autora Manuela Barbosa (2021), “em decorrência disso, e até ao mesmo tempo, a dependência social e cultural manifestou-se sem que os latino-americanos pudessem lutar contra isso” (BARBOSA, 2021).
Observa-se que na América Latina, o fenômeno da neocolonização não se manifesta por meio de ocupações territoriais formais ou administrações coloniais diretas, mas sim através de uma colonialidade do poder. Assim, a análise das relações internacionais latino-americanas exige o reconhecimento de que a independência formal não extinguiu os laços de subalternidade, mas os sofisticou por meio de mecanismos financeiros, tecnológicos e ideológicos que continuam a moldar a inserção da região na ordem mundial.
Sob o olhar da Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais, aplicada ao contexto latino-americano, não se restringe ao estudo às independências políticas nos séculos passados. Diferente das teorias hegemônicas das Relações Internacionais, como Neorrealismo ou Neoliberalismo, a teoria pós-colonial identifica que os Estados latino-americanos nasceram e permanecem inseridos em uma hierarquia racializada e eurocêntrica. Nesta estrutura, a autonomia é limitada por mecanismos de controle que evoluem do domínio territorial direto para formas mais sofisticadas de intervenção sistêmica.
Pelo contrário, a teoria mostra a permanência de estruturas de poder que sobrevivem ao fim das administrações coloniais. A exemplo disso, tem-se o conceito denominado de colonialidade do poder, o qual foi desenvolvido por Aníbal Quijano (2005), em que se expõe um padrão de poder global que cresceu com o colonialismo europeu, porém continua a estruturar a sociedade contemporânea através do controle do trabalho e da produção do conhecimento.
Historicamente, controle neocolonial manifestou-se de forma coercitiva e ideológica. A colonização da América Latina pelos espanhóis e portugueses estabeleceu as bases dessa exploração ao implementar o chamado pacto colonial, que forçava as colônias a servirem exclusivamente aos interesses de suas metrópoles. Em comparação, no século XX, com apoio dos Estados Unidos a golpes de Estado e regimes ditatoriais durante a Guerra Fria, como no Brasil em 1964 e no Chile em 1973, serviram para alinhar a região à hegemonia do Norte Global (JOFFILY, 2018). Esses eventos não foram anomalias, mas sim ferramentas de manutenção de uma ordem onde a América Latina deve permanecer funcional aos interesses das potências centrais.
Observa-se que no cenário contemporâneo, a neocolonização da América Latina pelos Estados Unidos transita de uma influência ideológica para uma disputa pragmática e tecnológica por recursos vitais. Essa nova roupagem, frequentemente chamada de Doutrina Monroe 2.0 (BBC, 2025), foca primordialmente na segurança das cadeias de suprimentos de minerais críticos, como o lítio, no qual os países chamados “Triângulo do Lítio”, como Chile, Argentina e Bolívia, que detém grande parte das reservas mundiais, tornou-se o novo campo de batalha (BRASIL DE FATO, 2025).
Desse modo, a Teoria Pós-Colonial demonstra que a inserção da América Latina no sistema internacional é um processo de recolonização contínua. A região continua a lutar contra uma “herança estrutural” que sofistica seus laços de subalternidade a cada nova crise ou transição do capitalismo global. Além disso, a superação da neocolonização exige uma integração regional que priorize a Cooperação Sul-Sul e a construção de infraestruturas tecnológicas soberanas. Sendo assim, a América Latina poderá deixar de ser um campo de batalha de potências externas para se tornar sujeito ativo de sua própria história.
Em conclusão, a análise da inserção da América Latina no cenário global revela que a independência política formal não foi suficiente para romper com as amarras da subalternidade. Portanto, a superação desse ciclo de neocolonização exige que os países latino-americanos transcendam a posição de objetos da disputa geopolítica. Segundo Eduardo Galeano, “agora, para o mundo, América é tão só os Estados Unidos, e nós quando muito habitamos uma sub-América” (GALENO, 2010). Desse modo, para romper com essa condição de “sub-América”, é necessário um resgate histórico que valide nossas particularidades além dos estereótipos impostos pelo mundo exterior.
Referências:
BARBOSA, Manuela Paola Batista. Os fundamentos da dependência Latinoamericana e a oportunidade para a emancipação definitiva e total dos países da América Latina. Curitiba, 18 nov 2021. Disponível em: https://repositorio-api.animaeducacao.com.br/server/api/core/bitstreams/da1bd048-56a2-4209-bcbf-89fe416f0ba3/content. Acesso em: 28 mar. 2026.
BBC NEWS BRASIL. O que é o ‘Triângulo do Lítio’ e por que ele é estratégico para o mundo. BBC News Brasil, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9vjl71kgnno . Acesso em: 31 mar. 2026.
CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília, DF: FUNAG, 2012. Disponível em: https://funag.gov.br/loja/download/931-Teoria_das_Relacoes_Internacionais.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
CHAGAS, RODRIGO. Com vitória da direita no Chile, ‘triângulo do lítio’ e 50% das reservas globais ficam sob governos alinhados aos EUA; entenda. Brasil de Fato, São Paulo, 17 dez. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/12/17/com-vitoria-da-direita-no-chile-triangulo-do-litio-e-50-das-reservas-globais-ficam-sob-governos-alinhados-aos-eua-entenda/ . Acesso em: 31 mar. 2026.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2010. Disponivel em: https://socializandopedagogias.wordpress.com/wp-content/uploads/2023/08/as-veias-abertas-da-america-latina-eduardo-galeano.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026
JOFFILY, Mariana. A política externa dos EUA, os golpes no Brasil, no Chile e na Argentina e os direitos humanos. Topoi (Rio de Janeiro), Rio de Janeiro, v. 19, n. 38, p. 58-80, ago. 2018. Disponível em: https://share.google/IYBbq0ZBw2yh7HzKW
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL. Estados Unidos fortalecem sua influência e desafiam a autonomia da América Latina. São Paulo, [s. d.]. Disponível em: https://diplomatique.org.br/estados-unidos-fortalecem-sua-influencia-e-desafiam-a-autonomia-da-america-latina/. Acesso em: 31 mar. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. Disponível em: https://ufrb.edu.br/educacaodocampocfp/images/Edgardo-Lander-org-A-Colonialidade-do-Saber-eurocentrismo-e-ciC3AAncias-sociais-perspectivas-latinoamericanas-LIVRO.pdf. Acesso em: 31 mar. 2026.
