
Vinicius Kenui, Acadêmico do 1° semestre de Relações Internacionais
Alciane Carvalho, Internacionalista formada pela UNAMA
A década de 1970 na Irlanda não foi pautada unicamente por tensões geopolíticas, mas por uma profunda reconfiguração da identidade nacional operada através da cultura. No epicentro desse movimento encontrava-se a The Bothy Band. Formada em Dublin, em meados de 1974, e inicialmente batizada de Seachtar (“Sete”, em gaélico), a banda desempenhou um papel que transcendeu a mera execução musical. O próprio nome adotado posteriormente, uma referência aos bothies (abrigos rústicos de trabalhadores sazonais), sinalizava uma intencionalidade clara: conferir uma nova roupagem estética e técnica às raízes rurais e subalternizadas da ilha (O’SHEA, 2008).
Através da reinterpretação de temas ancestrais com arranjos modernos, fundindo o gaélico à virtuosidade de instrumentos como a gaita de fole irlandesa (uilleann pipes), o grupo converteu a tradição em um artefato dinâmico. Essa práxis musical, contudo, não se limitou à esfera do entretenimento; ela atuou como um vetor de construção identitária no sistema internacional. Sob a lente do Construtivismo nas Relações Internacionais, compreende-se que as estruturas globais são formadas não apenas por capacidades materiais, mas fundamentalmente por ideias, normas e identidades compartilhadas (WENDT, 1992). A identidade de um Estado molda seus interesses e, consequentemente, sua projeção externa.
Nesse sentido, a Bothy Band operou como um agente normativo não-estatal. Historicamente, a identidade irlandesa sofria com estigmas pejorativos impostos pela hegemonia colonial britânica, frequentemente associada ao atraso periférico. A excelência técnica presente em álbuns como Old Hag You Have Killed Me (1976) promoveu uma ruptura intersubjetiva dessa percepção (VALLELY, 2011). O grupo ajudou a redefinir “o que os Estados fazem de si mesmos” (WENDT, 1992, p. 395), substituindo o arquétipo da submissão por uma identidade vinculada à sofisticação e à vanguarda cultural. A música tornou-se, assim, um ato de resistência descolonial e de afirmação soberana.
Essa projeção de uma nova identidade nacional através da arte é a materialização do Soft Power, conceito delineado por Nye (2004) como a capacidade de um ator internacional obter os resultados desejados não por coerção ou pagamento, mas por atração e cooptação. A cultura torna-se um ativo estratégico de poder quando seus valores universalizam-se e atraem o outro. Isso é audível e observável no impacto de faixas como a suíte instrumental “The Kesh Jig”. A precisão e a energia com que a Bothy Band executou essa obra elevaram a música de taberna ao status de produto cultural de exportação em escala global.
A atração gerada por essa excelência musical não necessitou do poder bélico ou da dependência do aparato coercitivo do Estado para se impor no cenário global. Ao exportar sua musicalidade autêntica, a Irlanda pavimentou o caminho para que fenômenos como o Dia de São Patrício deixassem de ser meras festividades locais para se tornarem efemérides transnacionais de alto impacto diplomático e econômico (NYE, 2004). O retorno triunfal da banda em 2024, no festival Celtic Connections na Escócia, e o reconhecimento de seu legado atestam que a cultura popular, quando mobilizada com maestria, é capaz de reescrever as dinâmicas de prestígio de uma nação no anárquico, porém socialmente construído, sistema internacional.
Referências
NYE, Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. Nova York: Public Affairs, 2004.
O’SHEA, Helen. The making of Irish traditional music. Cork: Cork University Press, 2008.
VALLELY, Fintan. The companion to Irish traditional music. Cork: Cork University Press, 2011.
WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391-425, 1992.
