
Helena Ribeiro Feio – 5º semestre
A água, historicamente compreendida como um recurso abundante e de livre acesso, tem sido progressivamente ressignificada no sistema internacional como um ativo estratégico central à manutenção do poder. Em um contexto marcado pelo agravamento das mudanças climáticas, pela intensificação da urbanização e pelo aumento exponencial da demanda global, os recursos hídricos deixam de ocupar um papel periférico e passam a estruturar disputas geopolíticas cada vez mais complexas. Mais do que um elemento natural, a água se consolida como instrumento de poder, capaz de influenciar decisões estatais, reconfigurar alianças e aprofundar desigualdades.
Entretanto, reduzir os conflitos hídricos à lógica da escassez física constitui uma leitura limitada. A chamada “crise da água” não se explica apenas pela falta do recurso, mas, sobretudo, pela forma como ele é controlado, distribuído e apropriado. Nesse sentido, a questão central deixa de ser “quanto há de água” e passa a ser “quem tem acesso à água e sob quais condições”. Trata-se, portanto, de uma problemática profundamente política, inserida em estruturas históricas de desigualdade e dominação.
É nesse ponto que a teoria crítica das Relações Internacionais se apresenta como um instrumento analítico fundamental. Diferentemente das abordagens tradicionais, que tendem a naturalizar a ordem internacional, a teoria crítica busca desvelar as estruturas de poder que a sustentam. Como afirma Robert Cox (1981), um dos autores expoentes das teorias críticas de Relações Internacionais, “toda teoria é sempre para alguém e para algum propósito”, evidenciando que nenhuma interpretação é neutra. Assim, compreender a geopolítica da água exige reconhecer que os discursos sobre escassez, segurança hídrica e gestão de recursos são também construções políticas, atravessadas por interesses específicos.
A partir dessa perspectiva, os conflitos por recursos hídricos deixam de ser vistos apenas como disputas entre Estados soberanos e passam a ser interpretados como expressões de uma ordem internacional desigual. O conceito de hidro-hegemonia, desenvolvido por Zeitoun e Warner (2006), contribui significativamente para essa análise ao demonstrar como atores mais poderosos conseguem exercer controle sobre bacias hidrográficas compartilhadas, impondo suas agendas e limitando a autonomia de outros Estados. Nesse cenário, a água torna-se não apenas um recurso, mas um mecanismo de dominação.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa dinâmica é a disputa em torno da bacia do Rio Nilo. A construção da Grande Barragem do Renascimento pela Etiópia intensificou tensões históricas com Egito e Sudão (CNN BRASIL, 2023), evidenciando como o controle de fluxos hídricos pode ser interpretado como questão de segurança nacional. O Egito, altamente dependente do Nilo para seu abastecimento, enxerga a barragem como uma ameaça direta à sua estabilidade, o que demonstra como a água pode assumir um caráter estratégico comparável a recursos energéticos ou territoriais (CNN BRASIL, 2023).
Contudo, a geopolítica da água não se restringe às disputas interestatais. Em escala interna, a crescente mercantilização dos recursos hídricos revela outra dimensão crítica do problema. A transformação da água em mercadoria, frequentemente associada a processos de privatização, tem aprofundado desigualdades sociais, sobretudo em contextos urbanos periféricos. O acesso à água, nesse sentido, deixa de ser um direito universal e passa a depender da capacidade de pagamento, reforçando mecanismos de exclusão.
No Brasil, e particularmente na região amazônica, essa contradição se manifesta de forma contundente. Apesar da abundância hídrica, comunidades ribeirinhas e indígenas enfrentam cotidianamente dificuldades de acesso à água potável e ao saneamento básico (O GLOBO, 2024). Essa realidade evidencia que a escassez, muitas vezes, é socialmente produzida, resultado de falhas estruturais na governança e na distribuição dos recursos. Assim, a Amazônia, frequentemente associada à ideia de riqueza hídrica, também se insere nas dinâmicas globais de desigualdade.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a água ocupa um lugar central nas disputas contemporâneas por poder. Mais do que um recurso natural, ela se configura como elemento estratégico que reflete e reproduz as assimetrias do sistema internacional. A teoria crítica, ao deslocar o foco da escassez para a desigualdade, permite compreender que os conflitos hídricos são, em essência, conflitos políticos, nos quais estão em jogo interesses, hierarquias e formas de dominação.
Por fim, pensar alternativas para esses conflitos exige ir além de soluções técnicas ou meramente gerenciais. A construção de uma governança hídrica mais justa passa necessariamente pela incorporação de princípios de equidade, justiça social e participação das populações afetadas. Em um mundo cada vez mais marcado pela centralidade da água, enfrentar esses desafios implica, antes de tudo, repensar as estruturas que definem quem tem direito a esse recurso fundamental.
Referências:
COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium, 1981.
ZEITOUN, Mark; WARNER, Jeroen. Hydro-hegemony: a framework for analysis of transboundary water conflicts. Water Policy, 2006.
CNN BRASIL. Entenda a disputa entre Egito, Etiópia e Sudão pela barragem do Nilo. 2023.
O GLOBO. Comunidades da Amazônia sofrem com falta de água. 2024. BRASIL 247. Concessões de água e esgoto geram aumento de tarifas e excluem periferias. 2025.
