Amanda Olegário – 3º semestre
A história do continente americano, especialmente a dos povos indígenas que habitavam essa região, se inicia milênios antes da chegada dos europeus por volta do ano 35.000 AEC (Antes da Era Comum), quando possivelmente o homem adentrou no continente através do Estreito de Bering. Durante um certo período, o território americano foi habitado unicamente por grupos coletores e caçadores, e à medida que desenvolviam técnicas agrícolas e se expandiam para outras áreas, esses povos alcançaram uma densidade populacional e complexidade social, econômica, política, cultural e religiosa, se diferenciando a partir de características étnicas e linguísticas peculiares.
Do mesmo modo, há de se mencionar as redes de trocas nas organizações socioeconômicas, políticas e religiosas entre esses povos, tanto aqueles que abrangem as regiões mesoamericana e andina quanto a amazônica, criando interconexões favoráveis à transformação e pluralidade cultural, comercial e política dessas comunidades, como ocorreu com os olmecas os quais possibilitaram a formação dos principais povos mesoamericanos, os maias e os astecas, com os indígenas da região caribenha, com os povos andinos como os incas e com os habitantes da região do Marajó e Tapajó.
Ao considerarmos a riqueza do passado dos povos indígenas pré-colombianos, podemos mencionar a presença de grandes impérios e conglomerados populacionais maiores que qualquer cidade europeia, como o Império Inca no Peru, ultrapassando qualquer império europeu ou oriental contemporâneo e possuindo construções monumentais, pirâmides e monumentos imponentes, sistemas avançados de irrigação, agricultura desenvolvida, obras de terraplenagem, canais, diques e reservatórios. Em termos de tecnologia, os incas estavam em pé de igualdade ou até mesmo superavam a Europa daquela época.
No ano 1.000 EC (Era Comum), a cidade de Tiwanaku, localizada no Beni, próximo à fronteira entre Peru e Bolívia, abrigava uma população estimada em 115 mil pessoas, com mais 250 mil vivendo nas áreas circundantes. Essa população era maior do que a de Paris, a maior metrópole europeia da época, que só alcançaria essa cifra cerca de 500 anos depois.
Na América do Norte, os impérios Maia e Asteca, a confederação Wampanoag e a cidade de Tenochtitlán (México) são exemplos da grandeza da América pré-colombiana. Essas sociedades demonstravam um elevado nível de desenvolvimento, com sistemas complexos de organização política, avanços arquitetônicos e realizações culturais que rivalizavam com as maiores civilizações do mundo naquela época.
A partir dessa análise, podemos estabelecer uma conexão entre a história de tais povos com a teoria pós-colonial do campo das Relações Internacionais, uma vez que esse conceito enfoca as consequências duradouras do colonialismo e a relação entre os países colonizadores e colonizados, buscando desafiar as estruturas de poder desiguais e observar as formas pelas quais o colonialismo moldou as relações internacionais, se utilizando de um modelo de classificação social através da ideia de raça como instrumento de dominação, o que para o autor Aníbal Quijano (2005) pode ser chamado de “colonialidade”.
Nesse contexto, a história dos povos pré-colombianos fornece um forte exemplo de como as relações entre diferentes comunidades e impérios foram moldadas antes da chegada dos colonizadores europeus, desmitificando o pensamento de que os povos originários desses territórios iniciaram sua história a partir da chegada dos colonizadores ou que eram sociedades atrasadas, criando assim uma contranarrativa que desafia os discursos de representação e poder vinculados ao eurocentrismo, além da formação de uma resistência que reconhece a longínqua opressão e dominação desses povos e luta pela libertação da subjugação colonial e pela recuperação de suas culturas e identidades as quais foram reprimidas e dizimadas.
Com dificuldade, os indígenas conseguiram que suas vozes fossem ouvidas, ainda que de forma limitada e com uma perspectiva predominantemente individualista, quando seus direitos à terra foram reconhecidos na Constituição Brasileira de 1937, e posteriormente em 1948 foi estabelecido internacionalmente o reconhecimento cultural e étnico dos povos indígenas por meio do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, um documento complementar à Carta da ONU. Somente em 1988, a Constituição Brasileira, a primeira da América Latina nesse aspecto, reconheceu a cultura dos povos indígenas e seus direitos em relação à sua organização social, costumes, crenças e tradições, assim como seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
Ao longo dos anos, surgiram outras mudanças constitucionais realizadas pelos países latino-americanos na década de 90, como a Convenção nº. 169 da Organização Internacional do Trabalho, que se concentra especificamente nos direitos dos povos indígenas, a Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio de 1948, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial de 1965 e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007.
Em suma, a história dos povos indígenas pré-colombianos revela a grandeza e a complexidade de suas civilizações, desafiando a narrativa eurocêntrica que desconsiderava sua existência e importância. A partir da contribuição da teoria pós-colonial e da luta por seus direitos ao longo dos anos, essas comunidades têm ganhado espaço e voz no âmbito internacional, mas estão longe de se desenlaçarem plenamente das limitações impostas pela colonialidade do poder exprimidas pelos colonizadores desde os séculos XV e XVI. Por essa razão, a resistência deve servir como grande aliada pela recuperação de suas culturas e identidades, e pela garantia e consolidação dos direitos que lhes foram assegurados.
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Parabéns Amanda! Seu texto é excelente!!
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