Brenna da Silva Dias 

acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Uma das personalidades mais importantes quando se trata de estudos de gêneros no Brasil, Lélia Gonzalez foi uma estudiosa, ativista e feminista brasileira, formada em sociologia, Lélia foi pioneira em trabalhos que demonstrasse uma compreensão mais profunda das experiências das mulheres negras na sociedade brasileira.

Nascida em Belo Horizonte em 01/02/1935, Lélia de Almeida é filha de pai negro e ferroviário, e mãe indígena e empregada doméstica, e teve 17 irmão, entre eles o futebolista Jayme Almeida. Lélia teve uma infância humilde, após a morte de seu pai ela mudou-se junto a família para o Rio de Janeiro. Diferente de seus demais familiares, ela batalhou e foi adiante na sua vida educacional, em 1954 concluiu seus estudos básicos na tradicional instituição carioca Colégio Pedro II, uma instituição frequentada predominantemente pelas elites do Rio. Apesar de seus estudos, Lélia precisou trabalhar bem cedo, seu primeiro emprego foi de babá. Ano depois obteve diplomas em História, Geografia e Filosofia pela UERJ. Ela lecionou filosofia em escolas secundárias e se tornou professora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro e na Pontifícia Universidade Católica (PUC), destacando-se por sua atuação no ensino superior carioca, tanto em instituições públicas quanto privadas. (Ebiografia, 2023)

Ainda na faculdade, Lelia conheceu seu marido Luiz Carlos Gonzalez, de quem recebeu o sobrenome. De família europeia, a família de Luiz não a aceitava e isso, depois de anos foi um dos pontos de análise feita pela autora sobre o papel da mulher negra na sociedade brasileira. A ativista declarou à uma agência de notícias dos Estados Unidos

 “No Brasil é aceitável que um homem branco tenha um caso com uma mulher negra, mas casamento é outro assunto. Quando eles descobriram que nos casamos, ficaram furiosos. Me chamaram de preta suja. Era isso que eu tinha me tornado aos olhos deles, apesar da minha educação, apesar da minha posição.” 

(LÉLIA, 2022)

 Como ativista, Lélia Gonzalez desempenhou um papel fundamental na resistência ao Regime Militar no Brasil e foi alvo de vigilância pelo DOPS. Ela foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, participou da formação do Partido dos Trabalhadores (PT) e esteve envolvida nas eleições de 1982 e 1986, quando estava no PDT. Lélia também se destacou em mobilizações contra o apartheid na África do Sul, fundou o coletivo Nzinga em 1983 e participou de encontros feministas e de mulheres negras em todo o mundo. Ela desempenhou um papel ativo na Constituinte, colaborando com comissões parlamentares de 1986 a 1988, e integrou o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) em 1985. Além disso, também participou de protestos e mobilizações de rua para denunciar as desigualdades raciais e de gênero. (UNICAMP, 2023)

A produção intelectual de Lélia Gonzalez abrange diversas áreas. Inicialmente, ela se dedicou à tradução de obras filosóficas. Graças à sua familiaridade com a língua francesa, em 1968, realizou a tradução para o português do II Volume da coletânea “Compêndio Moderno de Filosofia”. Durante as décadas de 1950 e 1960, ela organizou em sua residência grupos de estudo para discutir várias obras, incluindo “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir.

Ao longo de sua trajetória, Lélia escreveu inúmeros ensaios influentes, como por exemplo Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira (1983), A mulher negra no Brasil (1984), Por um Feminismo Afro-latino-Americano (1988), A categoria político-cultural de amefricanidade (1988). O livro assinado pela autora, Festas Populares no Brasil (1987) foi premiado na Alemanha.(UNICAMP, 2023)

Apesar de inspirar-se nos movimentos negros que despontavam nos EUA, Gonzalez esteve atenta às especificidades da América Latina. Por isso cunhou termo Amefricanidade, para se referir à questão dos negros e negras em solo latinoamericano. 

É possivel relacionar a autora Lélia Gonzalez a Teoria Feminista das Relações Internacionais. Teoria esta que apresenta, como núcleo de estudos, questões relacionadas à identidade, como por exemplo, cultura, raça e gênero. Apresentando, um viés que estuda o cenário político internacional por intermédio da análise dos indivíduos, utilizando-se de casos empíricos ao buscar uma maior visibilidade às questões de gênero e a vida das mulheres (VIANA, 2016).

Lélia faleceu em 10 de julho de 1994, e suas obras ainda são referências em estudos feministas antirracistas, dentro e fora do Brasil. Em 2019, durante a passagem de Angela Davis no Brasil, a escritora reforçou a importância de González para os estudos de gênero. 

REFERENCIAS

AIDAR, L. Lélia Gonzalez. EBIOGRAFIA Disponível em: <https://www.ebiografia.com/lelia_gonzalez/&gt;. Acesso em: 14 out. 2023.

LÉLIA Gonzalez e o conceito de amefricanidade, MULHERES DE LUTA, 2022. Disponível em: <https://www.mulheresdeluta.com.br/lelia-gonzalez-e-o-conceito-de-amefricanidade/&gt;. Acesso em: 17 out. 2023.

Lélia Gonzalez – Mulheres na Filosofia. UNICAMP Disponível em: <https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/lelia-gonzalez/&gt;. Acesso em: 16 out. 2023

VIANA, R. Raça, gênero e classe na perspectiva de Bell Hooks. Sociedade e Cultura, Goiânia, v. 24, 2021. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/fcs/article/view/66604/> . Acesso em: 15 out. 2023.