Rebecca Brito, Thais Borges e Lana Borges – acadêmicas do 7° semestre de Relações Internacionais da Unama

Diante ao desenvolvimento do sistema internacional capitalista neoliberal e a intensificação da globalização, os progressos da tecnologia e em especial os avanços dos meios de comunicação, nota-se o papel cada vez mais preponderante da comunicação midiática na propagação de notícias para sociedade civil, seu poder intervém desde a influência em relações sociais à construção de agendas e opiniões públicas. Nesse ínterim, observa-se que a mídia como agente do sistema internacional exerce importante influência no que concerne ao conhecimento social, o que cabe mencionar que o modo como são selecionadas, produzidas e transmitidas essas informações ocorre sob diferentes perspectivas sobre um mesmo fato e tal circunstância, varia de acordo com os interesses e estratégias de comunicação postas em jogo.

Eventualmente, é no ramo midiático de comunicação tradicional, isto é aquele pautado por grandes monopólios, que se encontram as narrativas hegemônicas, haja vista que conforme explica Moraes, Ramonet e Serrano (2013, p.19) são esses megagrupos que “detêm a propriedade dos meios de produção, a infraestrutura tecnológica e as bases logísticas […]”. Assim sendo, tem o poder de concentrar monopolisticamente os acontecimentos e informações com base em seus recursos técnicos, em seus interesses ideológicos e sobretudo comerciais, constroem uma percepção da realidade atrelada a preceitos excludentes, que demonstram apenas um lado da história, em favor do atendimento de interesses do poder dominante.

Outrossim, em oposição a essa dinâmica midiática, a mídia alternativa surge como um viés de “[…] alternativa às políticas, prioridades e perspectivas hegemônicas.” (Downing, 2002, p.21, apud Souza, 2006, p.3). Desse modo, visa pluralizar vozes, temas e perspectivas silenciadas (Mazetti, 2007), o que constitui um importante papel social, que fornece dentro da comunicação maior democratização da informação, seja no seu acesso ou na não distorção dos fatos, reagindo e resistindo aos interesses da política preponderante,  visto que atua através do modelo de contrainformação que conforme explica Flusser (1989:160, apud Mazetti, 2007, p.4) objetiva além de ser uma “[…] informação contrária à veiculada por um sistema; ela seria a comunicação da notícia censurada pelo poder, …, um novo ato cultural.”

Visando a análise dos discursos dentro da esfera de segurança – os atos de fala de líderes políticos, altas autoridades, empresas privadas e agências de inteligência, Ole Waver e Barry Buzan da Escola de Copenhague introduzem a questão da securitização, o processo no qual uma pauta se torna elemento de (in)segurança. Com isto, a linguagem possui forte importância nesta esfera pelo poder de tornar uma pauta em uma ameaça ou objeto alvo de uma ameaça. As definições de segurança ocorrem pelo meio discursivo, através de representações e elementos linguísticos, essa linguagem de segurança pode criar um cenário diferente sobre um problema social ou fonte que gera insegurança (FRIZZERA, 2013).

Ocasionalmente, o Jornal Cable News Networking (CNN) se enquadra na perspectiva hegemônica, visto que faz parte do gigante corporativo de entretenimento multinacional de mídia, chamado, Warner Bros. Discovery, inc., e entre a mídia alternativa, o Jornal A Verdade (JAV) traz um viés contra hegemônico, sendo um veículo de informação popular, que surgiu de movimentos sociais dos trabalhadores na luta pelo socialismo. Ambos os jornais noticiaram o conflito Israel e Palestina retomado em 2023, todavia expuseram de modo completamente divergente, seja na escolha de palavras ou na perspectiva escolhida. Nas notícias, a CNN ressalta que o ataque foi feito em uma data considerada sagrada para os Judeus, as quantificações de feridos e mortos pelo ataque do grupo Hamas, os reféns e prisioneiros e, até mesmo, o sentimento que os soldados israelenses tiveram ao ver um militante do Hamas. Além disso, o jornal repercutiu discursos que deslegitimam a luta dos Palestinos, como a fala do Senador Rodrigo Pacheco e do Deputado Arthur Lira, que afirmou que o ataque é “inaceitável”, e que a guerra não é a solução (CNN,2023). Além disso, também trouxe falas de Benjamin Netanyahu e Joe Biden, que sustentam uma narrativa de direito de defesa de Israel, justificando todas as atitudes deste país na ideia de fazer o que for necessário para encontrar os terroristas e eliminá-los.

Na contramão deste movimento, o JAV já vinha fazendo denúncias em relação aos abusos cometidos pelo governo Israelense para com o povo palestino desde 2014, sempre relembrando e mostrando a situação permanente de medo e guerra em que se encontravam as pessoas na faixa de Gaza e Cisjordânia. O jornal usa as palavras “terrorista” e “genocida” para se referir ao estado de Israel, além de ressaltar as violações de direitos humanos cometidas por eles durante este período, com a privação de energia, comida, água limpa e remédio, o assassinato de crianças e o bombardeio de hospitais. Além disso, percebemos os jornais da mídia tradicional, em especial a CNN, ressaltando que uma média de 2000 israelenses foram mortos neste período. O JAV traz uma comparação de perdas em perspectiva histórica até a data da publicação da matéria (18/10/2023): 2.600 israelenses contra 13.000 palestinos nos últimos 23 anos. Além disso, o JAV dá destaque para notícias sobre a resistência e luta popular no mundo inteiro, que tem exigido o cessar fogo e levantado a bandeira da Palestina Livre, uma luta histórica que recentemente ganhou proporções gigantescas e mobilizou milhares de pessoas nas principais capitais do mundo inteiro a favor do povo palestino e contra os atos de Israel. Neste mesmo âmbito, a CNN noticiou apenas a proibição e a repressão estatal que tem sido feita contra estes atos.

É perceptível que cada uma das duas mídias apresentadas tem objetivos diferentes com as notícias que são veiculadas em seus portais, redes sociais e impressos. De primeira, podemos perceber como a CNN tem uma abordagem voltada para a perspectiva ocidental israelense dos fatos, buscando sensibilizar a opinião pública para a causa judaica, colocando o Hamas e, de maneira implícita os Palestinos, como terroristas, ameaças à segurança e bem-estar de seu povo. Dessa maneira, como colocam Waver e Buzan, eles influenciam a percepção geral da sociedade para ver os palestinos não como seres humanos sujeitos de direitos, mas como elementos de insegurança, narrativa que foi repercutida pelo jornal através das falas dos principais líderes políticos envolvidos na guerra: Netanyahu e Biden.

Por fim, destaca-se que, as mídias hegemônicas e alternativas constroem seus discursos para se posicionar acerca de um acontecimento objetivando com isso, defender certa perspectiva e interesses. O conflito entre Israel e Palestina de 2023, é emblemático devido à alta cobertura dos meios de comunicação sobre os acontecimentos, tornando assim evidente essas dissonâncias narrativas. Mas para além disso, notícia para o mundo, para o público em geral, as violências sofridas pelos civis. A imprensa é o canal de denúncia, apresentação de fatos, exposição do que é desconfortável, que traz à tona aquilo que está oculto ou em silenciamento; com a análise dessas duas mídias, pode-se afirmar que a depender dos interesses destas, essa “verdade” não será a mesma.

Referências:

BARKAWI, Tarak; LAFFEY, Mark. The postcolonial moment in security studies. Review of International Studies, v. 32, n. 2, p. 329-352, 2006

FRIZZERA, Guilherme. Análise de discurso como ferramenta fundamental dos estudos de Segurança–Uma abordagem Construtivista. Conjuntura Global, v. 2, n. 2, 2013.

DE MORAES, Dênis; RAMONET, Ignacio; SERRANO, Pascual. Mídia, poder e contrapoder: Da concentração monopólica à democratização da comunicação. Boitempo Editorial, 2013.

DE SOUZA, Rafael Bellan Rodrigues. Mídias, movimentos sociais e contra-hegemonia: Subversão informacional na comunicação radical alternativa.

MAZETTI, Henrique. Mídia alternativa para além da contra-informação. In: V CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO-INTERCOM. Anais… São Paulo. 2007.

“Nada justifica a violência”, diz Pacheco sobre ataques à Israel. CNN, 07 de outubro de 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/nada-justifica-a-violencia-diz-pacheco-sobre-ataques-a-israel/ https://averdade.org.br/capa-jornal-a-verdade-ed-164/