Maysa Lisboa – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama

Historicamente, as Relações Internacionais foram dominadas por uma perspectiva predominantemente masculina, tanto na formulação de teorias quanto na tomada de decisões. Este viés masculino não apenas influenciou a estruturação das instituições mundiais, mas também moldou as normas e práticas internacionais, impactando de maneira desigual homens e mulheres, destacando a necessidade da conscientização ao abordar questões de gênero, análises das dinâmicas globais, conflitos e relações entre Estados é fundamental para uma compreensão equitativa das interações internacionais.

   Essas dinâmicas complexas são permeadas por anos de movimentos históricos, como o feminismo, o machismo e o movimento de gêneros LGBTQIA+, transcendendo a dicotomia biológica tradicional de “homem” e “mulher”. Além disso, a visão tradicional patriarcalista não apenas oprime, mas também cria divisões entre as minorias dentro dos grupos sociais, como o racismo e a homofobia, em que mulheres negras enfrentam frequentemente a marginalização pela sociedade, enquanto as mulheres brancas podem ser poupadas dessas preocupações, e como mulheres trans muitas vezes sofrem transfobia dentro do movimento feminista por seguidoras radicais. (UNIVERSAUOL, 2019)

  Numa sociedade enraizada no patriarcalismo, as relações de poder são evidentes em diversas culturas ao redor do mundo, onde os homens são frequentemente percebidos como provedores mais fortes e inteligentes, e essa visão limitante impõe expectativas rígidas sobre “o papel das mulheres”, delegando-as a responsabilidade do cuidado da casa, filhos e do cônjuge, sob uma perspectiva de submissão e silenciamento. Contudo quando a mulher consegue romper esse paradoxo enfrenta a desigualdade salarial, recebendo menos apenas por seu gênero e ter a chance de gerar despesas para a empresa, por se ausentar no período gestacional. A inversão desses papéis é estigmatizada, resultando na masculinização da figura feminina e as mulheres que não atendem às expectativas do papel feminino podem sofrer agressões domésticas ou feminicídios, crime esse que teve os maiores índices no período de confinamento do COVID, de acordo com a matéria da violência contra as mulheres em dados, o feminicídio no 1° semestre de 2020, no Brasil teve um aumento de 22,2% comparados com o mesmo período do ano anterior no país.

  Essas estruturas podem ser ainda mais radicais em algumas sociedades, manifestando-se em formas de religião local ou impostas por processos colonizadores. Por exemplo, nos antigos reinos da Mesopotâmia, o Código de Hamurabi prevista em lei a concessão de autoridade aos homens e restrições às mulheres. Em países islâmicos como o Irã e a Arábia, as mulheres frequentemente enfrentam a negação de direitos de propriedade, enquanto os homens detêm poder sobre a vida e a morte de suas esposas e filhas (BRASIL PARALELO, 2023).

  Ao explorar as três ondas da teoria feminista nas Relações Internacionais, emergem insights sobre o movimento de legitimação das mulheres, pretendendo garantir o direito de coexistir com os homens em sociedade e não somente estar presente nela como uma engrenagem para o poder patriarcal continuar se perpetuando. Simone de Beauvoir, por meio de sua obra “O Segundo Sexo”, transcende barreiras ao lançar críticas profundas à ideia limitada de que as mulheres são essencialmente definidas por sua biologia, enfatiza a busca pela autonomia e questionando o que é considerado tradicionalmente “masculino” e “feminino” na sociedade contemporânea.

  Ao longo das três ondas do feminismo, observa-se uma evolução marcante nas preocupações e nas estratégias adotadas. A primeira onda concentrou-se nas demandas por direitos legais básicos, como o direito ao voto. A segunda onda ampliou o escopo para questões como igualdade salarial e direitos reprodutivos. Já a terceira onda, mais recente, destaca a diversidade de experiências femininas, abraçando a interseccionalidade e reconhecendo as diferentes lutas enfrentadas por mulheres de diversas origens Segundo a Enciclopédia Mulheres na Filosofia e as ondas do feminismo.

  Essas ondas demonstram uma narrativa contínua de resistência contra a opressão patriarcal. A busca pela autonomia, proposta por Beauvoir, permanece como uma força motriz nessas lutas, desafiando e redefinindo constantemente o papel das mulheres na sociedade global, como ao encerra a sua obra “O Segundo Sexo” deixa seu questionamento – “Na bôca do homem o epíteto “fêmea” soa como um insulto; no entanto, êle mesmo não se envergonha da sua animalidade, sente-se antes orgulhoso se lhe chamam “macho”. Por que O SEGUNDO SEXO parece desprezível ao homem? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher e quais pode ela superar sem se trair? Como pode então realizar-se um ser humano dentro da condição feminina?”.(Beauvoir, 1970, p.309)

Referências:

PASSOS, Rodrigo Duarte Fernandes dos. Mulheres e Gênero nas Relações Internacionais: Para Além das ‘Prisões Cotidianas’ e Epistemológicas. Revista de Informação e Pesquisa em Políticas Públicas, Marília, 2017.

Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/RIPPMAR/article/view/7389/4677. Acesso em: 05 de março de 2024.

MENDES, Marina Macêdo. Gênero e Relações Internacionais: A inserção da mulher na esfera política e na carreira diplomática brasileira. Brasília, 2011. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/1997/1/2011_MarinaMacedoMendes.pdf. Acesso em: 05 de março de 2024.

WALBY, Sylvia. Theorising Patriarchy. Blackwell, 1990. Disponível em: https://openaccess.city.ac.uk/id/eprint/21680/1/1990_Walby_Theorising_Patriarchy_book_Blackwell.pdf. Acesso em: 05 de março de 2024.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. DIFEL, 1970. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3959829/mod_resource/content/1/Beauvoir.O_segundo_sexo-DIFEL.pdf. Acesso em: 06 de março de 2024.

BRASIL PARALELO. O que é patriarcado?, 2023. Disponível em: https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/o-que-e-patriarcado#:~:text=A%20origem%20do%20patriarcado%20remete,e%20priva%C3%A7%C3%B5es%20para%20as%20mulheres. Acesso em: 06 de março de 2024.

GRATÃO, Paulo. Por que as feministas radicais não aceitam mulheres trans no movimento? Universa, UOL, 2019. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/03/28/por-que-as-feministas-radicais-nao-reconhecem-mulheres-trans.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 06 de março de 2024.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (MRE). Mulheres, Paz e Segurança. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/delbrasonu/paz-e-seguranca-internacional/mulheres-paz-e-seguranca. Acesso em: 06 de março de 2024.

ANÔNIMO. Feminicídios na pandemia: quatro mulheres são mortas a cada 24 horas. Disponível em: https://dossies.agenciapatriciagalvao.org.br/violencia-em-dados/feminicidios-na-pandemia-quatro-mulheres-sao-mortas-a-cada-24-horas/. Acesso em: 07 de março de 2024.

ZIRBEL, Ilze. Ondas do Feminismo. Disponível em: https://www.blogs.unicamp.br/mulheresnafilosofia/ondas-do-feminismo/. Acesso em: 07 de março de 2024.