
Julia Castro, acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais
Ficha técnica:
Ano: 1992
Direção: Sally Potter
Distribuição: Sony Pictures
Gênero: Drama, Romance, Histórico
Países de Origem: Reino Unido, França, Itália, Países Baixos e Rússia
Baseado no romance homônimo de Virginia Woolf, a adaptação cinematográfica mostra a trajetória de Orlando, um jovem nobre inglês que após ser condenado a viver para sempre, atravessa quatro séculos experimentando mudanças de gênero, sentimentos e descobertas (ADOROCINEMA, 2024). Através de uma narrativa épica e poética, a obra explora temas de identidade, gênero e imortalidade.
O filme inicia mostrando Orlando, um aristocrata andrógino, em busca pelo amor, pela poesia e por um sentido para a vida, na Inglaterra no final do século XVI. Em 1600, a Rainha Elizabeth I, em seu leito de morte, presenteia Orlando com a imortalidade. No século XVII, Orlando se envolve com Sasha, filha de um diplomata russo, mas ela o trai com um marinheiro, deixando Orlando em profunda crise existencial por décadas. Após isso, ele se dedica a literatura e tenta ter a sua poesia validada por poetas famosos, mas acaba sendo ridicularizado por eles. Em 1700, ele viaja como Embaixador do Império Britânico para ajudar o Império Otomano na guerra, mas fica inconsciente após presenciar um conflito.
Dias depois, Orlando acorda e descobre que se transformou em uma mulher, continuando sua vida no corpo feminino sem envelhecer. Como mulher, Orlando enfrenta novas dificuldades e restrições impostas pela sociedade, mas também descobre novas perspectivas sobre a vida e o amor. Através de diversas encarnações, ela testemunha guerras, romances e revoluções, observando e participando das mudanças sociais e culturais da Inglaterra ao longo dos séculos. Ao chegar ao século XX, Orlando finalmente encontra um equilíbrio e uma compreensão mais profunda de si mesma e de sua identidade.
Com uma abordagem inovadora sobre questões de gênero e identidade, o longa-metragem se relaciona perfeitamente com a Teoria Queer das Relações Internacionais, que questiona as categorias fixas de gênero e enfatiza a possibilidade de transformações sociais. No livro “Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity” (1990), a autora Judith Butler argumenta que a maneira como entendemos e interpretamos os sexos é mediada por discursos e práticas sociais. O corpo é um site onde as normas de gênero são inscritas e reguladas (BUTLER, 1990). O filme percorre diferentes períodos históricos, mostrando como as normas sociais e de gênero evoluem.
No mesmo livro, Butler analisa como as normas de gênero são mantidas e reforçadas por relações de poder, principalmente entre homens e mulheres. A conformidade a essas normas é reforçada por mecanismos de poder que incluem práticas culturais e linguagens. (BUTLER, 1990). Na primeira metade do filme, Orlando reproduz diversas atitudes machistas, culpando todas as mulheres após ser traído. Anos mais tarde, já no corpo de mulher, Orlando se encontra com poetas famosos e fica horrorizada com a forma que é tratada por eles. Ela percebe que os homens maltratam mulheres, como ela fazia quando era homem. Isso ilustra como as oportunidades de Orlando mudam radicalmente ao se tornar mulher, expondo as limitações e as expectativas impostas pela sociedade sobre gênero.
De forma sentimental e fantasiosa, “Orlando” explora vários temas presentes na teoria queer das Relações Internacionais, mostrando uma reflexão sobre a natureza do tempo, identidade e liberdade. A jornada de Orlando serve como uma metáfora poderosa para a construção social das identidades, destacando a importância de questionar e transformar as normas estabelecidas tanto nas esferas sociais quanto internacionais.
REFERÊNCIAS:
ADOROCINEMA. Orlando: A Mulher Imortal (1992). 2024. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-5284/#:~:text=Sinopse,sentimentos%20e%20mudan%C3%A7as%20de%20g%C3%AAnero.
BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism And The Subversion Of Identity. New York, Routledge, Champman & Hall, 1990.
