
Alice Cardoso – acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais da Unama.
Primordialmente, se faz necessário entender quem são os Houthis, peça chave deste conflito. Os Houthis são um grupo político rebelde, da minoria muçulmana xiita do Iêmen, que controla a maior parte do território iemenita, incluindo a capital do país. O grupo foi criado em 1990 para combater a corrupção do então presidente do Iêmen. Em 2003, após a invasão do Iraque liderada pelos EUA, os Houthis adotaram o slogan “Deus é grande. Morte aos Estados Unidos. Morte a Israel. Maldição aos judeus e vitória para o Islã.” A partir daí o grupo se posiciona contra estes países. (BBC, 2023)
Os Houthis afirmaram o seu apoio ao Hamas em 7 de outubro de 2023, quando o grupo radical palestino lançou um ataque a Israel dando início ao mais recente capitulo do conflito entre Israel e Palestina. Daí em diante o grupo rebelde iemenita, que tem certo domínio sob o Mar Vermelho devido ao seu controle do Iêmen, passou a atacar vários navios com bandeira internacional que cruzassem pelo seu território em direção a Israel. (BBC, 2023)
Em novembro de 2023, rebeldes Houthis atacaram e capturaram no Mar Vermelho um navio israelense, que eles afirmaram ser um navio de carga, e o levaram para um local perto do litoral do Iêmen. Desde de 3 de dezembro de 2023, os Houthis fizeram uma série de ataques a navios mercantes no Mar Vermelho, com a utilização de drones e mísseis balísticos disparados da costa iemenita. Alguns destes projéteis conseguiram ser interceptados por navios de guerra dos EUA, Reino Unido e França, mas ainda sim diversos navios foram atingidos. (BBC, 2023) Militares estadunidenses afirmaram, em janeiro de 2024, que os Houthis, em seu 27º ataque, dispararam um míssil antinavio contra rotas marítimas internacionais no Golfo de Áden. Tal míssil teria então sido disparado pela primeira vez na história. (CNN, 2024)
Os ataques forçaram grandes empresas, como a petrolífera British Petroleum, e companhias marítimas a utilizar outras rotas comerciais para proteger seus navios e tripulações, no entanto estas rotas são muito mais longas, o que acaba por causar perturbação na logística do transporte marítimo internacional, além de aumentar o tempo de chegada e os custos da viagem. (BBC, 2023)
Em meio a estas ações dos rebeldes iemenitas, vieram as represálias dos Estados Unidos e do Reino Unido. No dia 11 de janeiro de 2024 os dois países, em conjunto, lançaram o primeiro de uma série de 5 ataques, até o presente momento, contra os rebeldes Houthis. Os alvos nesta primeira investida, segundo as duas potencias, incluíram centros logísticos, sistemas de defesa aérea e depósitos de armas que estavam de posse dos Houthis. De acordo com os EUA e o Reino Unido, os locais foram escolhidos por sua capacidade de enfraquecer os ataques contínuos dos rebeldes aos navios no Mar Vermelho. (CNN, 2024)
O presidente dos EUA, Joe Biden, se pronunciou dizendo que “os ataques são uma resposta direta aos ataques Houthis – incluindo a utilização de mísseis antinavio pela primeira vez na história.” (BBC, 2024) Já o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, disse que os ataques eram “limitados, necessários e proporcionais”, e encerrou alegando que o Reino Unidos sempre defenderá a navegação e o fluxo de comércios livres. (CNN, 2024)
A segunda investida dos países contra os rebeldes iemenitas foi apenas alguns dias após a primeira, em 24 de janeiro. Desta vez foram feitos ataques aéreos e tiveram oito locais como alvos, entre eles sistemas e lançadores de mísseis, sistema de defesa aérea, radares e instalações de armazenamento subterrâneos de armas. Este último, segundo os Estados Unidos, abrigava armamentos mais avançados do que o atingido no ataque inicial de 11 de janeiro. (ABC News, 2024)
O terceiro ataque ocorreu no início de fevereiro deste ano. Estima-se que 30 alvos foram atingidos em mais de 10 locais, segundo comunicados oficiais. (EURONEWS, 2024)
Em 25 de fevereiro houve o quarto ataque em conjunto das duas potências. Nesta ocasião, 18 instalações dos Houthis foram atingidas em oito pontos do Iêmen. (CNN, 2024)
Em 30 de maio ocorreu a quinta, e até então última, missão dos EUA e do Reino Unido em uma tentativa de parar os ataques feitos pelos Houthis contra os navios no mar vermelho. Os países bombardearam diversas localidades dos rebeldes, entre elas, a capital Saná. O Ministério da Defesa britânico informou, em um comunicado, que seus aviões, juntamente com os dos norte-americanos, bombardearam instalações militares dos Houthis. Entretanto, o veículo de comunicação, controlado pelos rebeldes, Al Masirah alegou que ocorreram ataques na cidade de Taez que teriam ferido e matado várias pessoas. (Jovem Pan, 2024)
O teórico John Mearsheimer e a sua teoria do realismo ofensivo, explicado em seu livro de 2001 “The Tragedy of Great Power Politics”, sugerem que os estados não apenas buscam garantir sua segurança, mas também procuram maximizar seu poder relativo em um sistema internacional anárquico. De acordo com Mearsheimer, os estados estão constantemente preocupados com sua segurança e, para isso, buscam aumentar sua influência e poder para se proteger contra possíveis ameaças. Na perspectiva dos ataques dos EUA e Reino Unido contra os Houthis, Mearsheimer alegaria que a segurança das rotas comerciais vitais, como as do Mar Vermelho, é crucial para os estados, já que estas são fundamentais para o comércio internacional, especialmente para o transporte de petróleo e outros bens essenciais. Seguindo a perspectiva realista do teórico, qualquer interrupção nessas rotas representa uma ameaça significativa à segurança econômica e, por extensão, à segurança nacional dos estados que dependem delas. (Mearsheimer, J. 2001)
Sendo assim, os ataques constantes realizados em parceria entre os Estados Unidos e o Reino Unido, em resposta aos ataques dos Houthis aos navios no Mar Vermelho seriam, na visão da teoria do realismo ofensivo de John Mearsheimer, não apenas uma questão econômica para garantir a segurança das rotas comerciais, mas também uma forma de assegurar a segurança nacionais destes países.
Referências:
ATAQUES a houthis no Iêmen: por que EUA e Reino Unido agiram contra rebeldes – BBC News Brasil. 12 jan. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c25yyd5zv4go#:~:text=Os%20EUA%20e%20o%20Reino,aérea%20e%20depósitos%20de%20armas. Acesso em: 5 jun. 2024.
EUA e Reino Unido bombardeiam posições dos rebeldes houthis no Iêmen – Jovem Pan. 30 maio 2024. Disponível em: https://jovempan.com.br/noticias/mundo/eua-e-reino-unido-bombardeiam-posicoes-dos-rebeldes-houthis-no-iemen.html. Acesso em: 5 jun. 2024.
EUA e Reino Unido realizam novo ataque contra Houthis no Iémen. 4 fev. 2024. Disponível em: https://pt.euronews.com/2024/02/04/estados-unidos-e-reino-unido-realizam-novo-ataque-contra-houthis-no-iemen. Acesso em: 5 jun. 2024.
EUA e Reino Unido realizam ataques contra Houthis no Iêmen | CNN Brasil. 11 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-e-reino-unido-realizam-ataques-contra-houthis-no-iemen/. Acesso em: 5 jun. 2024.
FORÇAS britânicas realizam novos ataques contra Houthis no Iêmen | CNN Brasil. 25 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/forcas-britanicas-realizam-novos-ataques-contra-houthis-no-iemen/. Acesso em: 5 jun. 2024.
IÊMEN: quem são os houthis, rebeldes alvo de ataques pelos EUA e Reino Unido – BBC News Brasil. 19 dez. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1vygp56gx5o. Acesso em: 5 jun. 2024.
MARTINEZ, Luiz; FLAHERTY, Anne. US, UK stage multiple airstrikes against Iran-backed Houthi militants in Yemen. 24 jan. 2024. Disponível em: https://abcnews.go.com/Politics/us-uk-stage-multiple-airstrikes-iran-backed-houthi/story?id=106571848. Acesso em: 5 jun. 2024.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W.W. Norton & Company, 2001.
