
Antônio Vieira, acadêmico do 2° semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica
Gênero: Drama
Duração: 2h 26min
Ano: 2003
Diretor (a): Héctor Babenco
Distribuição: Columbia Pictures do Brasil
País de origem: Brasil
A adaptação do livro “Estação Carandiru” aos cinemas, escrito pelo Dr. Drauzio Varella, conta a história, baseada em fatos reais, do funcionamento e da realidade de alguns prisioneiros até o massacre, ocorrido em 1992, na maior penitenciária da América latina – Carandiru – em São Paulo.
O filme apresenta um médico sanitarista, que devido ao surto de Aids na década de 80, se voluntaria em trabalhar na prevenção e no cuidado dos detentos da prisão. Conforme os dias vão passando, ele presencia diversos problemas no local, como: superlotação, conflitos, e a grave crise da DST entre os prisioneiros. Também, o médico se torna um ouvinte frequente da história de vida de alguns encarcerados até aquele momento trágico. Dentre os relatos, se destaca o do “seu chico” (interpretado por Milton Nascimento), um senhor que está aguardando a anos o julgamento do seu crime. Esse caso expõe um dos grandes problemas estruturais dos presídios brasileiros: a superlotação motivada pela lentidão do sistema judicial.
Ao chegar no clímax, o motivo do massacre é apresentado de uma maneira discreta, ressaltando a bomba relógio que era a presença de 7.500 detentos em um complexo que suportava apenas 3.250. Ademais, é revelado a influência política para a atuação policial no dia da chacina, em que foram mortos 111 homens. Nesse sentido, o longa-metragem, por meio de uma atmosfera angustiante e realista, discute a fragilidade e a corrupção do sistema carcerário brasileiro. Sendo essa realidade uma relação de poder, o filme pode ser analisado de acordo com a teoria critica das Relações Internacionais.
Segundo o teórico critico, Robert Cox, a estrutura social é exercida por um conjunto de forças: capacidades materiais, ideias e instituições. Essas forças exercem poder sobre o corpo social, porém, podem ser desconstruídas, sendo historicamente condicionadas (COX, 2021).
Nesse sentido, a capacidade material se refere a potenciais produtivos e destrutivos da sociedade, como a tecnologia, que pode influenciar na organização social. Associando ao filme, assim como na vida real, a infraestrutura do complexo carcerário era desproporcional aos detentos, o que potencializou o estresse no local, e o método violento da polícia em conter a rebelião (COX, 2021).
Agora, no que diz respeito as ideias, ela pode ser classificada em “significados intersubjetivos e “imagens coletivas”. Nesse texto será abordado somente a primeira, que está relacionada ao conjunto de crenças e hábitos compartilhados entre os indivíduos, vistos como parte da natureza social. O foco aqui é a moral coletiva de que, quem comete crime é marginal, menos digno de viver, e que este deve ser julgado perante a lei, sendo a prisão uma das alternativas para manter a ordem social. Essa crença acabou legitimando o massacre, o que reforçou o poder desproporcional do sistema executivo sobre uma parcela da sociedade, que em sua maioria é negra, parda e pobre (COX, 2021).
No que concerne as instituições, não houveram políticas governamentais eficientes para equilibrar a crescente urbanização do estado de São Paulo na época, que veio alinhada a uma alta desigualdade social. Naturalmente, depois do ocorrido houve protestos contra o massacre, que foi autorizado pelo secretário de segurança da cidade, dessa maneira culminando na implosão do complexo de Carandiru (GALILEU, 2023). Sob essa ótica, os estudos de Cox ressaltam a necessidade de se discutir e desconstruir as hegemonias presentes na sociedade.
No mais, o filme representa de forma fiel, por meio do roteiro e da ambientação, o caos ocorrido em 1992. A produção chama os novatos para se aprofundar no caso, que serviu para revolucionar o pensamento da sociedade brasileira sobre o sistema carcerário, o qual enfrenta graves problemas até os dias atuais.
REFERÊNCIAS:
COX, Robert. Forças sociais, Estados e ordens mundiais: além da teoria de Relações Internacionais. Tradução de Caio Gontijo. Revista OIKOS, v. 20 n. 2, p. 10-37, jun. 2021. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/52053. Acesso em: 06 ago. 2024.
GALILEU. Massacre Carandiru: o que foi a chacina em 1992 no presídio de São Paulo. Revista Galileu, 19 jul. 2023. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/sociedade/historia/noticia/2023/07/massacre-do-carandiru-o-que-foi-a-chacina-em-1992-no-presidio-de-sao-paulo.ghtml. Acesso em: 06 ago. 2024.
