Julia Castro, acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica: 

Ano: 2024

Direção: Walter Salles

Distribuição: Sony Pictures

Gênero: Drama, Histórico 

País de Origem: Brasil 

Baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” narra a história de Eunice Paiva, uma dona de casa que se torna uma ativista dos direitos humanos após o desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva, durante a ditadura militar brasileira na década de 1970 (ADOROCINEMA, 2024). O filme explora temas como repressão, perda e a luta pela verdade em um contexto de violência estatal. Desde seu lançamento, o filme tem sido um sucesso nas bilheterias e aclamado pela crítica ao redor do mundo. 

A trama se desenrola a partir de 1971, quando Rubens Paiva, um ex-deputado e crítico do regime, é sequestrado por militares em sua residência. Eunice, acompanhada de seus filhos, é deixada sozinha para lidar com o vazio emocional e o impacto político da situação. A narrativa acompanha suas tentativas desesperadas de obter informações sobre o paradeiro de Rubens, enfrentando ameaças, censura e o silêncio imposto pelo governo. O longa também mostra as tensões internas na família, especialmente entre os filhos, que lidam de maneiras diferentes com o trauma (CAMARGO, 2024). 

O filme é estruturado em três momentos históricos: o período do desaparecimento, os anos 1990 (com as primeiras aberturas democráticas no Brasil), e 2014, durante as comissões da verdade. Esses saltos temporais mostram como a memória e a busca por justiça permanecem vivas ao longo das décadas, marcando gerações da família Paiva. Eunice é retratada como uma mulher de força e coragem, que transforma sua dor em resistência, conectando-se a movimentos por direitos humanos e tornando-se um símbolo de luta contra a impunidade (CAMARGO, 2024) 

O longa-metragem evidencia os impactos do regime autoritário sobre a vida pessoal e política no Brasil e a busca por justiça e memória histórica​. Dessa forma, podemos interpretá-lo à luz da teoria crítica das Relações Internacionais, como uma metáfora sobre a luta por emancipação e a resiliência frente a estruturas opressivas. A teoria crítica, assim como o pós-modernismo, acredita que os discursos constroem a realidade e, portanto, devem ser desconstruídos (SARFATI, 2005). Robert Cox (1999) argumenta que a sociedade civil é o espaço onde a ordem vigente é fundada, mas também onde uma nova ordem pode ser construída. A sociedade civil é, ao mesmo tempo, um agente de estabilização e um agente potencial de transformação (GARCIA, 2013). No filme, a personagem Eunice Paiva exemplifica essa resistência ao se tornar uma ativista em busca da verdade. Sua transformação de uma mulher comum em uma figura de luta pelos direitos humanos demonstra o potencial dos indivíduos para influenciar mudanças significativas em meio a opressão. 

Cox (1987) definiu hegemonia em seu livro “Power, Production and World Order” como uma dominação de forma particular, onde um Estado cria uma ordem baseada ideologicamente, em ampla medida, em consentimento. A ordem hegemônica funciona de acordo com princípios gerais que, na verdade, asseguram a contínua supremacia do Estado líder e sua classe social dominante (GARCIA, 2018).  Em períodos de crise ou incerteza, essa hegemonia pode ser desafiada, levando à repressão das forças opositoras que buscam alternativas contra-hegemônicas. A repressão pode se manifestar através de mecanismos estatais ou institucionais que visam silenciar vozes dissidentes e manter a ordem estabelecida (PASSOS, 2023). A narrativa anticomunista que permeava o discurso do regime militar justificou a cassação de Rubens Paiva e a repressão a outros opositores. Essa ideologia não apenas legitimou ações autoritárias, mas também moldou a percepção pública sobre os riscos associados à oposição política. No filme, a casa dos Paiva, antes um espaço de conforto e sociabilidade, se torna um local de medo e vigilância.

A repressão ocorrida durante a ditadura militar brasileira representa uma estrutura opressora que buscava silenciar vozes dissidentes, como a de Rubens Paiva e sua família. A cassação do mandato de Paiva é um exemplo claro de como o regime utilizou seu poder para eliminar a oposição política. Essa ação mostra que as estruturas de poder não apenas influenciam, mas também determinam o comportamento dos indivíduos e grupos na sociedade, criando um ambiente onde a resistência se torna um ato de coragem.

Em suma, a obra cinematográfica pode ser vista como uma representação das ideias de Robert Cox sobre como os indivíduos interagem com estruturas sociais e políticas. Combinando elementos dramáticos e documentais, “Ainda Estou Aqui” não apenas retrata uma história pessoal, mas também mostra questões mais amplas sobre direitos humanos e a luta contra regimes autoritários.

REFERÊNCIAS:

Ainda Estou Aqui. ADORO CINEMA. 2024. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-265940/.  Acesso em: 9 dez. 2024. 

CAMARGO, Paulo. “Ainda Estou Aqui” é relato intimista, devastador, sobre a dor do esquecimento e a luta pela justiça. Escotilha, 2024. Disponível em: https://escotilha.com.br/cinema/filme-ainda-estou-aqui-walter-salles-resenha-critica/. Acesso em: 9 dez 2024.

COX, Robert. W. Civil society at the turn of the millenium: prospects for an alternative world order. Review of International Studies (1999), 25, 3–28

_________. Production, Power and World Order. Social forces in the marking of history. New York, Columbia University Press, 1987

GARCIA, Ana Saggioro. A introdução de Gramsci nas Relações Internacionais: aspectos metodológicos. In: Revista Acadêmica de Relações Internacionais, Florianópolis, v. 3, p. 110-120, 2013


PASSOS, Rodrigo Duarte Fernandes dos. Uma análise da conjuntura internacional de 2022 à luz de um exame das categorias relacionadas à hegemonia de Robert W. Cox. AMÉRICA LATINA, ELEIÇÕES E MUDANÇAS POLÍTICAS, v. 1, p. 9 – 40, 2023.