
Julia Castro, acadêmica do 6º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Durante as décadas de 1960 e 1980, o rock ‘n’ roll emergiu como uma forma de expressão que transcendeu fronteiras, influenciando jovens em todo o mundo. O gênero musical não apenas refletiu as tensões sociais e políticas da época, mas também se tornou um símbolo de resistência contra regimes autoritários, tanto no Ocidente quanto no Leste Europeu. Com as revoluções estudantis que se espalharam do fim dos anos 60 ao início dos 70 em todo o planeta, a produção musical dos jovens e para os jovens, com a indústria fonográfica de suporte, aparece, em muitas partes, no centro deste movimento. Movimentos semelhantes que aconteciam em países soviéticos, também aconteceram no mesmo período durante a ditadura militar brasileira, com o exílio de artistas da Tropicália (COSTA, 2010)
É importante ressaltar que contestação através do rock na União Soviética (URSS) e na Alemanha Oriental não deve ser confundida com uma postura anticomunista ou anti-socialista. Muitos músicos buscavam um futuro socialista mais alinhado aos ideais de liberdade, igualdade e justiça social, rejeitando tanto a repressão autoritária quanto o individualismo consumista do capitalismo. Entre esses artistas estavam figuras como Alexander Dubcek, que liderou a Primavera de Praga, e o filósofo Egon Bondy, cujas obras refletiam uma crítica ao regime comunista, mas também um desejo de transformação social e cultural dentro do sistema socialista. A Primavera de Praga, de 1968, foi o momento em que o rock serviu como uma voz coletiva contra o totalitarismo (ALENTEJANO, 2022).
Na União Soviética, o rock era frequentemente censurado e seus artistas perseguidos, mas isso apenas aumentou seu apelo entre os jovens, que viam na música uma forma de contestação contra a opressão. Um dos fenômenos mais notáveis foi a chamada “bone music”, que consistia em discos feitos a partir de chapas de raio-X. Devido à escassez de materiais e à proibição da importação de discos ocidentais, os soviéticos começaram a gravar músicas em suportes improvisados, como as chapas (FERRARI, 2022). A “roentgenizdat”, uma rede clandestina de distribuição, surgiu para compartilhar essas gravações, permitindo que milhões de cópias de músicas ocidentais circulassem entre os jovens. A disseminação do rock serviu para enfraquecer a narrativa oficial do Estado, expondo as populações às ideias de liberdade e diversidade.
Com a ascensão de Mikhail Gorbachev ao poder e o início da abertura soviética ao mundo, algumas bandas estrangeiras foram autorizadas a fazer shows em blocos soviéticos, alimentando ainda mais o senso de liberdade e individualidade que cresciam naquele período, além de servir como meio para protestar contra o cada vez mais falido regime soviético. Um dos eventos mais emblemáticos foi o festival Monsters of Rock, realizado em setembro de 1991 no Tushino Airfield em Moscou. Este festival atraiu cerca de 1,6 milhão de pessoas e contou com a participação de bandas icônicas como Metallica, AC/DC e Pantera. A atmosfera do evento refletiu o desejo de liberdade dos jovens soviéticos, simbolizando o fim das restrições culturais que haviam prevalecido durante décadas (JÚNIOR, 2012)
David Bowie produziu a icônica Trilogia de Berlim, nos anos 1970, quando viveu na capital dividida do pós-guerra. Em 1987, durante um concerto próximo ao Muro, o som de Bowie era tão alto que uma multidão começou a se reunir no lado oriental do Muro para ouvir melhor. Era possível ouvir os alemães orientais por trás da Cortina de Ferro cantando “Heroes”, desafiando os seus governantes. Foi um concerto que muitos alemães acreditam ter ajudado a derrubar o muro (TRUSTEE, 2021). Em 2016, o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha agradeceu Bowie por ter “cooperado” para a queda do Muro.
Já em 1990, Roger Waters, cofundador da banda Pink Floyd, realizou o concerto intitulado “The Wall – Live in Berlin”, marcando a reunificação simbólica da Alemanha. O evento foi grandioso, com a participação artistas como Scorpions, Bryan Adams e Cyndi Lauper. A história do álbum The Wall (O Muro), de Pink Floyd, explora temas como isolamento, autoritarismo e repressão, refletindo a experiência de divisão e controle que muitos sentiram durante a Guerra Fria. O evento foi um marco na construção de pontes culturais entre o Leste e o Oeste, mostrando o poder da música de de capturar a essência de um momento histórico (BECKONERT, 2020).
Neste contexto, a teoria neoliberal das R.I revela-se essencial para compreender como os Estados Unidos e outros países ocidentais utilizaram a música, em particular o rock, como uma ferramenta para influenciar ideologicamente populações ao redor do mundo. Joseph Nye (2004) define soft power como a capacidade de influenciar outros por meio da atração e persuasão, em vez do uso da coerção ou força. Ou seja, parte desse poder brando seria refletida nos valores que esse país representa, como a liberdade, a cultura, etc. Para o exercício da liderança, é fundamental saber utilizar o poder brando, pois o constante exercício da força bruta pode causar revolta, inclusive no campo aliado (SARFATI, 2005). Durante a Guerra Fria, o rock desempenhou um papel significativo como ferramenta de soft power de diferentes maneiras, promovendo valores como liberdade de expressão, individualismo e direitos civis. Enquanto as armas nucleares e estratégias militares eram a face mais visível do conflito, a influência cultural tornou-se uma arma poderosa no campo das estratégias.
Em síntese, a utilização do gênero musical como ferramenta de soft power demonstra a capacidade das manifestações culturais de transcender barreiras políticas e ideológicas. A música é um instrumento poderoso para unir nações e na luta contra governos centralizados, principalmente. O rock ‘n’ roll não apenas refletiu as dinâmicas sociais e políticas da Guerra Fria, mas também desafiou normas estabelecidas e promoveu ideais de resistência, influenciando gerações em todas as partes do planeta.
REFERÊNCIAS:
ALENTEJANO, Maria Vitória Elicher. O Rock no contexto da Guerra Fria: Uma ponte entre dois mundos. Diálogos Internacionais. 2022. Disponível em: https://dialogosinternacionais.com.br/?p=2706. Acesso em: 05/12/2024
BECKONERT, M. Há 30 anos, show “The Wall” celebrava Alemanha reunificada. DW. 2020. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-30-anos-show-the-wall-celebrava-alemanha-reunificada/a-54257046. Acesso em: 6 dez. 2024.
COSTA, Mauro José Sá Rego. A Gente Plástica do Universo. Rock´n roll e Revolução na Tchecoslováquia. Caxias do Sul/RS, XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2010.
FERRARI, Wallacy. Durante a censura na União Soviética, homem registrou músicas em chapas de raio-x. Aventuras na História. 2022. Disponível em: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/durante-a-censura-na-uniao-sovietica-homem-registrou-musicas-em-chapas-de-raio-x.phtml. Acesso em: 05/12/2024
JÚNIOR, Nelson. Monsters of Rock Moscow: o festival que marcou o fim das cortinas de ferro da União Soviética. Collectors Room. 2012. Disponível em: https://www.collectorsroom.com.br/2012/10/monsters-of-rock-moscow-o-festival-que.html. Acesso em: 05/12/2014
SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.
NYE, Joseph. Soft Power: The means to success in World Politics. PublicAffairs, 2004
TRUSTEE, P. D.-F. O. David Bowie and the Berlin Wall: How one concert helped change history. Medium. 2021. Disponível em: https://medium.com/@PaulDance_/david-bowie-and-the-berlin-wall-how-one-concert-helped-change-history-d61dcb92bb79. Acesso em: 6 dez. 2024.
