
Por Eduardo Oliveira, Internacionalista formado pela Unama.
Dentre as contribuições teóricas mais relevantes das Relações Internacionais (RI), destaca-se a perspectiva Neoliberal, a qual foi criada e difundida pelos autores estadunidenses Joseph Nye e Robert Keohane. Do ponto de vista ontológico, o neoliberalismo das RI, na tentativa de superar o “estadocentrismo” fundante da área, reconhece a existência e atribui significativa capacidade de influência aos outros atores que povoam a arena global, como Organizações Internacionais (OI´s) e Empresas Transnacionais (ETN’s).
Segundo a teoria, a tão almejada paz internacional seria possível através da institucionalização da cooperação, incentivando os estados, através das OI´s, a se reunirem no intuito de dirimir quaisquer controvérsias estabelecidas ao longo da história.
Outrossim, no contexto das OI´s, foram inseridas outras agendas de discussão que fugiram das questões ligadas à segurança e ao estabelecimento da paz. O teor dessas agendas diz respeito aos temas úteis para as sociedades no enfrentamento de crises, como violações aos direitos humanos, ameaças ao estado democrático de direito, a negação dos direitos da povos indígenas, além da emergência ambiental.
Para os autores, sobretudo através do exposto em Nye (2001), destaca-se a interdependência e complexidade do SI, pelas quais todos os atores estão conectados e dependem uns dos outros. As ações de um estado nacional, por exemplo, têm efeitos em outros, criando uma teia de relações em que ninguém consegue estar completamente isolado.
No contexto do surgimento de novas agendas, os autores propõem a teoria do Tabuleiro Tridimensional, uma metáfora que busca explicar a complexidade das relações internacionais, apresentando o SI como um jogo que ocorre em três tabuleiros interligados. Dentre os três níveis, destaca-se a concepção dos temas globais, os quais podem ser entendidos como problemáticas que estados, sozinhos, não podem resolver, temas que ultrapassam as fronteira nacionais.
Como medida de enfrentamento dessas problemáticas, nota-se governança global age como forma de institucionalização da cooperação entre os atores interessados. Através de governança, surgem os acordos e tratados internacionais que visam desde a mitigação dos impactos das problemáticas até suas completas resoluções.
O ano de 2024 colecionou uma série de episódios que impactaram a inter-relação dos atores que compõem o Sistema Internacional (SI) contemporâneo. Sobre isso, o aumento do número conflitos internacionais, além do retorno de Donald Trump como 47º Presidente dos Estados Unidos (EUA), mas também os preparativos para a realização da 30ª Conferência das Partes (COP 30), em Belém, comportam-se como variáveis relevantes no processo de construção dos cenários para 2025.
Dentre os eventos previstos para esse ano, o iminente retorno do partido republicano à Casa Branca, através da eleição Donald Trump, revelou a insatisfação de mais de 77 milhões de estadunidenses com o governo de Joe Biden. Assim, apesar da tentativa de Kamala Harris, atual vice-presidente, em assumir a corrida eleitoral, e até ter alcançado números satisfatórios nas pesquisas, o “trumpismo” ressurge com a promessa de priorizar as questões domésticas em detrimento dos assuntos de interesse global, através do lema “America fist”. (BBC News, 2024)
Nesse sentido, espera-se que haja uma reformulação imediata das High Politics e Low Politics, ensejando ações assertivas no que tange a imigração, através da deportação em massa e finalização do muro na fronteira com o México; na participação indireta do país em conflitos internacionais, como no contexto da invasão russa à ucrânia, além de Israel e Palestina; no corte das regulamentações que limitam a exploração, produção e utilização de combustíveis fósseis na produção de energia, sobretudo no meio automobilístico. (BBC News, 2024)
O interesse de Trump em incentivar a exploração de petróleo é dissonante com a agenda de um dos eventos mais esperados para 2025, a realização da COP30 em Belém. Nesse contexto, a conferência busca solucionar a problemática ambiental, no que tange às mudanças climáticas, através da governança a partir, dessa vez, de uma cidade amazônica. Temas que escancarem o socioambientalismo são demandas impreteríveis, tendo em vista que o iminente colapso ambiental atingirá, de forma irrestrita, todas as formas de vida no planeta. (BBC News, 2024)
Em análise, em um mundo cada vez mais marcado pela tragédia da guerra, pela reificação humana, pela busca incessante pelo poder econômico em detrimento da natureza, é fundamental que 2025 encontre arranjos de concertação multilateral orientados pela vontade de enfrentar os diversos desafios que a humanidade encontrará pela frente.
Tendo em visto o alto nível de influência dos Estados Unidos no SI, a eleição de Donald Trump representa grande retrocesso, sobretudo no enfrentamento dos temas globais, sobretudo pelo isolacionismo esperado, pelo menos nos próximos quatro anos. Não há expectativa que Trump, em pessoa, venha até Belém discutir sobre mudanças climáticas. Apesar da COP30 não depender dos EUA, a apatia de um grande player internacional enfraquece a efetividade da conferência. Cenas como a de Joe Biden caminhando pela floresta amazônica deverão se tornar raras e até inexistentes com o novo mandatário.
Em suma, 2025 nos reserva desafios além das questões tratadas neste texto. O política internacional, tal qual o nosso planeta, encontra-se em ebulição. Seja os impactos da especulação econômica crescente, seja o conflito regional no oriente médio, até o embate entre os EUA e outros atores, como os BRICS, são temáticas a serem analisadas, doravante, com bastante atenção.
REFERÊNCIAS:
CARVALHO, D. A. F. de. O Desenvolvimento Sustentável como instrumento de alienação ambiental: rumo à sexta extinção em massa. Revista Multidisciplinar de Educação e Meio Ambiente, [S. l.], v. 2, n. 2, p. 62, 2021. DOI: 10.51189/rema/1292. Disponível em: https://editoraime.com.br/revistas/index.php/rema/article/view/1292. Acesso em: 24 nov. 2024.
FITZGERALD, James. 7 coisas que Trump diz que fará como presidente. BBC News Brasil. 07, nov 2024. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/articles/czd5vq7p711o> Acesso em: 21, dez 2024.
KEOHANE, R. O.; NYE, J. S. Power and Interdependence. 3. ed. Upper Saddle River, NJ: Pearson, 2001.
