Enzo Di Lucca – acadêmico do 5º Semestre de Relações Internacionais da UNAMA. 

Em março de 2025, apenas dois meses após a entrada em vigor do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, uma série de novos bombardeios israelenses na Faixa de Gaza matou cerca de 400 pessoas, segundo o Ministério da Saúde palestino. As Forças de Defesa de Israel (IDF) justificaram os “ataques em larga escala” alegando a necessidade de eliminar “alvos terroristas” pertencentes ao Hamas. Nas 24 horas seguintes ao ataque, hospitais em Gaza receberam mais de 140 feridos, enquanto a Defesa Civil Palestina perdeu contato com seis de seus membros que atuavam em uma missão de resgate em Rafah, no sul da Faixa de Gaza (BBC, 2025). 

Em clara violação do cessar-fogo estabelecido no início do ano, o governo israelense mantém a escalada de violência na Faixa de Gaza. Com esse novo ataque, o número de vítimas palestinas do conflito iniciado em outubro de 2023 ultrapassou 50.000, de acordo com as autoridades palestinas . (BBC, 2025).  

Os números alarmantes de vidas perdidas parecem gerar apenas uma comoção limitada no sistema internacional, restrita a indignações passageiras, declarações diplomáticas e condenações formais que pouco alteram a sombria realidade da Faixa de Gaza, lar de mais de 2,3 milhões de palestinos. No entanto, se engana quem pensa que a ofensiva militar do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a subsequente campanha militar de Israel em resposta marcaram o início das violações de direitos humanos e do massacre de civis na região. Pelo contrário, essa tem sido a realidade da Palestina desde a Nakba — termo árabe que significa “catástrofe” —, usado pelos palestinos para descrever o deslocamento forçado de seu povo durante a criação do Estado de Israel e a Guerra Árabe-Israelense de 1948-1949. (Intercept Brasil, 2023). 

Desde então, o povo palestino e as forças de Israel entraram em um ciclo vicioso de ataques, contra-ataques e massacres, nos quais a maioria das vítimas são civis palestinos. Como destaca o historiador palestino Nur Masalha em seu livro “A Nakba Palestina: Descolonizando a História, Narrando o Subalterno e Reivindicando a Memória” (2012), a Nakba não foi um evento isolado, mas um processo contínuo de despossessão e colonização que persiste até os dias atuais. 

Em sua obra, Masalha também apresenta um extenso compilado de massacres cometidos por Israel contra os palestinos antes mesmo do conflito de 2023. Entre os episódios documentados pelo autor, destacam-se o massacre de Qibya, ocorrido em outubro de 1953, quando tropas israelenses da Unidade 101 atacaram o vilarejo de Qibya, na Cisjordânia, matando 69 palestinos. O ataque foi amplamente condenado pelo Conselho de Segurança da ONU e pelo Departamento de Estado dos EUA, que chegou a suspender temporariamente a ajuda norte-americana a Israel. 

Outro exemplo citado pelo autor foi o ataque ao campo de refugiados de Jenin, em abril de 2002, durante a Segunda Intifada — revolta palestina que teve início após o fracasso da Cúpula de Camp David de 2000, quando se esperava alcançar um acordo final sobre o processo de paz israelense-palestino. O Exército de Israel destruiu o campo de refugiados palestinos utilizando bulldozers, tanques e helicópteros. Embora se estime que centenas de homens, mulheres e crianças tenham morrido no ataque, as estimativas ainda variam, pois muitos corpos foram enterrados sob os escombros (Intercept Brasil, 2023). O conflito também foi retratado no premiado documentário de 2002 “Jenin, Jenin”, dirigido pelo cineasta palestino Mohammad Bakri. 

A sombria compilação de Masalha continua, citando ainda Kafr Qasim (1956), Hebron (1994) e Gaza (2008, 2014, 2018 e 2021). 

Diante de tantas mortes, conflitos e massacres, o longo e contínuo martírio palestino e a apática reação da sociedade internacional nos permitem fazer um paralelo com a obra atemporal da filósofa judia Hannah Arendt, “Eichmann em Jerusalém” (1963). Em seu livro, a autora faz uma análise detalhada do julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais arquitetos dos horrores do Holocausto. Durante o julgamento, Eichmann justificava suas atrocidades como meras ordens burocráticas a serem seguidas. Arendt nos introduz ao conceito da “banalidade do mal”, argumentando que o mal nem sempre se manifesta de forma clara, monstruosa e excepcional, mas sob o véu da burocracia e da normalização de atos atrozes, frequentemente sob justificativas estatais (Arendt, 1963) como segurança nacional ou autodefesa, por exemplo. À luz do pensamento de Hannah Arendt, o que ocorre nos territórios palestinos, não somente em 2025, mas desde 1948, é a banalização da violência, da morte e da guerra em um nível alarmante, gerando uma desconexão absurda entre uma devastadora realidade e uma sociedade internacional apática e, por vezes, cúmplice do martírio palestino. 

Referências: 

ABUALOUF, Rushdi; GREENALL, Robert; WRIGHT, George. Israel launches waves of strikes on Gaza with more than 400 reportedly killed. BBC, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c9vy3k4dpz0o. Acesso em: 25 mar. 2025. 

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um estudo sobre a banalidade do mal. 50. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 

BENNETT, Tom. More than 50,000 killed in Gaza since Israel offensive began, Hamas-run ministry says. BBC, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/clyz4nnqgvdo. Acesso em: 31 mar. 2025. 

BAKRI, Mohammad (Direção). Jenin Jenin. Palestina: Palestine Films, 2002. 

HUBERMAN, Bruno. Estes são os maiores massacres de Israel contra a Palestina. Intercept Brasil, 2023. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2023/10/13/israel-estes-sao-os-maiores-massacres-contra-a-palestina/. Acesso em: 27 mar. 2025. 

MASALHA, Nur. The Palestine Nakba: Decolonising History, Narrating the Subaltern, Reclaiming Memory. London: Zed Books, 2012. 

Israel e Palestina, Eventos de 2023. Human Rights Watch, 2023. Disponível em: https://www.hrw.org/pt/world-report/2024/country-chapters/israel-and-palestine. Acesso em: 26 mar. 2025.