
Sofia Dias, acadêmica do 1º semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 2024
Diretor: Luis Lomenha
Distribuição: Netflix
Gênero: Drama / Nacional
País de Origem: Brasil
Os Quatro da Candelária é uma minissérie brasileira da Netflix que revisita a trágica Chacina da Candelária, ocorrida em 1993, a partir de uma perspectiva sensível e inovadora. Ao longo de quatro episódios, a produção se destaca por entregar o protagonismo às vítimas sobreviventes, crianças e adolescentes em situação de rua, cujas histórias pessoais ganham espaço para além da violência que marcou o episódio. Fugindo da exploração sensacionalista, a obra busca iluminar trajetórias muitas vezes esquecidas, revelando as profundas questões sociais que atravessam esse sombrio capítulo da história brasileira. (MONROE, 2024)
Na noite de 23 de julho de 1993, em frente à Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, oito jovens em situação de rua foram brutalmente assassinados enquanto dormiam. A obra cinematográfica reconstrói esse episódio marcante por meio de um roteiro sensível e impactante, assinado por Luis Lomenha, Renata Di Carmo e Luh Maza, que nos conduz pelas últimas 36 horas desses jovens com uma narrativa que não suaviza a crueza da realidade. Com atuações intensas e emocionantes, o espectador é levado a vivenciar os medos, afetos e sonhos interrompidos desses personagens, mergulhando em suas subjetividades com uma proximidade rara nas produções que retratam violência urbana.
A série constrói uma conexão empática com o público ao revelar não apenas o sofrimento, mas também a humanidade, a criatividade e os vínculos afetivos que resistem mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade. A produção aposta ainda em elementos do realismo fantástico, afrofuturismo e ancestralidade como ferramentas narrativas potentes, que rompem com a linearidade do tempo e da memória, criando um elo simbólico entre passado, presente e futuro. Esses recursos ampliam a dimensão poética e política da obra, trazendo à tona uma reflexão profunda sobre pertencimento, identidade e resistência frente à exclusão histórica de corpos negros e periféricos (CNN, 2024).
Posto isto, a obra pode ser analisada à luz da Teoria Crítica das Relações Internacionais, que convida à reflexão sobre as estruturas de dominação que atravessam não apenas o sistema internacional, mas também o cotidiano de Estados marcados por profundas desigualdades (COX, 1981). Diferente das abordagens tradicionais, essa teoria busca tornar visíveis as relações de poder e exclusão que muitas vezes são tratadas como naturais especialmente em contextos de violência a institucional. Ao colocar no centro as vozes silenciadas de jovens negros e periféricos a produção transforma dor em denúncia, e memória em resistência tornando-se, assim, um ato político de reexistência, que rompe com narrativas hegemônicas ao revelar a potência humana por trás das estatísticas.
Andrew Linklater (1998), destaca a importância de ampliar a comunidade moral no sistema internacional, superando a lógica da exclusão que historicamente marginaliza diversos grupos sociais. O autor argumenta que a construção de uma ordem internacional mais justa requer a ampliação dos conceitos de pertencimento e participação política, de modo a incorporar vozes silenciadas e garantir sua dignidade. Essa perspectiva crítica enfatiza que mudanças normativas e estruturais são essenciais para criar uma convivência mais humana e inclusiva, capaz de romper com as hierarquias excludentes que persistem nas relações internacionais.
Dessa forma, Os Quatro da Candelária vai além de ser apenas uma reconstrução histórica ou um relato de violência, ela é um convite urgente para que se repense como as injustiças que marcam vidas no Brasil estão conectadas a estruturas maiores, presentes no mundo todo. A minissérie ressalta que as dores e exclusões sofridas por jovens negros e periféricos não são casos isolados, mas parte de uma realidade global de desigualdade e invisibilização. A obra promove a expansão da noção de comunidade, dignidade e pertencimento, mostrando que é possível imaginar um mundo mais justo e inclusivo. Ao dar voz às vítimas e transformar seu sofrimento em resistência, a série toca no sentido de humanidade e reforça o papel da memória como instrumento de transformação, tanto local quanto internacionalmente.
REFERÊNCIAS
MONROE, Ygor. Crítica: “Os Quatro da Candelária”. Caderno Pop, 2 nov. 2024. Disponível em: https://cadernopop.com.br/critica-os-quatro-da-candelaria/
CNN BRASIL. “Os Quatro da Candelária”: uma narrativa de resistência e ancestralidade. CNN Brasil, 18 out. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/2024/10/18/os-quatro-da-candelaria-uma-narrativa-de-resistencia-e-ancestralidade.
LINKLATER, Andrew. The transformation of political community: ethical foundations of the post-Westphalian era. Columbia: University of South Carolina Press, 1998.
