
Escrito por Felipe Ranieri, acadêmico do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A teoria contemporânea das relações internacionais bebe de fontes teóricas de outras áreas, mas desenvolve de maneira contínua seus próprios conceitos e disputas no campo epistemológico. Como expressão disso, o canadense Robert Cox elabora seus pensamentos em torno da crítica à manutenção da ordem no Sistema Internacional através do que ele chama de “níveis de análise” (Cox, 2010).
Nesse sentido, ainda que suas obras sejam ricas em conteúdo para compreensão do mundo, ofereço nesse artigo um reconhecimento da profundidade que elas tomam ao serem relacionadas com o método de Marx para análise da realidade e a consequente inversão do método de Hegel. De maneira conclusiva, a construção lógica a qual se perceberá por meio desses três autores mostrar-se-á extremamente útil para qualificar o debate dos efeitos práticos da COP 30 e suas especificidades enquanto conferência ambientada na Amazônia.
O método de Marx, chamado de materialismo-histórico-dialético, é uma inversão da dialética Hegeliana. Isso porque ambos concordam que a história está em constante movimento (isso é a dialética), mas divergem na ordem e na centralidade daquilo que a move. Para Hegel (2008), a nossa realidade é um produto do pensamento; logo, o que movimenta a história é a contradição entre as ideias.
Então, como Marx inverte essa teoria? Para ele, o que movimenta a história são as contradições materiais, ou seja: o pensamento é que está condicionado pela realidade. De maneira resumida: se para Hegel o mundo real é construído pelo pensamento, Karl Marx (2007) vai demonstrar que, na verdade, o pensamento já é construído pela realidade anterior a ele. Não à toa, a crítica marxista se fundamenta na lógica de que o indivíduo não pensa a partir “do nada”, mas sim da realidade que está a sua volta (Malagodi, 1987).
“Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência” (Marx e Engels, 2007). Com esse trecho, Marx se diferencia do idealismo de Hegel não somente a partir da afirmação da “vida” como determinante da “consciência”, mas principalmente acerca do que se entende com “vida real”. Objetivamente, para a concepção marxiana, o mundo real não é concebido como uma mera representação da consciência humana. Ele é de fato; e, por isso, as mudanças do mundo real estão ligadas às contradições de classe manifestadas nas relações de produção.
De maneira didática: a realidade não é alterada como uma interpretação de nossa consciência, mas sim sob uma lógica material que está além de idealizações individuais, é palpável e sentida diante de sua totalidade. Sob esse aspecto, as diferenças entre Marx e Hegel não terminam em um debate entre “o que vem primeiro? O real ou o ideal?”, estendem-se ao significado da realidade para cada autor.
Diante dessa discordância, Marx é categórico em concluir: ora, falar em transformação social é falar nas relações sociais de produção (aspecto material), pois são elas quem definem a divisão da sociedade entre classes que, por sua vez, são necessariamente antagônicas e, como consequência, gerará uma contradição de interesses capaz de movimentar a história. Veja, essa construção lógica não parte da interpretação de nosso consciente, ela é a realidade expressa da maneira que é: sob a produção e relação humana.
Isso posto, como Robert Cox insere esse embate nas Relações Internacionais? Respondo: através dos níveis de análise. Cox define três níveis para entender a realidade do Sistema Internacional: 1- forças materiais, 2- ideias e 3- instituições (Cox, 2010). Perceba: aqui está uma perfeita expressão da aplicação do materialismo-dialético de Marx às R.I., isso porque a organização da ordem desses níveis é fundamental. Primeiro, observa-se o elemento material (do mundo real, ligado ao modo de produção), posteriormente, e como consequência, é que vem o mundo das ideias (da esfera do pensamento, expresso em normas, valores e ideologias) e o resultado disso nada mais é do que outro elemento material: as instituições e suas práticas. Perceba, antes de analisar as ideias que influenciam as instituições, Robert Cox deixa muito claro que existe um nível anterior que condiciona qualquer pensamento: a realidade material baseada nas contradições capitalistas de classe.
De modo contínuo, como isso nos ajuda a compreender a COP 30? A COP, enquanto convenção que promove a interação entre múltiplos agentes, não pode ser compreendida se pensarmos que ela está definida simplesmente pelo embate entre ideias propostas por aqueles que irão compor suas discussões. Afinal, o “nível 3” (instituições) pode até ser fruto do “nível 2” (ideias), mas esse encontro de pensamentos só é possível porque existe um “nível 1” baseado nas contradições de classe, raça, genêro etc.
De maneira mais clara, o desejo para que uma COP na Amazônia represente os interesses dos povos que aqui vivem está intrinsecamente ligado a mudanças radicais na estrutura social. Afinal, as instituições são espaços de disputa fundamentais, mas só é possível torná-las mecanismo de transformação se essa disputa promover mudanças no primeiro nível de análise. Como aplicação prática e didática dos níveis de análise de Robert Cox, utilizar-se-á o caso da usina hidrelétrica de Belo Monte, descrevendo como cada nível se expressou na conjuntura demonstrada.
Nível 1 (forças materiais): A construção da hidrelétrica foi motivada por interesses econômicos ligados à expansão da matriz energética brasileira, especialmente voltada para o crescimento industrial e urbano. Esse projeto visava explorar o potencial hidroelétrico da região amazônica, representando uma expressão clara das contradições do capitalismo periférico: desenvolver infraestrutura em áreas “marginais” do sistema para atender à demanda das áreas centrais do capital (Furtado, 2016).
Nível 2 (ideias): O discurso governamental e empresarial apresentava Belo Monte como um projeto de “desenvolvimento sustentável” e “integração nacional”, enquanto movimentos sociais, ONGs e representantes indígenas denunciavam a violação de direitos, a destruição ambiental e a marginalização de modos de vida tradicionais. A tensão entre os valores do “progresso” e da “preservação” dominou o debate público.
Nível 3 (instituições): O Estado brasileiro, através de licenças ambientais concedidas pelo IBAMA, e instituições como o Congresso Nacional e a FUNAI, tiveram papéis ambíguos e muitas vezes coniventes com os interesses corporativos (FUNAI, 2010). Houve também mobilização no plano internacional, com denúncias em fóruns como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que chegou a solicitar a suspensão das obras (CIDH, 2011).
Ainda assim, a escuta das ideias indígenas (nível 2) e a sua tentativa de incidência nas instituições (nível 3) não foram suficientes para alterar a realidade material (nível 1). Ou seja, a lógica material da produção capitalista é que determina os projetos de infraestrutura, independentemente do impacto humano e ecológico; não à toa, prevaleceu sob os espaços de disputa ideológica e institucional. Como consequência, a realidade concreta das populações indígenas da Volta Grande do Xingu foi dramaticamente afetada: deslocamentos forçados, degradação ambiental e cultural, insegurança alimentar e aumento da violência (Lima; Santilli, 2019).
Esse caso mostra como as transformações simbólicas (ser ouvido e estar presente nos fóruns) só geram mudanças reais se forem acompanhadas por alterações nas relações materiais de produção e poder. É um exemplo concreto onde a teoria de Cox e o materialismo-histórico-dialético de Marx se encontram com a realidade amazônica e indígena — e que deve servir como ponto de partida para debates na COP 30.
Por fim, proponho as seguintes reflexões (usando o exemplo recém citado): se os múltiplos desejos das populações indígenas forem ouvidos, isso já representará um avanço significativo nos debates gerados pela COP 30. No entanto, deve-se fazer a ressalva: ser ouvido basta? Fazer-se presente no nível das ideias é suficiente? Até que ponto isso terá efeito prático na tomada de decisão e, portanto, na realidade dos povos originários?
Aprofundando ainda mais: se não repensarmos pontos ainda mais fundamentais — como a inserção desses grupos na dinâmica capitalista de produção e a correlação disso com a questão de raça e gênero — o pensamento será feito e as instituições serão ocupadas, mas as violentas condições materiais que afetam os indígenas permanecerão erguidas e a realidade sofrerá alterações mais simbólicas do que reais. Eis a importância da teoria crítica: pensar o mundo não somente para entendê-lo, mas para transformá-lo; parafraseando Marx (2007).
REFERÊNCIAS
CIDH – COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Medidas cautelares sobre o caso Belo Monte, Brasil. Washington, D.C.: CIDH, 2011.
COX, Robert W. Forças sociais, estados e ordens mundiais: além da teoria das Relações Internacionais. In: COX, Robert W.; SINCLAIR, Timothy J. A política global e a ordem mundial: teoria crítica das Relações Internacionais. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Vozes, 2010.
FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI). Nota técnica sobre os impactos da UHE Belo Monte sobre os povos indígenas. Brasília: FUNAI, 2010.
FURTADO, Leila Christina Dias. Belo Monte: modernização conservadora e violações de direitos. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2016.
HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2008.
LIMA, Deborah Goldemberg; SANTILLI, Márcio. Belo Monte: o custo socioambiental da energia. In: ISA – INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil. São Paulo: ISA, 2019. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Belo_Monte. Acesso em: 20 maio 2025.
MALAGODI, Edgard. O que é materialismo dialético. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Rubens Enderle e Marcelo Backes. São Paulo: Boitempo, 2007.
