
Ana Clara Duarte – acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da Unama
O Dia dos Pais, comemorado em diferentes datas ao redor do mundo, é tradicionalmente visto como um momento simbólico de valorização da figura paterna. No entanto, nas últimas décadas, a celebração tem sido ressignificada por meio de debates sociais que ampliam a compreensão da paternidade como um papel que envolve responsabilidade afetiva, cuidado cotidiano e engajamento ativo na formação dos filhos — para além da tradicional função de provedor (UNICEF, 2017). Essas mudanças culturais, embora enraizadas em contextos domésticos, se entrelaçam com dinâmicas internacionais que envolvem políticas públicas, mobilidade humana, direitos humanos e proteção da infância.
Apesar de seu impacto crescente, a paternidade segue sendo marginalizada nas análises de Relações Internacionais, sobretudo em contextos de migração, conflitos armados e políticas de segurança de fronteiras. Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2023), mais de 50 milhões de crianças foram deslocadas à força até o ano de 2023, muitas vezes separadas de seus pais por decisões governamentais e legislações restritivas. Tais realidades revelam a urgência de incorporar a perspectiva do cuidado paterno como elemento de análise e formulação de políticas internacionais.
A abordagem feminista nas Relações Internacionais oferece um importante referencial teórico para repensar essas questões. Cynthia Enloe (2014) argumenta que “o pessoal é internacional”, ao destacar como as estruturas globais de poder afetam — e são afetadas — por papéis de gênero, incluindo a paternidade. Essa teoria propõe uma desconstrução das normativas tradicionais da masculinidade, que vinculam os homens à autoridade, força e distanciamento emocional, características também reproduzidas nas narrativas dominantes sobre segurança e poder (COHN, 2013).
Reinterpretar a paternidade como uma prática ativa de cuidado permite desafiar essas estruturas simbólicas e propor alternativas para a construção da paz e da justiça social. A figura do pai, muitas vezes negligenciada em processos de acolhimento e reintegração social, pode atuar como agente fundamental em ações de reconstrução pós-conflito. Iniciativas das Nações Unidas em países africanos, por exemplo, já incorporam atividades voltadas à promoção da paternidade responsável nos programas de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR), com resultados promissores para a coesão social (PNUD, 2022).
As políticas migratórias também revelam o impacto direto da negligência com o papel paterno. Estimativas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR, 2023) apontam que mais de 110 milhões de pessoas estavam deslocadas em todo o mundo, sendo muitas delas pais impedidos de manter contato regular com seus filhos por barreiras políticas ou jurídicas. Além disso, a priorização quase exclusiva da maternidade nas leis de guarda e nos sistemas de acolhimento contribui para a invisibilização do papel dos pais, inclusive em contextos de proteção internacional (IOM, 2024).
A teoria feminista revela, portanto, como a ausência de políticas globais que considerem o cuidado como princípio organizador perpetua desigualdades e enfraquece laços afetivos fundamentais para a estabilidade e o bem-estar das comunidades. Ao enfatizar a centralidade do cuidado nas estruturas sociais, essa perspectiva contribui para uma compreensão mais inclusiva da segurança humana, da cooperação internacional e da construção da paz (ENLOE, 2014; COHN, 2013).
A valorização da paternidade ativa também aparece como instrumento para o desenvolvimento sustentável. Políticas públicas que reconhecem o papel dos pais em contextos vulneráveis — como a migração e o pós-conflito — podem promover maior estabilidade emocional, inclusão social e coesão familiar. Nesse sentido, pensar a paternidade como uma prática política e ética amplia os horizontes das Relações Internacionais e contribui para o fortalecimento de uma agenda global mais justa e humanitária.
Referências:
ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. Tendências globais: deslocamento forçado em 2023. Genebra: ACNUR, 2023. Disponível em: https://www.acnur.org. Acesso em: 06 ago. 2025.
COHN, Carol. Women and Wars. Cambridge: Polity Press, 2013.
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014.
IOM – Organização Internacional para Migrações. World Migration Report 2024. Genebra: IOM, 2024. Disponível em: https://www.iom.int. Acesso em: 03 ago. 2025.
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. DDR Reintegration Handbook: Advancing peace through community care. Nova Iorque: UNDP, 2022. Disponível em: https://www.undp.org. Acesso em: 03 ago. 2025.
UNICEF. Early Moments Matter for Every Child. Nova Iorque: UNICEF, 2017. Disponível em: https://www.unicef.org. Acesso em: 04 ago. 2025.
UNICEF. Child Displacement 2023: Global report. Nova Iorque: UNICEF, 2023. Disponível em: https://www.unicef.org. Acesso em: 06 ago. 2025.
