
Taila Amaral – Acadêmica do 2ª semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A formação do Brasil foi marcada por uma série de dominações coloniais, explorações econômicas e disputas sociais até a sua independência, proclamada em 7 de setembro de 1822, encerrando séculos de domínio colonial e consolidando um marco na história do país (PRADO JR., 2011).
No entanto, esse evento não definiu apenas a trajetória política e social do Brasil, mas moldou a identidade e estabeleceu a base para a construção de uma nação soberana, a qual, no cenário atual, há discussões sobre o verdadeiro significado e consequências desse acontecimento, colocando em evidência a relação entre história, memória e política que vem sendo edificada há mais de 200 anos em uma nação desigual, racista e elitista, impondo a necessidade crítica sobre as interpretações do passado e as propostas para construir um futuro com base nessas reflexões.
Grande parte das narrativas tradicionais sobre a independência a apresentam como uma luta nacionalista entre brasileiros e portugueses ou como um acordo garantidor de uma transição política mais justa que deve ser celebrado com orgulho (CARVALHO, 2001).
Entretanto, foi apenas resultado de fatores econômicos, políticos e sociais, podendo ser destacado as influências das revoluções liberais, o processo de transferência da corte portuguesa para o Brasil, os conflitos entre os interesses locais e com a coroa portuguesa e a liderança de Dom Pedro I como as principais causas (FAUSTO, 2013 PRADO JR., 2011).
Ademais, a Independência do Brasil trouxe consequências significativas para o território nacional, como a centralização política e o predomínio das elites escravocratas e agrárias no poder, dependência externa – principalmente da Inglaterra – por meio de tratados e empréstimos desiguais e a exclusão de mulheres, escravos, indígenas e a população pobre do meio social (CARVALHO, 2001; FAUSTO, 2013). Com base nesse pensamento, de acordo com o historiador José Murilo de Carvalho (2001), em sua obra “Cidadania no Brasil: o longo caminho”, mesmo após a independência, a cidadania no Brasil permaneceu restrita e incompleta, excluindo grande parte da população, sendo exclusiva às elites.
A partir desse pensamento, entende-se a premissa pelos quais os governantes da atualidade optam por projetos de exploração de recursos, privatizações, ataques ao meio ambiente e ineficácia de políticas públicas. Além disso, sob a ótica Hobbesiana, esse marco histórico pode ser visto como um Estado fortemente soberano, mas incapaz de cumprir plenamente sua função perante a sociedade porque o Leviatã brasileiro nasceu limitado. Isso explica por que encontram-se falhas e contradições que marcam o processo de independência, visto que era o escravismo que caracterizava a sociedade e definia os rumos econômicos e culturais do país, assolando de maneira profunda a história do Brasil até os dias atuais.
Portanto, refletir sobre a independência do Brasil exige reconhecer o processo de construção da nação brasileira e de sua identidade, compreendendo que é um processo que envolve memória, identidade e relações de poder, marcado por desigualdade e histórico de vulnerabilidade socioeconômica. Assim, articulando autonomia e inclusão social, será possível caminhar em direção a uma independência que seja, de fato, plena.
REFERÊNCIAS
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
FAUSTO, BORIS. História do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013.
HOBBES, Thomas. Leviatã. Tradução de Luiz Costa Lima. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
