
Marcelo Andrade de Freitas, acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Ficha técnica:
Ano: 2022
Diretor: James Gunn; Brad Anderson; Jody Hill; Rosemary Rodriguez.
Distribuição: HBO Max
Gênero: Ação, Aventura, Comédia, Super‐herói.
País de Origem: Estados Unidos
Pacificador (Peacemaker, 2022), dirigido por James Gunn e estrelado por John Cena, é uma série de TV audaciosa que explora a origem do anti-herói homônimo. Desde a infância, o personagem carrega o juramento de trazer a paz a qualquer custo, mesmo que isso signifique recorrer às armas ou tirar a vida de homens, mulheres e crianças. A narrativa combina ação com um tom humorístico e satírico, construindo a imagem de um homem extremamente patriota e obcecado pela ideia de paz, caracterização que é reforçada pela presença de sua mascote, a águia-careca Eagly, um dos principais símbolos nacionais dos Estados Unidos que é reconhecido como o animal nacional do país.
Baseando-se nesse enredo, ao longo da primeira e da segunda temporada, a série aborda de forma contínua pautas sociais como racismo, nacionalismo e masculinidade, tecendo críticas à ascensão da extrema direita nos Estados Unidos e fazendo observações pontuais sobre o atual governo norte-americano. O ponto alto dessa crítica ocorre quando o Pacificador é transportado para uma dimensão alternativa em que o Reich nazista venceu a guerra e passou a dominar os Estados Unidos, colocando em xeque todas as suas convicções até então.
Dessa forma, o discurso do protagonista, que defende a ideia de “trazer a paz a qualquer custo”, pode ser analisado a partir do conceito de securitização desenvolvido por Buzan e Wæver (2003) na Teoria dos Complexos Regionais de Segurança (TCRS). De acordo com os autores, a securitização constitui uma construção social por meio da qual um ator, geralmente um governo, transforma determinado tema em uma questão de segurança ao apresentá-lo como uma ameaça existencial. Nesse sentido, o ato de securitizar não decorre de uma ameaça objetiva, mas do modo como ela é discursivamente construída. Esse enquadramento possibilita a legitimação de medidas extraordinárias e, ao mesmo tempo, a retirada do tema do debate público, sob a justificativa de que sua resolução exige respostas urgentes e excepcionais.
Além disso, a análise do discurso securitário pode ser aproximada da Teoria Crítica das Relações Internacionais. Essa perspectiva enfatiza que nenhum discurso ou teoria é neutro, pois toda produção de conhecimento reflete interesses e contextos históricos específicos (COX, 1981). Desse modo, ao recorrer à securitização da paz como justificativa para práticas violentas e autoritárias, o discurso do personagem evidencia como determinadas narrativas podem ser construídas para legitimar estruturas de poder e, simultaneamente, restringir o espaço de participação democrática.
Dessa forma, compreende-se que a figura do Pacificador exemplifica como o discurso securitário funciona na prática. Ao se comprometer com a paz a qualquer custo, mesmo que por meios violentos, o personagem transforma suas convicções em justificativa para ações extremas, refletindo a lógica da securitização.
Sob a perspectiva da Teoria Crítica das Relações Internacionais, esse comportamento não pode ser visto como neutro, pois expressa interesses e valores historicamente situados, reforçando narrativas de poder e exclusão (COX, 1981). Assim, a série utiliza o personagem para mostrar como discursos de segurança podem ser socialmente construídos, legitimar estruturas autoritárias e limitar o debate democrático, ao mesmo tempo em que provoca reflexão sobre patriotismo, violência e responsabilidade moral.
Em conclusão, a série Pacificador se destaca por sua narrativa audaciosa e, ao mesmo tempo, crítica, combinando ação, humor e sátira para explorar a origem e a complexidade do anti-herói homônimo. O desenvolvimento do protagonista, seu compromisso radical com a paz e elementos como sua mascote Eagly contribuem para a construção de uma história envolvente e multifacetada.
Ao colocar o personagem em situações extremas que testam suas convicções e moralidade, a série provoca reflexão sobre patriotismo, violência e responsabilidade ética, oferecendo ao público uma experiência que vai além do entretenimento e mantém o espectador atento tanto à ação quanto às camadas de significado presentes na narrativa.
REFERÊNCIAS:
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.
HBO MAX. Pacificador: 2022. Disponível em: https://www.hbomax.com/br/pt/shows/pacificador-2022/a939d96b-7ffb-4481-96f6-472838d104ca . Acesso em: 09 out. 2025.
