Soraia Pinheiro – 2º semestre

No vasto território da Amazônia, onde a floresta exibe tradições ancestrais, emerge uma das maiores manifestações de fé e identidade cultural do Brasil: o Círio de Nazaré. Celebrado anualmente em Belém do Pará, no segundo domingo de outubro, esse evento transcende fronteiras religiosas para se tornar um símbolo vivo da alma amazônica. No âmbito das Relações Internacionais, o Círio oferece uma lente privilegiada para analisar como a religião e a cultura atuam como vetores de coesão social, diplomacia cultural e integração regional na América do Sul.

Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2013, e pelo IPHAN, em 2004, o Círio não é apenas uma procissão de milhares de fiéis, mas um fenômeno que reflete a interação entre o catolicismo português, as influências indígenas e o contexto geopolítico da região Norte brasileira. A história do Círio de Nazaré remonta ao século XVIII, enraizada em uma lenda que mescla milagre e sincretismo cultural. Em 1700, o lavrador Plácido José de Souza encontrou uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré às margens do igarapé Murucutu, em Belém (Portal Amazônia, 2025).

Segundo a tradição, a estátua de Nossa Senhora de Nazaré, trazida de Portugal, foi escondida durante invasões holandesas no século XVII. Milagres atribuídos à santa impulsionaram a devoção entre indígenas e escravizados africanos. A primeira procissão oficial, autorizada em 1793 pelo governador Francisco de Souza Coutinho, marcou o início de uma tradição histórica e cultural do Pará (Site Oficial do Círio de Nazaré, 2025).

Em 1773, o bispo João Evangelista Pereira da Silva declarou Belém sob a proteção da santa, consolidando-a como padroeira do Pará e Rainha da Amazônia (CNN Brasil, 2025). Essa devoção colonial promoveu a integração social na Amazônia, servindo à evangelização jesuítica e ao controle territorial português em meio a disputas com espanhóis e holandeses.

No âmbito das  Relações Internacionais, por exemplo, o Círio de Nazaré pode ser compreendido, ao menos em um grau mínimo de compreensão, sob o conceito de Soft Power, conceito este trabalho pelo teórico Joseph Nye, teórico pertencente à vertente neoliberal das Relações Internacionais, o qual destaca a influência cultural e ideológica, fortalecendo a presença portuguesa e unificando identidades locais.

O Soft Power refere-se à capacidade de influenciar outros atores por meio da atração cultural e ideológica, em vez de coerção ou força militar. No contexto do Círio, o catolicismo português funcionou como um instrumento de Soft Power durante a colonização, promovendo a adesão das populações locais às normas e valores da metrópole por meio da devoção à Virgem de Nazaré. Essa estratégia fortaleceu a presença portuguesa na Amazônia, unificando grupos étnicos diversos sob uma identidade religiosa comum.

Hoje, o Círio perpetua essa influência ao projetar a identidade cultural do Norte do Brasil, especialmente de Belém, como um polo de espiritualidade e diversidade, reforçando a cosmovisão amazônica que combina fé, resistência e conexão com o meio ambiente. O coração do Círio é sua programação de 15 dias, que culmina na grande procissão de aproximadamente 4 quilômetros, da Catedral da Sé à Basílica Santuário de Nazaré. A Imagem Peregrina – uma réplica da original, com status de Chefe de Estado – é transportada em uma berlinda puxada através de uma corda por devotos, simbolizando humildade e unidade comunitária.

Outros elementos icônicos incluem o manto bordado à mão, os carros dos milagres (como o Carro de Plácido e a Barca da Guarda Mirim) e os hinos como “Vós sois o lírio mimoso” (Cultura Viva, 2025). As romarias diversificam a celebração, adaptando-se ao ambiente amazônico: o Círio Fluvial, no sábado anterior, leva a imagem pelos rios em uma frota de barcos decorados, reforçando a conexão com as águas vitais para a economia e a subsistência local.

A Romaria Rodoviária e visitas a bairros periféricos levam fé a comunidades remotas, promovendo inclusão social. Essa mobilidade reflete a geopolítica amazônica, onde os rios são eixos de comércio e integração, semelhantes às vias navegáveis que conectam Brasil, Peru, Colômbia e outros países na bacia amazônica. O Círio de Nazaré é uma tapeçaria cultural que entrelaça influências indígenas, africanas e europeias. A venda de maniva no Mercado Ver-o-Peso reflete práticas indígenas, enquanto danças e arraiais ecoam ritmos africanos adaptados ao contexto paraense (Brasil de Fato, 2019).

A celebração fortalece a identidade amazônica, desafiando narrativas que retratam a região como “selvagem” ou subdesenvolvida, e destacando-a como berço de uma cultura vibrante e resiliente. No âmbito das Relações Internacionais, o Círio atua como diplomacia cultural, atraindo peregrinos de mais de 30 países. Em 2024, cerca de 89 mil visitantes geraram R$ 189 milhões para a economia local, impactando aviação, hotelaria e artesanato religioso (Agência Gov, 2025).

Com a COP30 em Belém, em 2025, o evento amplia a visibilidade da Amazônia, promovendo sustentabilidade cultural em fóruns globais. O Círio fomenta cooperação social em uma região marcada por desigualdades e conflitos ambientais, unindo famílias em valores de esperança e solidariedade. Grupos marginalizados, como a comunidade LGBTQ+, encontram espaço para visibilidade na famosa “Festa da Chiquita” (Revista Fontes Documentais, 2025).

Mais do que uma procissão, o Círio é um pulsar de fé e cultura, forjando identidades globais a partir de tradições locais. Nas Relações Internacionais, ilustra a cultura como ponte diplomática, conectando o local ao universal. Em meio a mudanças climáticas e migrações, o Círio renova a esperança, posicionando a Amazônia como centro vital de humanidade e diversidade

Referências: 

Agência Gov. “Círio de Nazaré movimenta Belém (PA) e gera impacto econômico em diversos setores.” Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202410/cirio-de-nazare-movimenta-belem-pa-e-gera-impacto-economico-em-diversos-setores. Acesso em: 7 out. 2025. 

Brasil de Fato. “Círio de Nazaré reúne fé, tradição indígena e esperança nas ruas de Belém.” Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2019/10/12/cirio-de-nazare-reune-fe-tradicao-indigena-e-esperanca-nas-ruas-de-belem/. Acesso em: 6 out. 2025. 

CNN Brasil. “Entenda a história do Círio de Nazaré, que acontece no Pará.” Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/entenda-a-historia-do-cirio-de-nazare-que-acontece-todos-os-anos-no-para/. Acesso em: 7 out. 2025. 

Cultura Viva. “O Círio de Nazaré: A Maior Procissão Religiosa do Brasil e Sua Devoção Centenária.” Disponível em: https://culturaviva.com.br/o-cirio-de-nazare-a-maior-procissao-religiosa-do-brasil-e-sua-devocao-centenaria/. Acesso em: 5 out. 2025. 

Portal Amazônia. “Círio em Belém: 232 anos de devoção e fé a Nossa Senhora de Nazaré na Amazônia.” Disponível em: https://portalamazonia.com/cultura/cirio-nazare-232-anos-amazonia/. Acesso em: 7 out. 2025. 

Revista Fontes Documentais. “O Círio de Nossa Senhora de Nazaré como símbolo da memória e resistência social no Estado do Pará.” Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/RFD/article/view/57972. Acesso em: 6 out. 2025.  Site Oficial do Círio de Nazaré. Disponível em: https://www.ciriodenazare.com.br/. Acesso em: 8 out. 2025.