Lucas Cardoso – Acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

O fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, em 1991, provocaram profundas mudanças na estrutura de segurança europeia. Neste novo cenário, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) passou por um processo de redefinição de suas funções, deixando de atuar exclusivamente como uma aliança defensiva contra o bloco socialista e ampliando seu escopo de atuação política e militar. A expansão da aliança em direção ao Leste Europeu, com a incorporação de antigos membros do Pacto de Varsóvia e ex-repúblicas socialistas, tornou-se um dos elementos centrais da ordem de segurança pós-Guerra Fria no continente (Sarotte, 2021).

Ao longo do século XXI, esse movimento de expansão passou a ser interpretado pela Federação Russa como uma ameaça direta à sua segurança nacional e à sua influência regional. A percepção russa de cerco estratégico contribuiu para o aumento das tensões com o Ocidente, refletidas em crises e conflitos armados, especialmente no espaço pós-soviético (Sakwa, 2017).

Assim, o papel da OTAN na Europa pós-Guerra Fria revela-se um fator crucial para a compreensão das disputas geopolíticas contemporâneas, evidenciando os desafios à estabilidade regional e à cooperação internacional no século XXI (Waltz, 1979).

A OTAN foi criada em 1949, em um contexto de bipolaridade internacional e rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética. Sua formação respondeu à percepção de ameaça da expansão soviética na Europa Oriental, consolidando um sistema de defesa coletiva. Em resposta, a criação do Pacto de Varsóvia institucionalizou a divisão da Europa em dois blocos militares antagônicos durante a Guerra Fria (Gaddis, 2005).

Com o colapso da União Soviética e a dissolução do Pacto de Varsóvia, muitos analistas acreditaram que a OTAN perderia sua razão de existir. No entanto, a aliança se adaptou ao novo ambiente internacional, ampliando suas atribuições e avançando em direção ao Leste Europeu. Este processo ocorreu em um contexto de fragilidade russa nos anos 1990, lançando as bases para ressentimentos e disputas geopolíticas que se intensificariam nas décadas seguintes (Sarotte, 2021).

Durante a década de 1990, a reconfiguração da segurança europeia ocorreu sob forte influência das potências ocidentais, especialmente dos Estados Unidos. Neste contexto, a OTAN passou a promover iniciativas como o Partnership for Peace, que, embora apresentadas como mecanismos de cooperação, funcionaram como etapas preliminares para a futura adesão de países do Leste Europeu. Estados recém-independentes ou antes vinculados à esfera soviética passaram a ver a OTAN como uma garantia de segurança e integração ao espaço euro-atlântico (OTAN, 2026; Sarotte, 2021).

A primeira onda de expansão, em 1999, com a entrada de Polônia, Hungria e República Tcheca, marcou um ponto de inflexão na ordem de segurança europeia. Este processo foi aprofundado nos anos seguintes, sobretudo em 2004, quando Estados bálticos e outros países da Europa Oriental tornaram-se membros da aliança. Embora justificada oficialmente pela promoção da democracia e da segurança coletiva, esta ampliação reforçou a percepção, por parte da Federação Russa, de que seus interesses estratégicos estavam sendo sistematicamente ignorados no novo arranjo internacional (OTAN, 2026).

A chegada de Vladimir Putin ao poder representou uma mudança significativa na política externa russa. Diferentemente da postura conciliatória adotada nos anos 1990, Moscou passou a adotar um discurso mais assertivo, defendendo a recuperação de sua influência regional e denunciando a expansão da OTAN como um fator desestabilizador. A partir dos anos 2000, a Rússia passou a investir na modernização de suas forças armadas e a reagir de forma mais direta às iniciativas ocidentais em seu entorno geopolítico, especialmente no espaço pós-soviético (Sakwa, 2017).

Essas tensões tornaram-se mais evidentes em episódios como a guerra na Geórgia, em 2008, e a crise ucraniana a partir de 2014, que resultou na anexação da Crimeia pela Rússia. Tais acontecimentos revelaram o esgotamento das tentativas de cooperação entre Rússia e Ocidente e marcaram o retorno de uma lógica de confronto na Europa (Trénin, 2016).

A guerra iniciada em 2022 entre a Federação Russa e a Ucrânia representou o momento mais crítico das tensões entre Rússia e OTAN desde o fim da Guerra Fria. A invasão russa, justificada por Moscou como resposta à expansão da aliança e à possível adesão ucraniana, foi interpretada pelo Ocidente como violação da soberania estatal e da ordem internacional. Embora a OTAN não atue diretamente no conflito, seu apoio militar e financeiro à Ucrânia reforçou a percepção russa de envolvimento indireto, aprofundando a ruptura entre Rússia e Ocidente (Mearsheimer, 2014).

Nesse contexto, a expansão da OTAN ganhou novo impulso. A adesão da Finlândia em 2023 marcou o abandono de sua tradicional neutralidade e ampliou a fronteira direta entre a aliança e a Federação Russa. Paralelamente, países do Cáucaso, como Geórgia e Armênia, intensificaram movimentos de aproximação com estruturas euro-atlânticas, apesar das restrições geopolíticas (OTAN, 2026).

A teoria do Realismo Ofensivo, formulada por John J. Mearsheimer, parte do pressuposto de que o sistema internacional é anárquico e que os Estados, sobretudo as grandes potências, buscam maximizar seu poder relativo para garantir a sobrevivência. A expansão da OTAN no pós-Guerra Fria pode, assim, ser interpretada como uma estratégia das potências ocidentais para ampliar sua influência na Europa (Mearsheimer, 2001).

Sob essa lógica, a reação da Rússia à expansão da OTAN, incluindo a oposição à adesão de novos membros e o uso da força em seu entorno estratégico, torna-se coerente com os postulados do Realismo Ofensivo. Para Mearsheimer, grandes potências resistem à presença de alianças rivais em áreas consideradas vitais, buscando preservar sua posição regional (Mearsheimer, 2001).

Referências: 

GADDIS, John Lewis. The Cold War. New York: Penguin Press, 2005.

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.

MEARSHEIMER, John J. Why the Ukraine crisis is the West’s fault: the liberal delusions that provoked Putin. Foreign Affairs, v. 93, n. 5, p. 77–89, 2014.

NATO. Organização do Tratado do Atlântico Norte. NATO enlargement. Disponível em: https://www.nato.int. Acesso em: 27  jan. 2026.

SAROTTE, Mary Elise. Not One Inch: America, Russia, and the Making of Post–Cold War Stalemate. New Haven: Yale University Press, 2021.

SAKWA, Richard. Russia Against the Rest: The Post-Cold War Crisis of World Order. Cambridge: Cambridge University Press, 2017.

TRÉNIN, Dmitri. What Is Russia Up to in Ukraine. Cambridge: Polity Press, 2016.