
Thais Vitória Borges – Internacionalista
O chamado terceiro debate das Relações Internacionais, ou debate inter-paradigmático, é responsável por inserir novas perspectivas e elementos que não eram focados nas preocupações clássicas das RI – que era concentrado nas pautas de segurança nacional, diplomacia, regimes comerciais e equilíbrio de poder, – com este movimento são introduzidos à disciplina os estudos de gênero, o pós-modernismo e o pós-colonialismo, enriquecendo assim as discussões do campo.
Surgido na década de 1970, o pós-colonialismo configura-se como uma abordagem de revisionismo crítico fundamentada em uma análise bifocal das relações de poder (pós-)coloniais, ao mesmo tempo em que propõe estratégias normativas voltadas à descolonização das historiografias hegemônicas. Não se trata de uma teoria homogênea e unificada, mas de um campo marcado pela multiplicidade de perspectivas, que emergem de distintas interpretações das condições (pós-)coloniais. Essas interpretações variam conforme os contextos históricos e os espaços geográficos em que se inserem (Wilkens, 2017). Nesse sentido, vale o enfoque nas contribuições de Ali Al Amin Mazrui dentro dos estudos pós-coloniais.
Nascido em Mombaça, no Quênia, Ali Al Amin Mazrui foi um cientista político queniano-americano, amplamente reconhecido como um dos mais destacados e influentes estudiosos da política no contexto da África Oriental (Shepherd, 2025). O professor Mazrui exerceu significativa influência sobre os estudos da política africana, da cultura política internacional, do Islã político e da globalização. Sua produção intelectual permanece relevante para os estudiosos contemporâneos (African Academy of Sciences, 2025).
Uma de suas principais ideias é a da “Tríplice Herança”, esta que aponta que o continente africano se caracteriza por uma complexa articulação de três grandes matrizes históricas e culturais: a herança africana indígena, a herança europeia (associada ao colonialismo e ao capitalismo) e a herança árabe-islâmica. A interação entre essas influências foi responsável por moldar a identidade, cultura e política do continente (Adem , 2011).
Para Mazrui, contudo, é sobretudo nos domínios da tecnologia e do conflito que os legados da Tríplice Herança se mostram mais duradouros e consequentes. O autor afirma que diferentes estágios históricos da tecnologia coexistem simultaneamente no continente africano, de modo que “a lança dita ‘tribal’ convive com o míssil moderno, o ferreiro com a usina siderúrgica, o tambor falante com a transmissão via satélite, a feitiçaria com a física nuclear, e a medicina herbal com a cirurgia avançada” (Mazrui, 2004 apud Adem, 2011).
Ao longo de sua trajetória intelectual, Mazrui publicou um total de 47 obras, dentre as quais se destaca Towards a Concept of “Pax Africana (1967), dentro da qual o autor formula o conceito de “Pax Africana”, defendendo que a responsabilidade primordial pela manutenção da segurança e pela resolução de conflitos no continente africano deve ser assumida pelos próprios africanos, e não imposta ou tutelada por potências externas.
Além disso, Mazrui desenvolve uma crítica contundente às intervenções de caráter neocolonial, à dependência militar em relação ao Ocidente e à instrumentalização estratégica da África no contexto da Guerra Fria. Ao fazê-lo, o autor problematiza as dinâmicas globais de poder que restringem a soberania africana e perpetuam formas indiretas de dominação (Mazrui, 1967).
Outra obra importante, The African Condition (1980), apresenta uma análise aprofundada da crise estrutural que caracteriza a África no período pós-colonial. Nessa obra, Mazrui examina os múltiplos desafios enfrentados pelos Estados africanos após os processos de independência, rejeitando interpretações reducionistas que atribuem tais dificuldades exclusivamente ao legado do colonialismo ou, em sentido oposto, à atuação das elites africanas.
O autor sustenta que a realidade africana é atravessada por um conjunto de crises interdependentes, entre as quais se destacam a crise de identidade, a crise de legitimidade política, a crise econômica, a crise educacional, a crise cultural e a crise de dependência externa. Essas dimensões não operam de forma isolada, mas se reforçam mutuamente, produzindo um quadro complexo de instabilidade estrutural (Mazrui, 1980).
Em conclusão, relevância de Ali A. Mazrui para o pensamento político e social africano e os estudos Pós-coloniais nas RI reside na profundidade e na originalidade com que articulou análises históricas, culturais e geopolíticas acerca da experiência africana no mundo moderno. Ao longo de sua extensa produção intelectual, o autor contribuiu de maneira decisiva para a compreensão das dinâmicas do pós-colonialismo, da identidade africana e das relações de poder globais, destacando-se por conceitos como a Tríplice Herança e a Pax Africana.
Sua obra não apenas desafiou leituras eurocêntricas e interpretações simplificadoras da realidade africana, como também antecipou debates centrais sobre autonomia, segurança regional e modernidade no continente. Nesse sentido, Mazrui permanece uma referência fundamental para os estudos africanos e para a reflexão crítica sobre a posição da África no sistema internacional contemporâneo.
REFERÊNCIAS
ADEM, Seifudein. Ali A. Mazrui, postcolonialism and the study of international relations. Journal of International Relations and Development, v. 14, n. 4, p. 506-535, 2011.
AFRICAN ACADEMY OF SCIENCES. Mazrui Ali Al-Amin. Nairobi: AAS, [20–?]. Disponível em: https://aasciences.africa/fellows/mazrui-ali-al-amin.
MAZRUI, Ali A. The African condition: A political diagnosis. Cambridge University Press, 1980.
MAZRUI, Ali A. Towards a Concept of “Pax Africana”. In: The Palgrave Handbook of Peacebuilding in Africa. Cham: Springer International Publishing, 2018. p. 29-44.
SHEPHERD, Melinda C. Ali Al Amin Mazrui. In: ENCYCLOPÆDIA Britannica. [S. l.]: Encyclopædia Britannica, 8 out. 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Ali-Al-Amin-Mazrui.
WILKENS, Jan. Postcolonialism in international relations. In: Oxford Research Encyclopedia of International Studies. 2017.
