Railson Silva (acadêmico do 8° semestre de RI da UNAMA)

O vasto campo das Relações Internacionais (RI) foi estruturado historicamente por debates paradigmáticos que buscaram explicar a dinâmica mundial a partir de conceitos como soberania, Estado, anarquia e ordem. Durante grande parte do século XX, esses conceitos foram tratados como dados ontológicos relativamente estáveis, sobretudo pelas tradições do realismo e do liberalismo. 

A partir das décadas de 80 e 90, contudo, emergiu um conjunto de críticas que questionou não apenas as respostas oferecidas por tais paradigmas, mas os próprios fundamentos epistemológicos e ontológicos da disciplina. Nesse contexto, destaca-se a contribuição de Robert Walker, cuja perspectiva pós-moderna desloca o foco analítico das “explicações” causais para a problematização das fronteiras conceituais que sustentam o pensamento internacional.

Walker parte do pressuposto de que as Relações Internacionais (RI) não são simplesmente o estudo de interações entre Estados soberanos, mas uma prática discursiva que reproduz certas fronteiras políticas fundamentais. A disciplina naturalizou a divisão entre política doméstica e política internacional, tratando-a como dado ontológico. No entanto, segundo Walker, essa divisão é produto da modernidade política e da consolidação do Estado soberano como forma dominante de organização do poder (Walker, 2009).

Em After the Globe, Before the World (2009), Walker argumenta que a imaginação política moderna foi estruturada por uma visão “globular” do mundo — a ideia de um globo dividido em unidades territoriais soberanas. O “globo” não é apenas uma descrição geográfica, mas um dispositivo político que permite pensar o mundo como um conjunto de Estados delimitados espacialmente (Walker, 2009). Assim, o internacional surge como o espaço “entre” essas unidades, um espaço definido pela ausência de uma autoridade central.

Ao problematizar essa estrutura, Walker aproxima-se de correntes pós-estruturalistas influenciadas por autores como Michel Foucault e Jacques Derrida, embora sua contribuição seja original no campo das RI. Para ele, o internacional não é uma realidade empírica anterior ao discurso, mas um efeito de práticas discursivas que delimitam o político em termos espaciais específicos (Walker, 2009).

O título da obra é, por si só, uma provocação teórica. “Depois do globo” sugere o esgotamento da imaginação política moderna baseada na soberania territorial; “antes do mundo” indica a ausência de uma alternativa plenamente constituída. Walker situa-se, portanto, em um entre-lugar histórico: um momento em que a forma estatal soberana é contestada por processos como globalização, fluxos transnacionais e redes digitais, mas ainda não substituída por uma nova forma de organização política.

Segundo Walker (2009), a globalização frequentemente é apresentada como superação do Estado, mas, paradoxalmente, continua dependente das categorias modernas de soberania e territorialidade. O discurso da globalização, ao afirmar que vivemos em um “mundo sem fronteiras”, ainda pressupõe a existência dessas fronteiras como referência. Desse modo, a crítica de Walker não se dirige apenas ao estatocentrismo clássico, mas também às narrativas referentes à globalização.

Ademais, o teórico argumenta que estamos “após o globo” porque as fronteiras soberanas já não conseguem conter os fluxos econômicos, tecnológicos e culturais. Entretanto, ainda estamos “antes do mundo” porque não conseguimos conceber uma comunidade política verdadeiramente global que ultrapasse as lógicas de inclusão/exclusão próprias da modernidade (Walker, 2009). O “mundo”, nesse sentido, permanece como promessa não realizada.

Um dos eixos centrais da reflexão de Walker é a soberania. Em vez de tratá-la como atributo jurídico do Estado, ele a analisa como prática que estabelece limites: quem pertence e quem é excluído, quem é cidadão e quem é estrangeiro, quem está dentro e quem está fora. A soberania moderna, ao delimitar um “dentro” politicamente ordenado e um “fora” anárquico, produz uma narrativa de segurança interna versus ameaça externa (Walker, 2009).

Essa lógica binária sustenta grande parte das teorias tradicionais das RI. O realismo, por exemplo, parte da premissa de anarquia internacional, enquanto o liberalismo aposta na cooperação entre unidades soberanas. Ambos, no entanto, aceitam a distinção fundamental entre interior e exterior. Walker demonstra que essa distinção não é neutra: ela organiza hierarquias, legítima intervenções e sustenta formas de violência política.

Em suma, a contribuição de Robert Walker para as Relações Internacionais reside menos na formulação de uma teoria alternativa do sistema internacional e mais na desconstrução dos fundamentos modernos que sustentam a disciplina. Na obra “After the Globe, Before the World”, ele demonstra que a imaginação política moderna, estruturada em torno do Estado soberano e da divisão entre interno e externo, encontra-se em crise, mas ainda não foi superada.

Referências:

WALKER, R. B. J. After the Globe, Before the World. London: Routledge, 2009.