Pedro Paulo Araujo Carvalho – acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A crise humanitária no Sudão se configura como uma das mais graves emergências contemporâneas do sistema internacional. Desde abril de 2023, o país enfrenta um conflito armado entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), aprofundando o processo de instabilidade política iniciado após a deposição de Omar al-Bashir em 2019. O conflito resultou em colapso institucional, destruição de infraestrutura básica e deslocamentos populacionais em massa. De acordo com o United Nations High Commissioner for Refugees (ACNUR, 2024), mais de 14 milhões de pessoas foram deslocadas desde o início do conflito, tornando o Sudão epicentro de uma das maiores crises de deslocamento forçado do mundo. O United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA, 2024) estima que aproximadamente 25 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária urgente. Paralelamente, o World Food Programme (PMA, 2024) alerta que quase metade da população enfrenta níveis severos de insegurança alimentar. Apesar da magnitude dos dados, a crise sudanesa permanece relativamente marginal no debate político internacional. Com isso, se levanta uma questão central: por que determinadas crises humanitárias mobilizam ampla atenção internacional enquanto outras permanecem à margem? 

Portanto, através da Teoria Construtivista das Relações Internacionais, temos instrumentos analíticos adequados para compreender essa seletividade. Para Alexander Wendt (1999), a estrutura do sistema internacional é constituída por significados intersubjetivos compartilhados. Em sua formulação clássica, o autor sustenta que “a anarquia é o que os Estados fazem dela” (WENDT, 1999), indicando que o ambiente internacional não possui um significado fixo, mas é moldado pelas interações sociais. Essa perspectiva é essencial para analisar crises humanitárias, pois evidencia que a resposta internacional não depende exclusivamente da magnitude factual dos acontecimentos, mas da forma como esses eventos são interpretados e enquadrados discursivamente. A realidade internacional é, portanto, socialmente construída. 

Complementarmente, Martha Finnemore (1996) argumenta que os interesses estatais são moldados por normas internacionais e processos de socialização. Estados internalizam padrões de comportamento considerados legítimos dentro da comunidade internacional. No campo humanitário, normas como os direitos humanos universais e a Responsabilidade de Proteger estabelecem obrigações morais amplamente reconhecidas. Entretanto, sua aplicação depende da construção social da urgência. Nem todas as crises são enquadradas como violações intoleráveis da ordem internacional. Assim, a mobilização coletiva está condicionada à forma como a crise é representada no discurso global. 

Sob a ótica da perspectiva construtivista ao caso sudanês se revela que a invisibilidade relativa da crise decorre de processos sociais que moldam a agenda internacional. Embora o ACNUR (2024) identifique o Sudão como uma das maiores crises de deslocamento global, a mobilização política e midiática permanece limitada quando comparada a outros conflitos. Além disso, a mídia internacional desempenha papel central na construção da agenda global. Ao selecionar quais eventos recebem destaque, contribui para a definição de prioridades políticas. Quando uma crise não é constantemente visibilizada, sua capacidade de mobilizar recursos e ações diplomáticas diminui. 

Outro elemento relevante refere-se ao subfinanciamento dos planos humanitários. O OCHA (2024) reconhece que os recursos disponíveis estão significativamente abaixo das necessidades estimadas. Essa lacuna evidencia a distância entre o discurso normativo universalista e a prática efetiva. Conforme argumentam Finnemore e Sikkink (1998), normas internacionais não operam automaticamente, sua eficácia depende da mobilização política e da legitimação social. Assim, a crise sudanesa exemplifica como a política internacional é moldada por estruturas simbólicas que definem quais tragédias são percebidas como prioritárias. 

Diante das problemáticas apresentadas acima, torna-se evidente que a crise humanitária no Sudão ultrapassa a dimensão de um conflito interno e revela, sobretudo, os mecanismos seletivos que estruturam a política internacional contemporânea. Com milhões de deslocados, insegurança alimentar generalizada e colapso institucional, a gravidade objetiva da situação é incontestável. Contudo, a limitada centralidade do caso sudanês na agenda global demonstra que a mobilização internacional não é determinada exclusivamente por indicadores quantitativos de sofrimento humano. Conclui-se que compreender a crise humanitária no Sudão sob a ótica construtivista permite não apenas explicar sua invisibilidade relativa, mas também problematizar os critérios normativos que orientam a ação internacional. 

Referências: 

FINNEMORE, Martha. National Interests in International Society. Ithaca: Cornell University Press, 1996. 

FINNEMORE, Martha; SIKKINK, Kathryn. International norm dynamics and political change. International Organization, v. 52, n. 4, 1998. 

ACNUR – ALTO COMISSARIADO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA  REFUGIADOS. Atualização sobre a emergência no Sudão. Genebra: ACNUR, 2024 

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. 

PMA – PROGRAMA MUNDIAL DE ALIMENTOS. Relatório de Situação da Emergência no Sudão. Roma: PMA, 2024. 

OCHA – ESCRITÓRIO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A COORDENAÇÃO DE ASSUNTOS HUMANITÁRIOS. Plano de Necessidades e Resposta Humanitária para o Sudão 2024. Nova York: ONU, 2024.