Ícaro Santos Pereira – Acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

A Guerra entre Irã e Iraque (1980-1988) foi uma das principais guerras do Oriente Médio da história contemporânea. Alterando a geopolítica e as alianças de toda a região e produzindo repercussões por todo o globo, bem como premeditando a divisão de poder especialmente na área do Golfo Pérsico, o conflito colocou em xeque a estabilidade do espaço de maior trânsito de petróleo do mundo (HIRO, 1991).

Ademais, protagonizou trágicos episódios de crimes de guerra e contra a humanidade, como a utilização de armas químicas no campo de batalha e a limpeza étnica da população curda no norte do Iraque. Tais eventos produziram uma desconfiança na capacidade de segurança dos Estados, vista a sua busca constante por hegemonia no sistema internacional (PELLETIERE, 1992; HUMAN RIGHTS WATCH, 1993).

A relação entre Iraque e Irã é milenar, assim como a história de suas civilizações, que atingem as primeiras sociedades sedentárias humanas na região do Crescente Fértil e passam por grandes impérios como o Babilônico, o Persa, o Árabe e vários outros. A partir do século XIV, o colonialismo europeu iniciou seu estabelecimento no Oriente Médio; após a Primeira Guerra Mundial e a partilha do Império Otomano (FROMKIN, 2009).

O Iraque tornou-se um protetorado britânico dirigido por uma monarquia aliada até a Proclamação da República, esta dirigida pelo Partido Ba’ath e posteriormente por Saddam Hussein. O Irã, por outro lado, mantinha-se como um Estado tampão entre a Rússia e as colônias britânicas (TRIPP, 2007).

Após o golpe financiado pelos EUA e Reino Unido contra o primeiro-ministro nacionalista Mohamed Mossadegh, que almejava a nacionalização do petróleo, o Irã, agora sob liderança do xá Reza Pahlavi, alinhou-se totalmente ao Ocidente e conduziu reformas que desagradaram grupos socialistas, nacionalistas e, em especial, os islâmicos. Em 1979, gestou-se uma revolução que derrubaria o xá e estabeleceria a República Islâmica (KEDDIE, 2006).

As tensões territoriais entre Irã e Iraque antecedem em décadas o conflito armado, mas foram agravadas na década de 1960 pela descoberta de enormes reservas de petróleo na região de Cuzistão (região no Irã de maioria árabe) e ao longo da fronteira de Chatt al-Arab, um estuário estratégico formado pela confluência dos rios Tigre e Eufrates. Saddam Hussein via na Revolução Iraniana de 1979 uma oportunidade única para retomar o controle pleno de Chatt al-Arab, direito que lhe fora parcialmente cedido pelo Acordo de Argel de 1975, que mediava a exploração de petróleo entre os países (KARSH, 2002).

Além disso, o Iraque via a necessidade de uma saída segura ao Golfo Pérsico, visto que o principal porto de sua exportação estava em território iraniano. Por fim, havia a desconfiança de que o novo regime teocrático xiita de Teerã ameaçava exportar sua revolução para o Iraque — também de maioria xiita — e para os demais Estados da região, como por exemplo com o apoio iraniano a uma tentativa de golpe no Bahrein em 1981 (HIRO, 1991).

Do ponto de vista da Teoria Realista de John Mearsheimer (2001), a guerra ilustra perfeitamente o conceito dos atores internacionais em busca da hegemonia regional, assim como o da incerteza sobre os objetivos de um Estado em relação ao outro. Ambos os países, temendo a vulnerabilidade e a dependência energética, agiram conforme a lógica ofensiva do realismo, na qual a sobrevivência exige a maximização de poder relativo.

O petróleo não era apenas um recurso econômico, era a chave para a autonomia estratégica e a capacidade de projetar força no Golfo. O Iraque de Saddam buscava se tornar a hegemonia regional e assumir a liderança do movimento pan-arabista anteriormente ocupado pelo Egito de Gamal Abdel Nasser, enquanto o Irã buscava estabilizar-se internamente para poder projetar força sobre a região do Golfo Pérsico e sobre os territórios de maioria xiita.

Ao contrário das guerras convencionais, o conflito entre Irã e Iraque assumiu contornos de guerra total, com táticas que iam da guerra de trincheiras e da guerra de atrito na fronteira de ambos os países até ataques humanos em massa, as chamadas “ondas humanas” iranianas, inspiradas no martírio xiita, e bombardeios a centros urbanos e navios petroleiros no Golfo, antecedendo o conflito iraniano moderno.

O ponto de inflexão mais sombrio foi o emprego recorrente de armas químicas por parte do Iraque, como gás mostarda e agentes nervosos contra soldados iranianos e, posteriormente, contra civis curdos no próprio território iraquiano (estes vistos como aliados do Irã) (HUMAN RIGHTS WATCH, 1993).

A comunidade internacional, dividida pela Guerra Fria e pelos interesses econômicos, entrou em uma situação ímpar: EUA, URSS, China, França, Israel e os Estados árabes (com exceção da Líbia e da Síria) apoiaram o Iraque, pois temiam o papel que o Irã poderia desempenhar na região, mesmo que a questão das alianças tenha gerado inúmeras controvérsias, como o caso Irã-Contras por parte dos Estados Unidos e o calote iraquiano aos empréstimos sauditas e do Kuwait (que posteriormente geraram a Guerra do Golfo) (KARSH, 2002).

Enquanto isso, a comunidade internacional assistiu passivamente ou fez vistas grossas. Estima-se que o Iraque tenha realizado mais de 280 ataques químicos, matando dezenas de milhares de iranianos (PELLETIERE, 1992). Esta violação flagrante da Convenção de Genebra de 1925, no entanto, não gerou punições efetivas à época, consolidando um perigoso precedente sobre a impunidade no uso de armas de destruição em massa em guerras interestatais.

Mesmo com ambos os lados adentrando o território inimigo, nenhum dos Estados alcançou uma vitória estratégica, o que fez com que o Conselho de Segurança da ONU adotasse, em 1987, a Resolução 598 demandando o cessar-fogo, que se seguiu no ano seguinte, contrariando o interesse iraniano de prosseguir a guerra, mas ao final acatado (UN Security Council Report, 1987). Tal conflito não gerou uma vitória definitiva para os beligerantes, mas, no caso iraniano, ajudou na coesão interna ao redor do governo islâmico e, no caso iraquiano, lançou o país em contenda com os antigos aliados árabes, criando as bases para a futura Guerra do Golfo.

REFERÊNCIAS:

FROMKIN, David. A Peace to End All Peace. New York: Holt, 2009.

HIRO, Dilip. The Longest War: The Iran-Iraq Military Conflict. New York: Routledge, 1991.

HRW. Genocide in Iraq: The Anfal Campaign Against the Kurds. Human Rights Watch,1993.

KARSH, Efraim. The Iran-Iraq War 1980-1988. Oxford: Osprey, 2002.

KEDDIE, Nikki R. Modern Iran: Roots and Results of Revolution. New Haven: Yale University Press, 2006.

MEARSHIEMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. W.W. Norton & Company, 2001.

PELLETIERE, Stephen C. The Iran-Iraq War: Chaos in a Vacuum. New York: Praeger, 1992.TRIPP, Charles. A History of Iraq. Cambridge: Cambridge University Press, 2007

UN. Security Council Report: Resolution 598. New York: United Nations Digital Library System, 19987.